Os dramas televisivos produzidos na Coreia do Sul, conhecidos internacionalmente como K-dramas e popularmente chamados de doramas no Brasil, deixaram de ser um fenômeno de nicho para se consolidarem como um dos produtos audiovisuais mais consumidos no mundo. Embora o termo “dorama” tenha origem na adaptação japonesa da palavra inglesa drama, ele acabou sendo incorporado pelo público brasileiro para designar, de forma geral, as séries asiáticas, especialmente as produções sul-coreanas.

A expansão desse mercado começou a ganhar força no final dos anos 1990 e início dos anos 2000, impulsionada pelo fenômeno conhecido como Hallyu, ou “Onda Coreana”. Inicialmente concentrada em países da Ásia, essa difusão cultural rapidamente alcançou outros continentes por meio da exportação de novelas, filmes e, posteriormente, da música pop coreana (K-pop).
Com a chegada das plataformas de streaming, especialmente na segunda metade da década de 2010, os K-dramas passaram a ocupar um espaço cada vez mais relevante nos catálogos internacionais, conquistando milhões de espectadores e transformando a Coreia do Sul em uma das principais potências da indústria do entretenimento.
Atualmente, os doramas figuram entre os conteúdos mais assistidos em diversas plataformas e movimentam comunidades de fãs altamente engajadas nas redes sociais. Embora sejam consumidos por pessoas de diferentes idades e gêneros, estudos mostram que a audiência é predominantemente feminina. Um artigo publicado no periódico científico The Comics Grid: Journal of Comics Scholarship, com base em dados da Korea Creative Content Agency (KOCCA), aponta que 62% dos espectadores de K-dramas são mulheres, enquanto 38% são homens. Esse cenário desperta uma questão interessante: o que faz com que essas produções estabeleçam uma conexão tão forte com o público feminino? A resposta envolve aspectos narrativos, culturais, emocionais e até sociais, que ajudam a explicar por que os doramas se tornaram muito mais do que uma simples tendência passageira.
O protagonismo feminino e a forma como as mulheres são retratadas

Um dos fatores que mais ajudam a explicar a popularidade dos doramas entre as mulheres está na forma como elas são retratadas. Em muitos dos K-dramas de maior sucesso, as personagens femininas não ocupam apenas o papel de interesse romântico ou de coadjuvantes da jornada masculina. São elas que conduzem a narrativa, tomam decisões importantes e oferecem ao público a perspectiva pela qual a história é contada.
Mais do que protagonizar os acontecimentos, essas personagens costumam ter seus sentimentos levados a sério. Seus medos, desejos, inseguranças, ambições e conflitos internos recebem tempo de tela e desenvolvimento narrativo, fazendo com que suas emoções sejam tratadas como o centro da história, e não como um elemento secundário.
Essa construção contrasta com um padrão frequentemente discutido pelos estudos de cinema. Em seu influente ensaio Visual Pleasure and Narrative Cinema (1975), a teórica britânica Laura Mulvey argumenta que grande parte do cinema ocidental clássico foi construída a partir do chamado “olhar masculino” (male gaze), no qual as mulheres aparecem prioritariamente como objetos de contemplação e desejo, enquanto os homens ocupam a posição de quem conduz a ação e a narrativa. Como escreve Mulvey, “o olhar masculino projeta sua fantasia sobre a figura feminina”.
Outro aspecto frequentemente apontado por fãs é a forma como essas mulheres são filmadas. Diferentemente de muitas produções ocidentais, em que a sexualização feminina ainda é um recurso recorrente, diversos doramas priorizam a construção da personalidade, dos relacionamentos e da trajetória das protagonistas. Isso não significa que a aparência deixe de ter importância, mas ela raramente se sobrepõe à identidade da personagem.

Essa abordagem cria uma identificação que vai além do romance. O público acompanha mulheres que trabalham, estudam, enfrentam dificuldades familiares, amadurecem emocionalmente e constroem seus próprios caminhos. Em vez de serem definidas apenas pelo olhar de outros personagens, elas são apresentadas como indivíduos complexos, com desejos, contradições e espaço para evoluir ao longo da narrativa.
O ritmo em que os relacionamentos são construídos
Se existe uma característica que diferencia muitos doramas de outras produções românticas é o ritmo com que os relacionamentos se desenvolvem. Em vez de acelerar o envolvimento entre os personagens, os K-dramas costumam dedicar tempo para construir a confiança, a amizade e o vínculo emocional antes que o casal finalmente fique junto.
Essa construção lenta faz com que os sentimentos tenham espaço para amadurecer. Os personagens passam a se conhecer, enfrentam conflitos, aprendem sobre as vulnerabilidades um do outro e criam uma conexão que vai além da atração imediata. O romance deixa de ser apenas um objetivo da história e passa a ser consequência de um processo.

