Olivia Dean é a mistura perfeita de sábado à noite com o resto da sua vida — e o mundo inteiro agora pode ver.
Com mais de dez anos trabalhando na indústria da música, Olivia provou, com seu álbum “The Art Of Loving” (2025), que letras honestas são a grande base para um artista encontrar sua voz e, também, que vulnerabilidade não significa fraqueza, mas força para viver uma vida com amor, leveza e muita positividade.
A música em sua vida
Assim como suas composições, a música entrou na vida de Olivia de maneira delicada e muito pessoal. Seus pais não vieram de formação artística, não tinham contato com instrumentos ou qualquer outra forma de arte, mas compartilhavam um grande amor e fascínio pela música, como ela relembra em entrevista para o podcast And The Writer Is…: “Eu sentia uma verdadeira fascinação e um gosto musical muito eclético. (…) nós escutávamos de tudo.”
Aos oito anos de idade, decidiu soltar a voz e começar a cantar e, aos 15-16, passou a praticar instrumentos como piano e violão. Apesar desse início, não conseguia ver um caminho muito definido na música e passava grande parte do dia fazendo covers de cantoras como Carole King e Amy Winehouse em seu próprio quarto, sem câmeras para gravar ou plateia para assistir. “Era para meu próprio prazer”, ela conta.
Outra grande influência em seu repertório artístico foi seu amor por filmes e peças musicais, como a animação da Disney Pocahontas (1995) e o musical West Side Story (1961) — o primeiro com o qual ela teve contato. “Eu era uma criança muito tímida”, conta no podcast. “O teatro musical me permitiu explorar música e contar histórias; e contar histórias através de músicas, o que eu acho ser uma grande habilidade.”
Foi essa apreciação por musicais que aproximou Olivia da chance de estudar música na faculdade. Com a ajuda de sua mãe, que a apoiou na decisão de seguir a carreira artística, Dean se inscreveu no curso de teatro musical da Brit School, uma famosa escola britânica de artes performáticas e tecnologia — já frequentada por artistas como Adele, Jessie J, Amy Winehouse e Raye (que cursou um ano à frente de Olivia). Um tempo depois, ela pediu transferência para o curso de composição musical, o que foi bem arriscado, como ela detalha: “Se você quiser mudar de curso, precisa fazer audição. E, se você não conseguir, precisará sair da faculdade. (…) você não pode voltar. Se você está dizendo que está dedicado a isso, o quão dedicado está?”. Apesar da incerteza, ela conseguiu a transferência e, anos mais tarde, formou-se em música.
Início da carreira e a experiência feminina
Olivia começou sua carreira como backing vocal do grupo Rudimental e lembra que seu primeiro trabalho profissional foi em 2017, quando se apresentou no Servent Jazz Quarters, com capacidade de 70 ingressos. Para o podcast, ela relembra de assistir à sua apresentação e perceber que as músicas que cantava na época não eram tão diferentes das que produz agora. “É a mesma vibe. Eu não diria que o estilo de música mudou tanto, acho que só afinou.”
Durante seus anos pós-faculdade e seu processo de formação como artista, Olivia frequentou muitas sessões de criação em colaboração com outros músicos e compositores, o que se tornou um grande desafio, principalmente para uma jovem mulher que estava amadurecendo como pessoa e como profissional, “especialmente quando você tem 17/18 anos e ainda está descobrindo quem você é”. Ela relembra de vivenciar momentos em que não concordava com o que estava sendo feito ou produzido, mas se sentia intimidada o suficiente para não dizer sua verdadeira opinião. “Às vezes você entra nesses estúdios e é como se todo mundo estivesse te dizendo o que você é, ou o jeito de escrever uma música”, ela conta. Embora tenha enfrentado esses desafios, Olivia admite que a ensinaram muito sobre si mesma, sobre a importância de expor suas opiniões, não ter medo de pedir mudanças e, principalmente, confiar em sua própria voz.
O aprendizado e a autoconfiança que trabalhou durante essas experiências foi a base para o que construiria nos anos seguintes. Em 2019, ela assinou com a AMF Records e Virgin EMI Records e lançou seu primeiro EP, com quatro músicas, incluindo a faixa-título “Ok Love You Bye”, que ela descreve como o sentimento de uma manhã após uma discussão com seu parceiro: “mas refletindo sobre isso de forma mais positiva e pensando: você fez coisas erradas, eu fiz coisas erradas, mas podemos superar isso”.
