Criada por Alfred Gough e Miles Millar, Smallville estreou em 2001 com uma proposta diferente das adaptações tradicionais do Superman: em vez de começar pelo herói de capa vermelha, a série queria contar a história de Clark Kent (Tom Welling)antes de ele se tornar o Superman. Ao longo de dez temporadas, exibidas até 2011, acompanhamos sua adolescência, a descoberta e o domínio de seus poderes, seus conflitos pessoais e, principalmente, o processo de amadurecimento que o levaria a assumir seu destino.

É justamente por partir da formação daquele que se tornaria um dos homens mais poderosos do mundo que outro aspecto de Smallville chama tanta atenção: a força de suas personagens femininas. Mais do que personagens fortes individualmente, elas são também indispensáveis para a construção do próprio Clark.
E talvez esteja aí uma das ideias mais interessantes que Smallville constrói ao longo de seus dez anos. Para contar como Clark Kent se tornou o Superman, a série precisou contar também a história das mulheres que ajudaram a formá-lo. Por trás do homem capaz de enfrentar praticamente qualquer ameaça existe alguém que foi aconselhado, desafiado, protegido, confrontado e impulsionado por mulheres igualmente fortes. Em uma produção cuja missão era explicar a origem do homem mais poderoso do mundo, Smallville acaba oferecendo também alguns de seus melhores exemplos de força feminina.
Quando as mulheres existem apenas para serem vistas
Durante décadas, grande parte do cinema e da televisão foi construída a partir de uma perspectiva predominantemente masculina — não apenas porque os homens ocupavam a maioria dos cargos de direção e roteiro, mas porque esse olhar também determinava como as mulheres eram apresentadas dentro das histórias. Muitas vezes, elas apareciam menos como personagens completas e mais como elementos destinados a despertar desejo, servir de interesse amoroso ou contribuir para o desenvolvimento emocional do protagonista masculino.
A teórica do cinema Laura Mulvey formulou uma das críticas mais importantes a esse tipo de representação no ensaio Visual Pleasure and Narrative Cinema, publicado em 1975. Ao desenvolver o conceito que ficou conhecido como male gaze, ou “olhar masculino”, Mulvey analisou como o cinema narrativo tradicional frequentemente posicionava o homem como sujeito da ação e a mulher como objeto do olhar. Em uma das passagens mais conhecidas do texto, ela afirma que as mulheres são “simultaneamente olhadas e exibidas”, ou seja, sua presença em cena é construída também para ser contemplada visualmente.

Isso ajuda a explicar por que tantas personagens femininas foram historicamente reduzidas à aparência, à sensualidade ou à relação que mantinham com um homem. Em vez de desejos, conflitos e trajetórias próprios, muitas existiam como a namorada, a esposa, a mãe ou a recompensa do herói. E mesmo quando essas mulheres eram apresentadas como “fortes”, essa força frequentemente vinha acompanhada de uma sexualização excessiva: roupas, enquadramentos e comportamentos pensados para transformar poder feminino em espetáculo ou fetiche.
Essa não é apenas uma percepção crítica. Um estudo internacional conduzido pelo Geena Davis Institute on Gender in Media, em parceria com pesquisadores da USC Annenberg, analisou mais de 120 filmes de diferentes países e encontrou um desequilíbrio significativo na maneira como homens e mulheres apareciam nas telas. Apenas 30,9% dos personagens com fala eram mulheres; entre elas, 23% apareciam usando roupas reveladoras e 24,2% eram mostradas parcial ou totalmente nuas. O relatório conclui que as mulheres permaneciam sub-representadas e submetidas a representações estereotipadas no cinema popular.
O problema, portanto, não está na existência da sensualidade em uma personagem feminina. Uma mulher pode ser sensual, romântica, vulnerável ou vaidosa e continuar sendo uma personagem complexa. A questão surge quando essas características passam a substituí-la como pessoa. Quando sua função narrativa termina em ser desejada, salvar emocionalmente um homem ou simplesmente ocupar a tela de maneira atraente, pouco sobra para que ela exista para além do olhar masculino.
É justamente por isso que personagens femininas que possuem vontades próprias, contradições, falhas, ambições e trajetórias que não dependem exclusivamente dos homens ao seu redor ganham outra dimensão. Elas deixam de ser acessórios de uma história masculina e passam a ocupar efetivamente a narrativa.
As mulheres que sustentam o universo de Smallville

