Em um espaço minimalista e íntimo, decorado pelas paredes de tijolos do Teatroiquè, Larissa Nunes cria uma experiência intensa e única sobre o processo de um término de relacionamento, guiado pela visão de uma mulher negra que se liberta do cenário do abandono para se reencontrar e se reerguer sozinha. 

Na peça “Uma Voz Humana”, em cartaz até o dia 20 de julho, Larissa apresenta um monólogo profundo, carregado de vivência e emoção. Explorando todos os cantos do palco, ela desbrava as nuances dos sentimentos de uma mulher enfrentando o fim desse relacionamento, ao mesmo tempo em que decide lidar com o turbilhão de emoções e pensamentos que a habitam.

Em entrevista especial para a Histeria, Larissa afirma que a situação retratada na peça é algo que muitas mulheres podem se identificar. “(…) nós acompanhamos uma personagem imaginando saídas, imaginando possibilidades de sair de uma situação de dor; e a gente começa a pensar diferente a respeito de como nós podemos imaginar e se libertar. Principalmente nós, mulheres”. 

“Uma Voz Humana”, escrito em 1930 por Jean Cocteau, mostra uma mulher enfrentando os dilemas do fim de uma relação amorosa por meio de uma ligação telefônica. No texto original, o contato entre ela e Ele (o ex-amante) é mediado por uma secretária eletrônica, e a personagem se mantém no ciclo do sofrimento e do abandono. Na releitura da montagem de 2026, dirigida por José Fernando Peixoto de Azevedo, a mulher se encontra conectada ao fone de ouvido bluetooth e consegue, por fim, enxergar a possibilidade de um recomeço. 

Larissa Nunes em cena na peça “Uma Voz Humana” | Imagem: João Maria Silva Junior

Para Larissa, a beleza do texto clássico está justamente na oportunidade de adaptá-lo aos novos tempos: “Vemos que, 90 e tantos anos depois, a gente continua terminando relacionamentos por telefone, mensagem, áudio, silêncios. (…) Temos a possibilidade de fazer com o clássico uma leitura nova.”

Além de proporcionar a prática do teatro, o monólogo também utiliza mecanismos do audiovisual para inserir mais ainda o público na complexidade vivida pela personagem. No palco, os espectadores vêem uma explosão de expressão corporal, falas apressadas e uma voz que vai do grito ao silêncio em segundos; enquanto isso, no telão, encontram os detalhes da tensão, angústia e aflição que ela enfrenta, registrados por uma câmera ao vivo. Para o papel, Larissa conta que foi necessária muita preparação corporal para conseguir transitar entre os espaços delimitados, precisando ainda entregar performances musicais carregadas de sentimento e técnica. “Sugeri que nós estivéssemos com um preparador corporal porque, pra mim, é impossível ter essa fisicalidade amortecida para contar essa história com tanta intensidade.”

Apesar da demanda artística, corporal e sentimental que a peça exige, Larissa explica que sentiu a necessidade de viver esse projeto como parte de sua trajetória. Após construir uma carreira marcada por trabalhos no audiovisual — entre séries, filmes e novelas —, foi durante sua participação no musical “Nossa História com Chico Buarque”, em 2025, que ela redescobriu o desejo de continuar atuando nos palcos, reafirmando o sonho do início da carreira: “(…) meu desejo primordial, desde que me tornei atriz, era conciliar as linguagens ao máximo. Eu sentia falta de uma construção mais próxima com o público. Nunca quis ser só a menina da novela, a menina da série”. 

Em seu extenso currículo, destacam-se a série da Netflix “Coisa Mais Linda” (2019), em que interpretou a aspirante a cantora Ivone; a novela “Além da Ilusão” (2022), como a professora Letícia; a primeira-dama do crime Danuza, em “Arcanjo Renegado” (2025) no Globoplay; o longa-metragem “Justino” — ainda sem data de lançamento nos cinemas —, entre tantos outros títulos e personagens. Ao refletir sobre a carga emocional que pauta seus projetos, Larissa compartilha que muito vem dela própria, especialmente por se enxergar como uma mulher intensa: “Eu não tenho mais medo de dizer (…). E isso é libertador. Porque quando você entende o tamanho da sua força, você começa a se organizar melhor”. Mesmo em “Uma Voz Humana”, onde precisa sustentar a montanha-russa de emoções do monólogo por uma hora, ela afirma ser um exercício positivo para “compreender o seu tamanho, sua potência e irradiando em diversas histórias”. 

Larissa Nunes como Ivone em “A Coisa Mais Linda”

Por mais que valorize sua trajetória com personagens que abriram caminhos para seu desenvolvimento artístico, Larissa também agradece pelos papéis que lhe permitiram compreender a dinâmica da vida — que nem sempre se trata dos momentos difíceis. “Também tento encontrar o equilíbrio da coisa, viver outras histórias. Transitar entre a leveza e o peso das coisas”. Em seguida, ela brinca sobre querer só histórias de romance, “fazer alguma coisa assim, sabe? “Antes do Amanhecer” (risos) que aí a gente começa a viver a dinâmica”.

Essa busca pelo equilíbrio está muito ligada ao processo de amadurecimento que ela reconhece estar vivendo ao completar 30 anos. “Não vejo outra palavra que possa dizer as sensações que estou vivendo”, ela conta, “de transitar entre o tipo de trabalho que me chamava e me chama agora”. Essa nova perspectiva também influencia como percebe a integração da vida pessoal e profissional. Ao ser perguntada sobre suas inspirações, ela afirma observar atrizes que sabem ser discretas e colocam nos holofotes apenas o trabalho: “Essas mulheres estão brilhando o tempo todo, fazendo um monte de coisas. É um lugar diferente de compreender que você é artista, e essa é a coisa que importa.”

Seu posicionamento como atriz e mulher negra também pauta muitas de suas decisões artísticas, como em “Uma Voz Humana”, onde o monólogo é guiado pelas experiências e conflitos de uma mulher negra de trinta anos. Larissa conta que o recorte é essencial para a reflexão que deseja proporcionar ao público: “(…) nós [mulheres pretas] não somos ensinadas a sair das cenas de dor e sofrimento. A gente acaba entrando e ficando ali e, muitas vezes, assumindo como nossas histórias reais, quando na verdade a arte e o sensível são coisas capazes de nos dar possibilidade de sair”. 

Quando pensa em como seu trabalho contribui para ampliar a presença e as narrativas de pessoas negras no teatro e no audiovisual, ela diz que não se constrói para ser uma referência, mas que sente orgulho por não ter desistido da sua arte. “Se isso pode inspirar outras meninas, outras atrizes pretas, atrizes brancas também, não importa, eu já to fazendo o trabalho acontecer.”

Sobre “Uma Voz Humana”

Uma peça, um filme, um show. Uma atriz dirige um filme sobre o colapso de uma história de amor, e, como parte do filme, escolhe canções que narrariam a trajetória de auto compreensão de uma mulher negra em face de um fim: o abandono do outro abre margem para o encontro de si.

Data: Em cartaz até 20 de julho.

Local: Teatroiquè – Rua Iquirin, 110, Vila Indiana (Butantã)

Ingressos: https://teatroique.byinti.com/#/event/uma-voz-humana