Não é segredo que fazer um filme live action não é para qualquer um. Imagina-se que hoje em dia seja mais fácil com todas as tecnologias e técnicas a nosso dispor, porém, conforme acompanhamos fracassos de bilheterias de grandes estúdios, como a Disney com Branca de Neve (2025), fica claro que um live action não depende só de tempo ou tecnologia avançada, mas também do respeito e cuidado com a história sendo contada.
O filme Peter Pan, lançado em 2003 – disputando bilheteria com o terceiro da franquia O Senhor dos Anéis – e dirigido por P.J.Hogan, é uma das poucas adaptações que segue esses elementos, e é justamente por isso que toca o coração de tantos espectadores até os dias de hoje.
Baseado na peça de teatro O menino que não queria crescer (1904) e no livro Peter Pan (1911), ambas obras de J.M. Barrie, o filme conta a história de Wendy Darling, uma jovem garota que vive com seus pais e seus dois irmãos, John e Michael, na cidade de Londres no início do século XX.
No mesmo dia em que é pressionada pela sua família a crescer e deixar de lado as brincadeiras com seus irmãos, Wendy recebe a visita de Peter Pan, o garoto que pode voar e um fã das histórias que ela conta. Seduzida por promessas de magia, fadas, sereias e pelo persuasivo Peter Pan, Wendy, junto de John e Michael, deixam suas vidas comuns e voam à Terra do Nunca prontos para viverem uma grande aventura. (Ainda bem!)
Com roteiro escrito pelo próprio Hogan em parceria com Michael Goldenberg – Harry Potter a Ordem da Fênix (2007), Lanterna Verde (2011) -, o longa segue fielmente os princípios da obra literária. Entretanto, além de manter as características e acontecimentos que são mundialmente conhecidos, o filme também aperfeiçoa muitos detalhes do livro, apresentando uma história que adultos podem facilmente se envolver em uma reflexão sobre amadurecimento, responsabilidades, amor e respeito a nossa criança interna.
O Peter Pan que quase cresceu
No livro de Barrie e na animação da Disney de 1953, somos apresentados a personagens muito bem desenhados: vilão, herói, mocinha, ajudantes. Claro que isso faz sentido por ser uma história para crianças, contudo, na adaptação de 2003, P.J. Hogan consegue aprofundar esses personagens e aborda com maestria suas dualidades e seus conflitos internos. De certa forma, isso também existe no livro e na animação, mas ficam guardadas no fundo da gaveta junto com os sonhos do Sr. Darling, enquanto o filme traz essas questões à luz sem perder a magia, essência e, principalmente, as cores.
Peter Pan, interpretado pelo astuto Jeremy Sumpter, é uma criança e ponto. Ele não sabe diferenciar certo do errado, realidade da fantasia e não possui bússola moral nenhuma. Manda e desmanda nos meninos perdidos, se considera o mais inteligente de todos e o herói das histórias. No filme, ele continua sendo tudo isso. Ele tenta matar os meninos incontáveis vezes, exclui a Sininho de sua vida em um piscar de olhos e age conforme seu próprio interesse. Porém, é capaz de reconhecer emoções e seus sentimentos por Wendy. E esse é o detalhe mais importante da personalidade do Peter Pan na adaptação de Hogan, e justamente o que faz com que o público se conecte, tenha empatia e torça por ele, apesar de sermos constantemente lembrados de que Peter é o menino que não quer crescer – e não vai.
E aqui é a prova de que uma escalação de atores intencional e bem estudada faz toda a diferença em um filme. Jeremy consegue percorrer essas camadas do personagem com muita fluidez e sutileza. Em um momento estamos vendo toda a esperteza e malícia de Peter em seus olhos afiados e, no segundo seguinte, nos apegamos a inocência e doçura de suas expressões infantis.