Se Smallville é, essencialmente, a história de como Clark Kent se tornou Superman, a série também deixa claro que ele não chegou até lá sozinho. Ao longo de dez temporadas, as mulheres que fazem parte de sua vida não são apenas interesses amorosos, figuras maternas ou personagens que existem para acompanhar a trajetória do protagonista. Elas possuem histórias, conflitos, ambições e funções próprias dentro da narrativa.
Lana Lang (Kristin Kreuk), Chloe Sullivan (Allison Mack), Martha Kent (Annette O’Toole) e Lois Lane (Erica Durance) são mulheres muito diferentes entre si, mas compartilham algo fundamental: são construídas com inteligência, sensibilidade, força e profundidade. Elas amam, sofrem, erram, enfrentam perdas, tomam decisões difíceis e, principalmente, transformam-se ao longo da série. Elas são peças fundamentais da história que o transforma nele. Cada uma, à sua maneira, interfere no destino da trama e, principalmente, na construção do homem por trás do símbolo.
Lana Lang

Quando Smallville começa, Lana Lang parece ocupar um lugar bastante conhecido nas histórias de super-heróis. Ela é a garota por quem Clark Kent é apaixonado, sua primeira grande paixão e alguém que, constantemente, precisa ser protegida dos perigos que surgem em Smallville.
Porém, Lana é uma das personagens que mais se transforma durante a série. Sua trajetória passa por diferentes fases, conflitos e relações, revelando gradualmente novas camadas de uma jovem que começa a história tentando compreender o próprio passado e encontrar seu lugar no mundo. Conforme amadurece, ela também passa a questionar sua vulnerabilidade e, principalmente, sua dependência das pessoas ao seu redor.
Esse debate aparece de maneira bastante direta ainda na segunda temporada, no episódio 19, “Precipício”. Depois de sofrer uma tentativa de agressão e se sentir vulnerável diante da situação, Lana decide que não quer continuar dependendo de Clark para protegê-la. Ela procura Lex Luthor (Michael Rosenbaum) para aprender técnicas de defesa pessoal, dando início a um aspecto de sua personalidade que seria desenvolvido ao longo dos anos seguintes: a necessidade de conseguir cuidar de si mesma.

A própria Kristin Kreuk falou sobre essa construção durante sua participação no podcast Talk Ville, em 2025. Ao relembrar esse período da série, a atriz explicou que também desejava que Lana deixasse de ocupar o lugar da garota que precisava ser salva:
“Eu estou cansada desse tipo de história. Lana precisava crescer, não podíamos continuar fazendo a mesma coisa o tempo todo. E eu não sei se os roteiristas e eu já tínhamos conversado sobre isso, mas sinto que estávamos na mesma página, de que ela precisava cuidar de si mesma. E nós começamos esse arco lá atrás, na primeira ou segunda temporada, foi quando eu comecei a ter aulas de autodefesa. Nós começamos a construí-la… Eu gosto que ela começou a lidar com os problemas sozinha e esse arco continua até o final da jornada dela.”
A fala de Kreuk ajuda a compreender que a transformação de Lana não surge repentinamente nas temporadas finais. Ao longo de Smallville, conhecemos diferentes lados de Lana Lang. Ela não é construída para ser uma personagem perfeita. Lana comete erros, enfrenta as consequências de suas escolhas e passa por momentos em que medo, raiva, amor e desejo por controle revelam lados muito diferentes daquela garota apresentada no início da série.

