Em meio a paisagem paradisíaca das ilhas de Skopelos e Skiathos, na Grécia, onde o mar é quase transparente e as praias se assemelham a pinturas; coreografias e canções contam uma história que vai muito além da superfície festiva de uma jovem que decide convidar, em segredo, três homens desconhecidos para o seu casamento. O filme Mamma Mia! guarda em seu interior uma trama afetiva e poderosa, uma dança silenciosa, suave e cheia de nuances: a terna relação entre Donna Sheridan (Meryl Streep), sua filha Sophie (Amanda Seyfried) e a importância das relações femininas na vida de uma mulher.
A partir desse eixo emocional do longa, passa-se a perceber a complexidade dos outros fragmentos da trama, como a busca por identidade de Sophie e como o ato de procurar por seu pai e a ausência do mesmo traduz isso, ou como a culpa por verdades impostas na vida de sua filha consome e afeta Donna.
Baseado no musical homônimo de 1999 e dirigido por Phyllida Lloyd, Mamma Mia! (2008) é um filme que vai apresentar o espectador à Sophie, uma jovem que, para se sentir completa, busca descobrir quem é o seu pai biológico.
Essa busca tem início quando, ao encontrar um antigo diário de sua mãe, ela invade as memórias de uma jovem Donna que -até então- estavam bem guardadas por entre aquelas páginas. Tanto a ânsia por conhecimento de Sophie quanto a trama do filme se desenrolam a partir dos desabafos afobados e deslumbrados de uma garota que acabou de se mudar para a Grécia. Sophie lê para as amigas os trechos cruciais de cada relato encontrado ali, e o espectador navega junto a elas por meio dos mares do sudeste europeu e os amores de Donna: os três possíveis pais de Sophie, Harry Bright (interpretado por Colin Firth), Sam Carmichael (Pierce Brosnan) e Bill Anderson (Stellan Skarsgård). E os três homens desconhecidos os quais ela convidou para o seu casamento.

Amanda Seyfried como Sophie em cena do filme Mamma Mia! (2008)
Com isso, a jornada de descobrir qual desses desconhecidos é o seu pai se inicia e, ao longo dessa busca, é revelado muito mais do que a curiosidade e o anseio da personagem por pertencimento: manifesta junto disso a culpa que pode carregar uma mãe por, antes de ser mãe, ser também filha.
Donna como filha antes de ser mãe
Conhecida como “a melhor atriz de sua geração”, Meryl Streep é crucial para dar vida a personagem Donna Sheridan, e conseguir retratar uma complexidade escondida atrás de danças coloridas e de uma trama divertida. Donna é espirituosa, engraçada e amorosa, mas para além disso, ela é uma mãe enfrentando o medo de perder a filha.
“The feeling that I’m losing her forever” (O sentimento de que estou a perdendo para sempre) é o trecho de uma das músicas mais emocionantes que compõem o filme (Slipping Through My Fingers) e que descreve perfeitamente o que Donna vem sentindo ao longo da história. Na cena em que a música aparece, Donna ajuda Sophie a se arrumar para o seu casamento e a emoção desse momento sendo retratado pelas duas talentosas atrizes é quase palpável.
Em entrevista para o Daily Mail, em novembro de 2008, Phyllida Lloyd relembra o momento da gravação e reconhece a profunda ligação que existiu entre Meryl Streep e Amanda Seyfried durante a produção do longa, e que as permitiu viver com ainda mais intensidade esse momento de mãe e filha. A diretora afirma que muito do que foi vivido nesse trecho foi improvisado pelas duas atrizes, citando, inclusive, o behind the scenes do momento em que Sophie senta no colo de Donna para que a mãe a ajude a pintar as unhas: “Foi Meryl quem sugeriu que Amanda deveria sentar na cadeira com ela. Foi incrivelmente tocante assisti-las fazer essa cena”, declara a diretora.