Tanto a atuação de Jeremy quanto essa característica de Peter ficam claras na cena em que Pan chama Wendy para assistir ao baile das fadas e, logo depois, a convida para dançar. Nessa sequência, ele mesmo questiona Wendy sobre a fantasia que estão vivendo, procurando garantir que nada era real e o sentimento entre eles não existia. Porém, quando Wendy o confronta, Peter volta a sua natureza e, como uma criança, reduz suas emoções a pessoas ou situações.
Wendy: O que você sente? Felicidade? Tristeza? Ciúmes?
Peter: Ciúmes? Tink!
Wendy: Raiva?
Peter: Raiva? Hook.
Wendy: Amor?
Peter: Amor? Nunca ouvi falar disso.
Isso só reforça o brilhantismo e o cuidado do filme em não descaracterizar um personagem tão conhecido e amado por todo o mundo. Além de manterem sua essência, deram profundidade e maturidade que permitem ao público se conectar com Peter, entender seus conflitos e sentir sua dor de deixar Wendy partir para a vida adulta.
A heroína quase esquecida
Mesmo que o nome dela tenha sido apagado dos títulos, uma vez que o livro originalmente foi publicado como “Peter e Wendy”, Wendy Darling não deixa de ser a grande heroína da história de Peter Pan. E não é porque ela lutou com piratas e venceu a batalha, mas sim por aceitar a aventura que se apresentou a sua frente, enfrentar os desafios que surgiram na jornada, entender seu lugar naquela história e seguir com a sua vida tirando o melhor dos dois mundos.
Essa é a típica jornada do herói para qualquer roteiro e livro. O herói é aquele que volta de sua experiência mudado, com uma nova sabedoria, um novo olhar, ou uma recompensa mais concreta. Nesse caso, Wendy – apenas uma criança – percebe que sua realidade não está na Terra do Nunca, e que ela precisa sim crescer, casar e constituir sua própria família, mas sem abandonar a criança interna que ela tanto preza e necessita.
A decisão tomada por ela de retornar à Londres e crescer também está na história original, no entanto, é no filme que essa maturidade de Wendy é explorada com mais clareza, e graças a delicada e precisa interpretação da então novata Rachel Hurd-Wood.
Assim como Jeremy (Peter Pan), Rachel também traz com naturalidade a maturidade, inteligência e coragem de Wendy, o que é pouco falado e abordado nas adaptações. Com uma elegância infantil, Rachel mostra toda a força mental da personagem de nunca abandonar seus princípios e de manter-se fiel a si mesma. E essa é a beleza da Wendy do filme, que não precisou ser transformada em uma guerreira espadachim para encontrar seu valor ou determinar o rumo de sua própria história.


Em um trecho do último capítulo do livro, o próprio J.M. Barrie nos acalenta sobre o futuro de Wendy: “Você não precisa ficar com pena dela. Ela era do tipo que gostava de crescer. No fim das contas, acabou crescendo por vontade própria, um dia antes das outras meninas.”
O romance inocente
Essa maturidade de Wendy e o “quase crescimento” de Peter ficam mais evidentes com o romance inocente e infantil que é trabalhado entre essas personagens.
Desde o início do filme fica claro o interesse que surge entre eles, apesar de ser mais evidente para Wendy, que entende rapidamente suas vontades e possibilidades de concretizá-las – como na cena em que ela oferece um dedal para Peter na tentativa de conseguir um beijo dele, enquanto Peter, sem saber o que nada daquilo significava, dá um objeto de sua própria roupa em troca.
Ao longo da adaptação, Wendy tenta de inúmeras maneiras tirar uma confissão de Peter a respeito de seus sentimentos por ela, que vão muito além de uma mera amizade infantil, como ela bem sabe. Mas Peter consegue se esquivar de todas as formas, mostrando que não deixa de ser um menino com medo de perder seu mundo de brincadeiras infinitas, porém, um garoto esperto o suficiente para saber o motivo e as consequências desse medo.
A beleza do live-action de Hogan está justamente no cuidado em que cria esse romance tão profundo e cheio de significado entre duas crianças, sem descaracterizar os personagens e desenvolver uma história que não se encaixa no universo construído no filme.

Apesar do forte sentimento que Wendy sente por Peter – que nos leva a traduzir como seu grande primeiro amor -, ela não deixa de escolher o que é melhor para si, abrindo mão de uma vida com ele, brincando e fantasiando mundos inimagináveis, para crescer, conhecer outras pessoas e constituir sua própria família. Já para Peter, os sentimentos por Wendy o aproximam do público e tornam seu personagem, tão complexo e, de certa forma, perturbado pela infância sem fim, alguém que possam torcer e sentir pena.
Mesmo que durante o longa seja possível ver demonstrações do que sente por Wendy, como quando a convida para dançar ou quando ganha força após ela beijá-lo, é somente na última cena que entendemos de fato o impacto desse amor inocente no personagem, que mostra com clareza a dor que experimenta por precisar deixar Wendy crescer, sabendo que não a terá mais em sua vida da maneira que deseja. E essa ação mostra como Peter quase cresce, agindo, pela primeira vez, sem egoísmo.
O Capitão Gancho
No filme de P. J. Hogan, assim como em muitas outras adaptações, o Capitão Gancho exerce uma função muito importante na construção da linguagem cinematográfica da história.
Na peça O menino que não queria crescer – que deu origem ao livro – os personagens do Sr. Darling e do Capitão Gancho são interpretados pelo mesmo ator, e no caso do live action de 2003, pelo engenhoso Jason Isaacs – conhecido também como Lucius Malfoy na saga Harry Potter. Esse detalhe pode parecer um capricho da produção, ou uma facilidade na escalação de atores, mas na verdade ele explica o mais íntimo da história criada por J.M. Barrie e a lição fundamental deixada por Wendy.