Sua trajetória é marcada por perdas e relações complicadas, mas também por uma busca constante por independência e identidade. Quanto mais Lana amadurece, mais sua história deixa de existir apenas em função de Clark. A própria série reconhece esse destino no 11º episódio da oitava temporada, “A Legião”. Nele, Lana conhece Imra Ardeen, a Moça de Saturno, integrante da Legião dos Super-Heróis que veio do futuro. Para Lana, aquele encontro traz uma informação especialmente significativa: naquele futuro, sua história continua sendo conhecida — e não apenas por ter sido o grande amor de Clark Kent.
Imra diz:
“Desde pequena, eu li histórias sobre você. Sobre as dificuldades que superou e as coisas incríveis que fará. Você é uma das razões que fizeram de Kal-El o herói que admiramos. […] Mas eu te direi uma coisa, Lana… Você é lembrada por muito mais do que por sua relação com Kal-El. Você tem um destino próprio.”
Isso se torna ainda mais evidente no encerramento de sua trajetória regular na série. Depois de passar por um processo que faz com que seu corpo adquira habilidades sobre-humanas, Lana finalmente alcança o que, de certa maneira, vinha buscando desde as primeiras temporadas. As circunstâncias acabam tornando impossível que ela permaneça fisicamente próxima dele, e Lana deixa Smallville para construir sua própria jornada e usar suas novas habilidades para ajudar outras pessoas.
A personagem que tantas vezes foi colocada na posição de vítima e precisou ser resgatada pelo protagonista termina sua passagem pela série como uma heroína por mérito próprio.
Martha Kent

No início de Smallville, Martha Kent é apresentada principalmente dentro do núcleo familiar dos Kent. Ao lado de Jonathan, ela protege Clark, ajuda o filho a compreender seus poderes e, principalmente, participa da construção dos valores que definirão o homem que ele se tornará. É a mãe acolhedora e sensível, mas também firme quando precisa confrontá-lo e mostrar que possuir habilidades extraordinárias não o coloca acima das consequências de suas escolhas.
A importância de Martha para a formação emocional de Clark fica especialmente evidente no oitavo episódio da quinta temporada, “Solitude”. Depois de quase perdê-la, Clark admite o tamanho do espaço que ela ocupa em sua vida:
“Eu não consigo imaginar como seria se você tivesse morrido. Papai me ensinou tanta coisa, eu não saberia descrever o quanto. Mas você é o meu coração e a minha alma.”
A frase resume uma das principais forças de Martha dentro da série. Clark pode ter vindo de outro planeta e possuir poderes que nenhum ser humano ao seu redor consegue compreender completamente, mas sua humanidade é construída também pela mulher que o criou. Martha representa seu coração, sua capacidade de acolher, compreender e enxergar humanidade mesmo diante das situações mais difíceis.

Mas, assim como acontece com Lana, Smallville permite que Martha cresça para além da função que inicialmente parecia destinada a ocupar. Depois de passar anos dedicando grande parte de sua vida à família e à fazenda, ela começa a construir um caminho que pertence a ela.
Essa transformação ganha força na quinta temporada. Após a morte de Jonathan Kent (John Schneider), Martha assume a cadeira no Senado estadual do Kansas para a qual ele havia sido eleito. Posteriormente, sua carreira política a leva a Washington, afastando-a fisicamente de Clark e de Smallville e marcando uma nova fase de sua vida.
Martha ama Clark profundamente, mas entende que ser sua mãe não precisa significar abandonar definitivamente suas próprias ambições. Depois de ajudá-lo a encontrar seu caminho durante tantos anos, ela também precisa reencontrar o dela.