Em 2020, ela lançou seu segundo EP, “What Am I Gonna Do On Sundays”, uma coleção de músicas sobre a jornada emocional após o término de um relacionamento. “Tem uma triste e nostálgica, uma animada e desiludida, uma confusa e indecisa e uma confrontadora e raivosa”, ela explica.O desempenho do EP e de sua trajetória até ali garantiram o título de “Artista Revelação do Ano” em 2021 pela Amazon Music e, em 2023, pela BBC Music.

Em junho de 2023, Olivia lançou seu primeiro álbum, intitulado “Messy”. Em entrevista para o site Ones to Watch, ela explica que a produção busca retratar as emoções e os conflitos de se apaixonar novamente, assim como a vulnerabilidade em aceitar a bagunça da vida, “o medo que vem junto com isso e encontrar independência mesmo assim. É sobre ser grato por suas origens e aceitar as imperfeições da vida”. Com músicas como “The Hardest Part” e “Dive”, o álbum conquistou 4º lugar nas paradas do Reino Unido e uma indicação na importante premiação musical Mercury Prize. “Eu realmente gostei que fiz um álbum humano (…) em um ambiente com pessoas que eu amo”, conta ao canal NME durante sua passagem pelo evento. No ano seguinte, a artista também recebeu três indicações no Brit Awards como: Melhor Artista Pop, Melhor Artista Revelação e Artista Britânica do Ano.
Seu trabalho em “Messy” a colocou como uma das cantoras britânicas mais promissoras, assim como deixou evidente sua identidade como artista, compondo músicas honestas e sensíveis e criando melodias de natureza pop/soul modernas — mostrando ao público como enxerga o mundo e o vive com toda sua intensidade.
Com a visibilidade que adquiriu, em 2024 Olivia já estava participando do Festival Glastonbury, na Inglaterra, considerado um dos maiores eventos de música ao ar livre. Em 2025, ela integrou a mixtape do filme Bridget Jones: Louca pelo Garoto (2025), com a canção “It Isn’t Perfect But It Might Be”.
The Art of Loving
“The Art of Loving” marcou a carreira de Dean como seu segundo álbum. Lançado em setembro de 2025, o projeto já conquistou números estrondosos, colocando a artista como a primeira cantora solo britânica a emplacar três singles no Top 10 do Reino Unido e liderar a lista de álbuns simultaneamente desde Adele — com a música “Easy on Me” e o álbum “30”.

De acordo com Dean, como contou em And The Writer Is…, no início, ela não tinha um conceito completo da mensagem que queria transmitir com o álbum, apesar de já ter escrito os singles “Nice to Each Other” e “So Easy To Fall in Love”. Foi somente após uma visita a uma exibição de arte chamada “Tudo Sobre Amor”, inspirada no livro de mesmo título da autora Bell Hooks, que a ideia do nome e o conceito do álbum surgiram.
Em entrevista com Zane Lowe para a Apple Music, Olivia compartilha que, ao ver a frase “A arte de amar” na descrição de uma das obras da exibição, sentiu como se fosse um chamado que a ajudaria a superar o ano romanticamente intenso que havia enfrentado: “Eu precisava explorar meu conhecimento sobre o amor e fechar aquele capítulo da minha vida. Queria falar sobre amor, mas não essa coisa fantasiosa, mas como habilidade e ofício.”
Desde a primeira música do álbum, “The Art Of Loving (Intro)”, até a última, “I’ve Seen It”, Olivia traça um caminho vulnerável e delicado sobre o amor em todas as suas formas. Ela expõe suas dores do término e do desencontro com o sentimento, ao mesmo tempo que mostra esperança de dias melhores, espaço para se permitir viver novamente e outras maneiras de experienciar o amor, dizendo que não há fraqueza em se entregar, e você só se fortalece quando sabe onde encontrá-lo. Uma lição que ela expressa na música “A Couple Minutes”: “O amor nunca é desperdiçado quando é compartilhado”.