Uma vez que a história é contada pela própria Wendy, não é difícil de entender que tudo se passa pelo ponto de vista dela, inclusive os próprios personagens. Dessa forma, o papel do Capitão Gancho vem para representar tudo de negativo que ela pensa sobre tornar-se adulta, assim como o que ela imagina ser o lado obscuro de seu pai, que, no livro, a pressiona a largar sua infância de um dia para o outro.
Sendo assim, a infinita luta entre Peter e Gancho, e de origem totalmente desconhecida pelo público, nada mais é do que o espelho da guerra interna de Wendy entre sua infância, representada por Pan, e o conceito da vida adulta, manifestada por meio de Gancho (Sr. Darling).
E, claro, que Jason Isaacs foi o ator perfeito para trazer essa complexidade para a tela.
Peter Pan na Técnica
Fazer um filme de fantasia é uma tarefa que requer o máximo atenção nos mínimos detalhes, uma vez que muitos elementos na história simplesmente não existem. Em Peter Pan, isso é basicamente 98% do filme, porque mesmo quando estamos em uma Londres Eduardiana, vemos um garoto e uma fada entrarem voando pela janela procurando uma sombra perdida. E tornar essa mescla de realidades algo crível para o público é um dos grandes desafios da produção, mas também uma das principais razões pelo longa de 2003 ser um exemplo para o gênero.

Em entrevista para um canal de televisão do início dos anos 2000, o Totally Hollywood TV, Alex Laurant, diretor de efeitos especiais do filme, relata a abordagem especial que P.J. Hogan adotou para tornar a fantasia o mais mágico e real possível. “Ele disse que é claro que eu quero a riqueza do realismo, mas o mundo em si precisa se libertar desse confinamento. Isso realmente diferencia este filme”.
Essa constante passagem entre fantasia e realidade foi analisada no texto P.J.Hogan’s ‘Peter Pan’ is still an underrated masterpiece 20 years later (‘Peter Pan’ de P.J.Hogan ainda é uma obra-prima subestimada 20 anos depois, em tradução livre), publicado em 2023 no site Medium. Nele, o autor, “El Hersey”, identifica e explica o uso da iluminação, das cores e os cenários para trazer essa dualidade nas ambientações do filme.
De acordo com o texto, a produção precisou separar diferentes cartelas de cores para cada momento e situação do filme, equilibrando perfeitamente a quantidade de credibilidade (realidade) e imaginação das cenas. Um exemplo disso é a escolha das cores terrosas quando se trata dos meninos perdidos. Uma vez que eles aparecem sempre com marrons, verdes, beges e em um cenário realista como a floresta, o espectador entende a veracidade do lugar e, assim, é possível fazer a quebra da fantasia extrema que é a Terra do Nunca.

Já a Terra do Nunca, por outro lado, é o uso excessivo de cores chamativas e vibrantes, como quando Wendy, John e Michael chegam à ilha pela primeira vez e nuvens mesclando tons de rosa, roxo, amarelo e laranja gritam na tela, ou quando assistimos ao baile das fadas recheado de luzes e o brilho do pó mágico. Além disso, Hogan também utiliza outros elementos para aprofundar essa fantasia que, no texto do Medium, o autor identifica como “pegada cartunesca” com os personagens pulando em nuvens ou ficando com a bochecha fortemente corada.

Esse equilíbrio bem trabalhado é um dos muitos fatores que tornam o filme o mais próximo de uma representação fiel do mundo criado por J.M Barrie nas páginas do livro. Sem o cuidado, o estudo por trás de cada escolha e a intenção de criar algo significativo para o público, não existe uma boa adaptação, muito menos um live-action. E é por isso que mais de 20 anos depois, Peter Pan de P.J. Hogan ainda continua sendo um dos melhores filmes do personagem já feito até hoje.