Quando retorna no episódio “Hostage”, o 21º da nona temporada, essa questão aparece diretamente em uma conversa com Lois Lane. Martha reconhece que deixar Clark não foi simples, mas explica por que precisava tomar aquela decisão:
“Não foi fácil para mim deixar o Clark e ir para Washington. Mas parte de mim realmente precisava dar esse passo. […] Depois que a empolgação do meu casamento diminuiu, eu me perguntei se tinha cometido um erro ao ir atrás do Jonathan para uma cidade pequena que não tinha nada a ver comigo. Eu era uma garota da alta sociedade que ia ser advogada e virei esposa de um fazendeiro, isolada em uma ilha de milho. […] Porém, um dia eu vim para casa em um fim de semana chuvoso e descobri que o rio estava subindo. Eu calcei minhas botas e fui para o rio com o Jonathan. Começamos a jogar sacos de areia, trabalhamos a noite inteira para conter toda aquela água. Quando o sol nasceu… Pude dizer a 20 famílias que era seguro retornar para suas casas. Não sabia qual era o meu propósito até aquele dia. Eu só precisei olhar para dentro de mim mesma.”
A conversa acrescenta uma camada importante à personagem porque permite que Martha olhe para a própria vida não somente como a mãe de Clark ou a esposa de Jonathan, mas como uma mulher que também precisou descobrir quem era e o que queria fazer.
Ela tinha planos antes de Smallville. Ao escolher Jonathan e a vida no campo, sua trajetória mudou completamente, mas isso não significa que suas ambições simplesmente desapareceram. Martha encontrou propósito naquela família e naquela comunidade e, anos depois, conseguiu transformar essa mesma vocação para ajudar outras pessoas em uma carreira política.

E “Hostage” ainda revela outra dimensão surpreendente de sua trajetória. Martha não havia se tornado apenas uma figura política em Washington: ela também estava agindo secretamente como a Rainha Vermelha, interferindo nas operações da organização Checkmate para proteger Clark.
Assim, a mulher que começou a série protegendo o filho dentro de uma fazenda termina ocupando espaços de poder muito maiores. Martha continua sendo mãe, mas nunca é apenas mãe.
Chloe Sullivan

Entre todas as personagens femininas de Smallville, Chloe Sullivan talvez seja aquela que acompanha mais de perto a transformação de Clark Kent ao longo da série. Melhor amiga de Clark e uma das figuras mais constantes das dez temporadas, ela começa sua trajetória como a jovem curiosa e determinada que comanda o jornal da escola, A Tocha, mas cresce muito além dessa primeira definição.
Durante anos, é por meio de suas investigações que boa parte dos mistérios de Smallville avança. Ela pesquisa, conecta informações, descobre ameaças e frequentemente encontra a peça que faltava para que Clark consiga agir. Nesse sentido, Chloe nunca é apenas a amiga que conhece o segredo do protagonista: ela é uma das personagens que mais contribuem diretamente para o movimento das tramas da série.
Sua evolução, porém, também envolve descobrir que aquele sonho inicial de se tornar jornalista já não era suficiente para definir quem ela havia se tornado. Chloe chega a trabalhar no Planeta Diário, realizando uma ambição construída desde a adolescência, mas sua trajetória toma outro rumo. Aos poucos, ela percebe que seu verdadeiro propósito não está necessariamente em contar histórias depois que elas acontecem, mas em usar sua inteligência, suas habilidades e sua enorme capacidade de reunir informações para impedir que tragédias aconteçam.