Meryl Streep (Donna Sheridan) e Amanda Seyfried (Sophie) em cena do filme Mamma Mia! (2008)
Esse trabalho conjunto entre as atrizes e a diretora torna tudo ainda mais leve e emocionante. Uma pesquisa feita recentemente na Bryant University analisou que quando uma mulher ocupa a posição de liderança, promove um ambiente favorável para expressar ideais e tomar riscos criativos, que é algo essencial no cinema e certamente foi de extrema importância na produção de um filme tão sensível e cheio de nuances quanto é Mamma Mia!. A liberdade de Meryl Streep de sugerir adaptações para que a cena ficasse ainda mais realista, além de improvisar junto de Amanda durante essa e outras cenas, demonstra a importância da direção de Phyllida para que essa relação entre mãe e filha fosse vivida de forma tão significativa pelas atrizes, explorando sentimentos e vivências complexas das personagens. Meryl Streep interpreta uma mulher dividida e é hipnotizante assisti-la desbravar esses tantos sentimentos novos que surgem ao longo da história.
É emocionante vê-la fazer tudo que está ao seu alcance para que sua filha viva o desejo de se casar, para que tudo saia nos conformes, para que a decoração, os convidados, os pratos… tudo esteja perfeito, tirando somente a sua própria vontade como mãe.
Donna não deixa de expressar suas opiniões (não tão favoráveis) sobre o casamento da filha em nenhum momento. Como alguém que já viveu intensamente os amores e os prazeres da juventude, ela sabe o final que eles podem dar. A personagem se preocupa com Sophie e, principalmente, a ideia de se casar aos — somente — vinte anos. Entretanto, é notável que grande parte dessa resistência vem não somente por achar que a filha ainda é muito nova e poderia viver outras experiências mundo afora, mas também por querer que Sophie experimente a vida ali, ao seu lado — ela projeta na filha tanto a jovem que foi quanto a menina por quem dedicou a vida inteira.
Tal sentimento é intensificado quando Donna se vê na presença dos homens pelos quais passou grande parte da vida tentando evitar. A aparição, quase que assombrada dos três, atua como um lembrete de seu passado: de amores efêmeros, de escolhas “erradas”, mas também de força e resistência. Donna, sozinha, fez o que esses três homens juntos provavelmente não seriam capazes: ergueu uma vida inteira com as próprias mãos, longe de sua terra natal e distante de qualquer rosto familiar. Ela pariu e criou Sophie, construiu e gerenciou o hotel, que é o palco para toda a história, costurando então um novo cotidiano -sozinha- com coragem, ternura e o amor que somente uma mãe pode ter. A chegada desavisada das três figuras de seu passado é uma ameaça a tudo aquilo que foi construído com tanto esforço, o que desencadeia em Donna o medo e a culpa por ter escondido da filha a verdade sobre sua história. Contudo, esse segredo da personagem não é inesperado, Donna mostra a dificuldade que é para uma mãe tentar fazer o certo, mesmo sem saber o que exatamente seria o certo. Ela se esquece de que, assim como Sophie, que envia os convites sem ter ideia do resultado, ela também já foi — e ainda é — uma jovem que, por vezes, age impulsivamente enquanto tenta, com o que tem, fazer o seu melhor.
Donna, para além da força que revela como mãe batalhadora e corajosa, também expõe a vulnerabilidade e a inquietação próprias de quem ainda tenta compreender o seu lugar enquanto filha.
O poder da amizade feminina
Como se fossem lembretes de uma identidade que vai além da maternidade, Tanya (Christine Baranski) e Rosie (Julie Walters) não são apenas personagens secundárias ou alívios cômicos: elas são a espinha dorsal afetiva da vida de Donna. Representam o tipo de amizade que atravessa anos, distâncias e transformações, permanecendo mesmo quando todo o resto parece ruir. São elas que conhecem a menina que Donna foi, a mulher que se tornou e a força – às vezes exausta, às vezes intensa – que ela sustenta sozinha.
Na narrativa, a presença das duas funciona como um respiro. Antes que o passado bata na porta na forma de três possíveis pais, antes que o casamento de Sophie a transborde de inseguranças, Tanya e Rosie chegam mostrando quem Donna é quando não está carregando o mundo nos ombros, e a acolhem quando ela não consegue se lembrar.
E é em uma das mais memoráveis cenas do cinema que isso acontece na prática, quando Donna rejeita seu passado e suas atitudes, desabafando com as amigas sobre se sentir envergonhada e inconsequente e, em um passe de mágica (em que as mágicas são suas melhores amigas), volta a ser somente uma garota enquanto pula na cama, vestindo-se com plumas, óculos e chapéus engraçados ao som de “Dancing Queen”. Essa relação de confiança e amor faz de Donna preparada e validada o suficiente para se sentir insegura, para pedir ajuda e para se aceitar até mesmo nas suas incertezas.

Meryl Streep (Donna Sheridan), Julie Walters (Rosie) e Christine Baranski (Tanya) em cena do filme Mamma Mia! (2008)
Em 2014, o jornal acadêmico Journal of Social and Personal Relationships publicou um estudo sobre a extrema importância da amizade feminina na vida de uma mulher, tendo um papel essencial desde a construção da identidade até serem um espaço seguro para a troca de experiências e desafios, o que pode facilitar o autoconhecimento, crescimento pessoal, o empoderamento e a confiança. Com isso, é interessante analisar como a relação de Donna e suas amigas afetou não somente a sua vida, mas também sua conexão com Sophie, que pôde ver em sua mãe uma segurança não somente maternal, mas uma mulher que sabe se valorizar e respeitar o sentimento feminino em suas mais diversas nuances.
Sophie aprende isso cada vez mais ao longo do filme. Seu percurso transforma-se, pouco a pouco, em uma jornada de reconhecimento: não apenas de si mesma, mas também de Donna, que sempre esteve ali, tão presente que se tornou quase invisível.
No Brasil, onde estimativas do IBGE indicam que mais de 10 milhões de famílias são chefiadas por mulheres solo, essa narrativa ressoa com uma força ainda maior. A figura da mãe que sustenta, que se multiplica e que, por vezes, esconde as próprias inseguranças para não tirar nada do eixo, é uma realidade conhecida por muitas mulheres. Essa centralidade da mãe na estrutura familiar cria laços tão profundos que, ao mesmo tempo em que acolhem, podem também gerar conflitos – porque aquilo que é constante demais se torna invisível demais.
Ao final, quando Sophie escolhe Donna para entrar com ela no altar, não é apenas um rito de passagem, é a celebração de tudo que foi dito e não dito, de tudo que elas foram e ainda podem ser. Vemos a dança silenciosa que atravessa todo o filme.

Meryl Streep (Donna Sheridan) e Amanda Seyfried (Sophie) em cena do filme Mamma Mia! (2008)
E é por isso que Mamma Mia! permanece tão vivo na memória afetiva de tantas mulheres: porque, por trás das músicas do ABBA e do sonho de viver um verão grego, ele conta uma história sobre o que é ser mãe, o que é ser filha e como, no fundo, todas nós estamos apenas tentando aprender a dançar juntas pela primeira vez.