Por isso, momentos aparentemente simples acabam ganhando enorme significado. Um olhar prolongado, um toque nas mãos, um abraço ou o primeiro beijo se transformam em acontecimentos marcantes justamente porque foram precedidos por vários episódios de expectativa e desenvolvimento emocional. A recompensa narrativa acontece porque o público acompanhou cada etapa dessa aproximação.
O ator sul-coreano Park Seo-joon (Dream High 2, Witch’s Romance) atribui parte do sucesso global dos doramas à universalidade das emoções retratadas nas histórias. Em entrevista publicada pelo portal filipino GMA News Online, em 2020, o ator afirmou: “Acho que qualquer pessoa no mundo pode se identificar com as emoções humanas e os sentimentos das situações que surgem nesses dramas”
O diretor e roteirista Hwang Dong-hyuk (Round 6, Silenced) também já comentou sobre o apelo internacional das produções sul-coreanas. Em entrevista concedida à agência de notícias sul-coreana Yonhap News — posteriormente repercutida pelo portal Koreaboo —, Hwang afirmou que a simplicidade das histórias permite que o público se concentre mais nos personagens e se conecte emocionalmente com eles.
Esse tipo de construção contrasta com o ritmo adotado por muitas produções ocidentais contemporâneas, que frequentemente apresentam relações amorosas de forma mais imediata. Nos doramas, a demora não costuma ser encarada como um obstáculo, mas como parte essencial da experiência.
Como os homens são retratados?

Outro elemento frequentemente apontado pelas fãs dos doramas é a forma como muitos protagonistas masculinos são construídos. Embora existam exceções e diferentes tipos de personagens, uma parcela significativa dos romances sul-coreanos apresenta homens que demonstram disponibilidade emocional e participam ativamente da construção do relacionamento.
A filósofa feminista Bell Hooks, em seu livro The Will to Change: Men, Masculinity, and Love (2004), argumenta que o patriarcado incentiva os homens a reprimirem emoções consideradas incompatíveis com a masculinidade tradicional, dificultando a construção de vínculos afetivos profundos. Segundo a autora, esse sistema exige dos homens que “matem as partes emocionais de si mesmos”, produzindo relações frequentemente marcadas pela dificuldade de comunicação, pela resistência à vulnerabilidade e pela associação entre masculinidade e dominação. Nesse contexto, os protagonistas dos doramas podem representar, para parte do público feminino, uma alternativa simbólica ao modelo tradicional de masculinidade.
Esses personagens costumam aprender a expressar afeto, pedir desculpas, ouvir, dialogar e demonstrar cuidado com a parceira. O interesse amoroso não é mostrado apenas por grandes declarações, mas também por pequenos gestos cotidianos de atenção, respeito e presença.
Também é comum que esses protagonistas assumam uma postura protetora e cavalheiresca, cuidando da mulher em momentos de dificuldade e tomando a iniciativa quando necessário. No entanto, em muitos doramas, essa liderança é construída mais pela responsabilidade e pelo compromisso do que pela imposição ou arrogância. A narrativa tende a valorizar homens que inspiram confiança, cumprem o que prometem e demonstram consideração pelos sentimentos da protagonista.

Essa representação dialoga com uma mudança mais ampla na maneira como a masculinidade vem sendo discutida na cultura popular. Em vez do arquétipo do homem emocionalmente distante, muitos doramas apostam em personagens capazes de conciliar força e sensibilidade. Para parte do público feminino, esse tipo de protagonista oferece uma fantasia romântica baseada não apenas na atração física, mas na ideia de um parceiro emocionalmente presente, respeitoso e disposto a construir uma relação de forma recíproca.

É importante destacar, porém, que esse não é um padrão universal dos K-dramas. Existem protagonistas frios, arrogantes, moralmente ambíguos e até tóxicos, especialmente em produções mais antigas ou em determinados gêneros. Ainda assim, a valorização de homens emocionalmente disponíveis e atentos às necessidades da parceira tornou-se uma característica recorrente em muitos dos romances sul-coreanos, ajudando a explicar sua forte identificação com parte do público feminino.
A estética como experiência emocional

Outro aspecto frequentemente mencionado pelas fãs dos doramas é o cuidado estético presente nas produções sul-coreanas. Fotografia elaborada, direção de arte sofisticada, figurinos cuidadosamente planejados e trilhas sonoras marcantes contribuem para criar uma experiência audiovisual altamente imersiva.
Mais do que um simples elemento visual, essa estética atua diretamente na construção das emoções. Cenas românticas costumam ser acompanhadas por enquadramentos delicados, iluminação suave e músicas especialmente compostas para reforçar a carga afetiva dos momentos vividos pelos personagens. O resultado é uma narrativa que convida o público não apenas a acompanhar a história, mas a senti-la intensamente.

Além disso, muitos doramas apresentam cenários visualmente idealizados, como cafés aconchegantes, paisagens urbanas cuidadosamente fotografadas e ambientes domésticos acolhedores. Esses espaços ajudam a construir uma atmosfera de conforto e escapismo, permitindo que o espectador se projete naquele universo ficcional.
O cuidado visual não funciona apenas como ornamentação, mas como um recurso narrativo capaz de tornar as relações, os sentimentos e os pequenos gestos cotidianos ainda mais significativos e memoráveis.
O sucesso dos doramas entre o público feminino não pode ser explicado por um único fator. Trata-se, na verdade, de um fenômeno multifacetado, que reúne elementos narrativos, emocionais, culturais e estéticos. Ao apresentar protagonistas femininas complexas, relações construídas de forma gradual, personagens masculinos emocionalmente disponíveis e narrativas que valorizam sentimentos, vínculos e crescimento pessoal, muitos K-dramas oferecem experiências que dialogam com desejos, expectativas e transformações vividas por diversas mulheres na contemporaneidade.
Mais do que simples histórias de romance, os doramas criam espaços de identificação, conforto e imaginação, permitindo que o público experimente outras possibilidades de amar, se relacionar e existir. Talvez seja justamente nessa combinação entre fantasia, emoção e reconhecimento que resida a força duradoura desse fenômeno global.