É dessa transformação que nasce a Chloe que conhecemos como a Torre de Vigia. Ainda na sexta temporada, ela começa a auxiliar Oliver Queen (Justin Harley) e sua equipe sob esse codinome, mas é durante a oitava temporada que essa função deixa de ser ocasional e se transforma em sua verdadeira vocação. No episódio “Hex”, ela decide assumir definitivamente o papel, e, ao fim daquele ano, a Torre de Vigia passa a representar não apenas uma base física, mas aquilo que Chloe deseja fazer de sua vida. Na nona temporada, o local se consolida como quartel-general e central de comunicações para Clark, Oliver e os demais heróis.
Os próprios produtores enxergavam essa mudança como uma consequência natural de tudo aquilo que Chloe havia demonstrado desde o início. Em uma entrevista concedida durante a Comic-Con de 2009, o produtor executivo Brian Peterson definiu sua transformação em Torre de Vigia como “amadurecimento da personagem dentro do universo DC”. Kelly Souders acrescentou que a nona temporada mostraria até onde as habilidades que Chloe já demonstrava diante dos computadores na Tocha poderiam levá-la e “o quão incrivelmente poderosa ela se torna”.
Chloe não precisa adquirir a força física dos heróis ao seu redor para se tornar indispensável. Seu poder está em saber, antecipar, organizar e orientar. É ela quem observa aquilo que os outros não conseguem enxergar e transforma informação em ação.

Isso também ajuda a explicar sua relação com Clark. Ao longo dos anos, Chloe se torna um de seus maiores pontos de apoio fora da família Kent. Quando Clark está diante de uma ameaça, de uma dúvida ou simplesmente não sabe qual caminho seguir, Chloe é seu porto seguro.
A própria série sintetiza melhor essa importância em “Hostage”, da nona temporada. Depois de passar meses cada vez mais isolada dentro da Torre de Vigia e questionar se deveria continuar ocupando aquela posição, Chloe admite a Clark que pensa em abandonar o posto. É então que ele responde:
“Chloe, o que você criou aqui é maior do que nós dois. Vai servir às futuras gerações. Você pode não estar salvando pessoas de acidentes de trem ou tiroteios, mas é tão heroína quanto qualquer um de nós. A guerra é iminente, Chloe, e o mundo precisa de você. Eu preciso de você.”

Chloe pode não estar na linha de frente salvando pessoas de acidentes ou enfrentando inimigos com superpoderes, mas sua contribuição torna possível boa parte dessas vitórias. Sem capa, sem identidade superpoderosa e sem ocupar o centro dos holofotes, ela se transforma em uma das engrenagens mais importantes daquele universo.
Lois Lane

Se Chloe representa estratégia e inteligência nos bastidores, Lois Lane chega a Smallville como uma força impossível de ignorar. Introduzida na quarta temporada, ela rapidamente se estabelece como uma das personagens de personalidade mais marcante da série: forte, sem filtro, determinada, curiosa, persistente e, muitas vezes, imprevisível.
Quando acredita que existe algo errado, investiga, confronta e segue em frente, mesmo quando isso significa se colocar em situações perigosas. Essa impulsividade frequentemente a coloca em risco, mas também revela uma característica essencial da personagem: ela não sabe assistir às coisas acontecerem de longe. Precisa descobrir a verdade e, principalmente, fazer alguma coisa com aquilo que descobre.
É justamente essa combinação de coragem e inquietação que conduz Lois ao jornalismo. Diferentemente de Chloe, que desde adolescente tinha uma vocação claramente definida para a profissão, Lois demora a encontrar seu caminho. Quando finalmente descobre o jornalismo, percebe que ele combina perfeitamente com aquilo que sempre esteve presente em sua personalidade.

Sua força também está na maneira como Smallville permite que ela seja imperfeita. Lois é direta demais, fala antes de pensar, provoca, se mete onde não foi chamada e raramente consegue esconder aquilo que está sentindo. Ao mesmo tempo, é extremamente leal, corajosa e capaz de continuar seguindo em frente mesmo diante das próprias inseguranças.
Essa era justamente uma das características que a equipe de Smallville considerava fundamentais para a personagem. Ao relembrar a escolha de Erica Durance para viver Lois Lane, em entrevista publicada em 2010 por ocasião do 200º episódio de Smallville, a showrunner Kelly Souders destacou justamente a personalidade forte que a atriz trouxe para a personagem:
“Lois deve ser uma das personagens mais difíceis de interpretar, porque ela tem opiniões muito fortes, é extremamente inteligente e um pouco direta demais, mas, ao mesmo tempo, precisa ser alguém de quem o público goste.”
Lois não entra na vida de Clark silenciosamente e muito menos passa a orbitá-lo. Desde o início, ela o provoca, questiona suas decisões, invade seu espaço e não demonstra qualquer reverência por ele.