Em Loud, 9ª faixa, Olivia compartilha na entrevista que estava devastada quando escreveu a canção e a cantou apenas uma vez antes da gravação oficial, que foi feita no estúdio com uma pequena orquestra. Cinco minutos antes da sessão encerrar, ela decidiu cantar a música completa com os músicos tocando ao fundo e decretou que seria a versão final do álbum. Desde então, não a cantou novamente.
Para Olivia, a magia da música está na intensidade do sentimento e o quão honesta ela é consigo mesma, apesar da exposição. “É algo bastante peculiar, eu imagino, cantar para o mundo inteiro que você foi decepcionada ou que alguém não quis se apaixonar por você. (…) Acho que é algo com que muitas pessoas podem se identificar, mas não é a coisa mais agradável de se compartilhar. Acho que me sinto atraída por essa vulnerabilidade”, ela declara para o site NPR.
Apesar dos machucados e de mostrar o quão dolorosos podem ser, Olivia também consegue trazer, com muita fluidez e classe, uma visão positiva sobre seus aprendizados durante o processo de perder-se de si mesma — devido a um término — para se reencontrar e descobrir a própria força, como ela canta em “Lady Lady” (“Essa dama é o cara, eu acho que ela tem um plano mestre”), em “Something In Between” (“Eu não sou dele, eu não sou dela, eu não sou sua”), e até mesmo em “So Easy To Fall In Love”, ao dizer: “É um paraíso em meu coração, e podemos encontrar um espaço para você”, mostrando, assim, a autoconfiança que encontrou para não mudar sua vida ou moldá-la a ninguém, apenas arranjar um espaço para o amor dentro do que já existe.
Após o lançamento do álbum, Dean abriu o show dos cantores como Sabrina Carpenter e Sam Fender e agendou seis shows na O2 Arena — uma das arenas cobertas mais famosas do mundo, localizada em Londres e com capacidade de mais de 20 mil pessoas.
A força feminina em sua vida e em suas músicas
Em muitas entrevistas, e em suas próprias músicas, Olivia sempre consegue mostrar o poder da força feminina que a influenciou e ainda influencia. Para a NPR, ela conta que teve sorte de crescer cercada de mulheres fortes e independentes, como sua tia e sua mãe. “Minha mãe trabalhava com o Partido da Igualdade das Mulheres, que é um partido político no Reino Unido. Então, seria simplesmente impossível para mim não ser uma feminista muito convicta.”
Além disso, aos 17 anos, conheceu sua empresária, que também era uma jovem e ambiciosa mulher, o que facilitou o trabalho em parceria, criando um ambiente confortável e seguro para que ambas pudessem se desenvolver e apoiar uma à outra. “Tenho muitas mulheres na minha equipe”, conta Olivia em entrevista para a Forbes em 2025, “o trabalho flui de forma muito natural (…) Trabalho com diretoras de videoclipes, porque sinto que minha música é pelo olhar feminino, mesmo sendo, claro, para todo mundo.”
Ao ser questionada sobre conselhos para as futuras cantoras e artistas, ela pede confiança e a certeza de que estão rodeadas de pessoas que podem incentivá-las e elevá-las; “Às vezes, pareça que trabalha para a gravadora e para todo mundo, e que deveria apenas dizer sim a tudo e agradar (…) Mas, às vezes, é preciso dizer não. O “não” é muito poderoso e, às vezes, muito difícil de dizer.”
O cuidadoso trabalho de Olivia em “The Art Of Loving” foi reconhecido de inúmeras formas, tanto pela conexão que criou com o público quanto pela própria indústria. Em fevereiro deste ano, ela recebeu seu primeiro Grammy ao vencer a categoria “Artista Revelação” — que concorria com Addison Rae, o grupo Katseye, Alex Warren, The Marías, Leon Thomas, Sombr e Lola Young (que também frequentou a Brit School na mesma época que Olivia) — e foi a vencedora de quatro Brit Awards nas categorias: “Artista do Ano”, “Álbum do Ano”, “Música do Ano” (em parceria com Sam Fender) e “Melhor Ato Pop”.
Durante sua conversa com Zane Lowe, Dean expressa seu amor e sua gratidão pelo álbum que criou e a maneira como foi recebido e aceito pelo mundo, e que está ansiosa para começar seus próximo projetos e vê onde sua intensidade e sua devoção pela música a levarão a seguir.