Um dos momentos que melhor traduz a importância de Lois na trajetória de Clark acontece em “Homecoming”, quarto episódio da décima temporada e também o episódio de número 200 de Smallville. Nele, Brainiac 5 leva Clark por uma viagem pelo passado, presente e futuro para fazê-lo entender o que ainda o impede de se tornar plenamente o homem que está destinado a ser. O problema não é falta de poder: Clark precisa abandonar parte da culpa que carrega, parar de temer aquilo que ainda não aconteceu e aprender a seguir em frente.
E Lois ocupa um lugar fundamental nesse processo. Naquele momento, os dois vivem uma relação ainda marcada por inseguranças. Clark continua escondendo dela sua identidade como o Herói Misterioso e teme as consequências de permitir que Lois faça parte por completo de sua vida. Ao mostrar o futuro, porém, Brainiac faz Clark enxergar justamente o contrário: anos depois, Lois continua ao seu lado e conhece seu segredo, enquanto ele já se tornou uma versão muito mais segura e confiante de si mesmo.
É uma escolha especialmente significativa dentro de uma série sobre a formação do Superman. Para se aproximar daquele homem que acabou de conhecer no futuro, Clark precisa parar de recuar também emocionalmente. Precisa se permitir amar Lois, confiar nela e, eventualmente, contar a verdade sobre quem é. A revelação do segredo ainda não acontece em “Homecoming” — Clark só faz isso no episódio seguinte, “Isis” —, mas é ali que ele começa a derrubar definitivamente essa barreira.
No fim do episódio, essa transformação ganha uma representação quase literal. Clark vai atrás de Lois, os dois se reconciliam e, enquanto dançam no celeiro, ele finalmente diz que a ama. Então acontece algo que nenhum dos dois percebe: Clark começa a flutuar enquanto dança com Lois.
A escolha é uma escolha simbólica poderosa! Durante toda a série, o voo representa a última grande habilidade associada ao Superman dos quadrinhos que Clark ainda não domina de maneira consciente. Smallville inclusive tratava sua capacidade de voar como parte da transformação definitiva do personagem; os produtores posteriormente explicaram que o voo estava ligado metaforicamente ao momento em que Clark finalmente abraçaria seu destino.
Por isso, a cena com Lois pode ser entendida como muito mais do que um encerramento romântico. No momento em que Clark deixa de recuar, assume o que sente e aceita a possibilidade de um futuro ao lado dela, ele literalmente começa a sair do chão. E existe uma beleza nessa construção: Para ser o homem mais poderoso do mundo, ele precisa da mulher que ama ao seu lado.
Ela funciona como impulso. É ao lado dela que ele consegue, naquele instante, abandonar o peso que constantemente o mantém preso ao chão. Talvez seja essa uma das imagens mais bonitas da força feminina construída por Smallville: para o Superman obter sua força completa, ele precisa de uma força feminina.
No fim, Smallville mostra que a força necessária para construir o Superman nunca veio apenas de Krypton. Ela também esteve nas pessoas que moldaram Clark Kent ao longo do caminho — e, entre elas, Lana, Martha, Chloe e Lois ocupam um espaço decisivo. Cada uma o desafia de uma maneira diferente, amplia sua visão de mundo e participa da formação do homem por trás do símbolo. Ao mesmo tempo, a série permite que essas mulheres tenham seus próprios caminhos, conflitos e transformações, evitando reduzi-las apenas à função que exercem na vida do protagonista.