Uma onda de comoção e nostalgia surgiu no início deste ano devido a um simples marco: O aniversário de 20 anos de Hannah Montana, uma das maiores sitcoms dos anos 2000 e responsável por lançar duas grandes divas pop, a personagem Hannah e a cantora Miley Cyrus. 

Parece surpreendente que uma série original do Disney Channel, lançada em 2006, seja capaz de movimentar um público tão extenso — tanto em quantidade como idade — depois de anos. Entretanto, Hannah Montana não foi apenas mais uma das produções teens que a Disney colocava em seu catálogo. A série foi uma das precursoras do modelo que a empresa seguiria nos anos seguintes, lançando no mercado uma história com uma protagonista adolescente, músicas que pudessem ter vida própria além do programa televisivo e, principalmente, uma atriz/cantora com potencial de se tornar um verdadeiro ícone e grande influência de uma geração. 

Hannah Montana: A série

Hannah Montana não foi o primeiro programa de sucesso do canal Disney Channel. Em 2001 estreou a série Lizzie McGuire, estrelado por Hilary Duff, com 14 anos de idade, que foi o primeiro caso de uma artista feminina que fez carreira na Disney, trabalhando em outros filmes de diferentes títulos. Em 2003, lançaram As Visões da Raven e, em 2005, Zack e Cody: Gêmeos em Ação

Apesar de já existirem outras produções que também se consagraram na memória e no coração dos jovens da época, o lançamento de Hannah Montana alcançou outro patamar. Só na estreia, a série atingiu 5.4 milhões de espectadores, de acordo com matéria do site Billboard. 

Um dos principais motivos para todo o movimento de fãs está na história: Miley Stewart (Miley Cyrus) é apenas uma adolescente que mora com seu pai, Robby Stewart (Billy Ray Cyrus), e seu irmão, Jackson Stewart (Jason Earles), na cidade de Malibu. No entanto, basta ela colocar uma peruca loira que se transforma na maior estrela pop teen do mundo — a incrível Hannah Montana, o que lhe permite viver o melhor da fama e do anonimato.

Jason Earles (Jackson Stewart), Miley Cyrus (Hannah Montana) e Billy Ray Cyrus (Robby Stewart)

O que parece ser uma trama simples se tornou um dos grandes atrativos da série: a ideia de que qualquer adolescente comum poderia experimentar a fama e ser uma grande estrela da música, mas ainda continuar com sua vida simples e rotineira. Além disso, o programa surgiu em um momento em que muitas artistas do pop enfrentavam grandes desafios com a falta de privacidade e o abuso dos paparazzi, como a cantora Britney Spears, fomentando ainda mais a fantasia de manter o anonimato mesmo sendo conhecida por todo o mundo. 

Outro ponto que chamou a atenção na história foi a relação de Miley/Hannah com sua família e amigos. O fato de Miley e Billy Ray serem pai e filha na série e na vida real tornava as interações entre eles, e as tramas dos episódios, ainda mais envolventes para o público, que conseguia ver uma afeição genuína entre os personagens e um senso de realidade no meio da ficção. 

A amizade também se tornou um ponto central que aproximou os fãs do programa. Miley estava sempre rodeada de seus dois melhores amigos, Lilly Truscott (Emily Osment) e Oliver Oken (Mitchel Musso), que não apenas participavam de sua vida comum, como também estavam envolvidos nas confusões de Hannah Montana — especialmente Lilly, que criou o alter ego “Lola” para acompanhar a amiga nos bastidores da fama. O tema da amizade era tão importante na história que, logo no primeiro episódio, já testemunhamos a dificuldade de Miley em esconder seu segredo de Lilly, que acaba descobrindo toda a verdade no final. 

Emily Osment (Lily Truscott), Mitchel Musso (Oliver Oken) e Miley Cyrus (Miley Stewart) em episódio da série.

As relações de Miley com os amigos e a família eram a base principal de conexão dos espectadores com a realidade, ou seja, a vida comum da protagonista, ainda mais porque a maioria dos conflitos e problemas aconteciam com ela (Miley), em vez da Hannah Montana. Isso tornava os fãs próximos da personagem, que também passava por situações corriqueiras da adolescência, como discordar do pai, fazer coisas escondidas com os amigos, brigar com o irmão diariamente, se apaixonar por colegas e ter rixas com outras pessoas do colégio. 

Além da narrativa, outro ponto importante elevou a série na preferência do público e na importância para o canal Disney Channel — e, claro, foram os figurinos. Eles não só se tornaram um símbolo direto de Hannah Montana, como também influenciaram a moda de uma geração de fãs e de artistas. As roupas coloridas, cheias de brilho e, principalmente, diversas camadas, chegaram a estampar os tapetes vermelhos da Disney em estreias de filmes e outros eventos. Até mesmo os conjuntos mais simples usados por Miley na época ficaram marcados, assim como seu cabelo mesclado e as famosas extensões na última temporada.

Miley Cyrus como Hannah Montana em foto promocional.

O formato Disney

Hannah Montana foi um dos primeiros casos onde a ficção e a realidade se mesclaram. 

Tanto a atriz Miley Cyrus quanto a personagem Hannah ganharam vida além dos episódios; as músicas da cantora fictícia deixaram de apenas complementar a narrativa, ou servir de apoio para a série, e começaram a fazer sucesso entre os fãs fora do canal Disney Channel. De acordo com matéria publicada pela Variety em março deste ano, o álbum da primeira temporada “foi a primeira trilha sonora de TV a estrear em 1º lugar na Billboard 200”, transformando a Hannah em uma pop star dentro e fora da televisão. 

A Disney também enxergou o potencial da própria Miley Cyrus, que começou a crescer além da personagem. Sendo assim, em 2007, produziram a turnê “Best of Both Worlds” que contava com uma primeira parte sendo conduzida pela Hannah Montana, com os figurinos e canções da série, e a segunda pela própria Miley Cyrus, com roupas simples e sem peruca. “A turnê (…) esgotou ingressos em 71 arenas na América do Norte”, conforme informa a matéria da Variety

Com o sucesso crescente da série e da própria Miley Cyrus, decidiram expandir a narrativa da Hannah direto para os cinemas, lançando o clássico Hannah Montana: O Filme, com orçamento de 30 milhões de dólares. A produção tomou uma proporção bem maior do que a série, que se resumia a cenários montados em estúdio. Além de trazer novos ambientes, o filme contou novas canções – voltadas mais para o estilo da Miley, como “The Climb” e “Butterfly Fly Away” – e com participações especiais de grandes artistas, como Tyra Banks, Melora Hardin e Taylor Swift, que também contribuiu com a criação das músicas “Crazier” e “You’ll Always Find Your Way Back Home”.

Miley Cyrus, Lucas Till, e Taylor Swift nos bastidores de Hannah Montana: o filme

Desta forma, estrutura-se o modelo multimídia da Disney, criando programas e filmes que pudessem explorar não apenas as narrativas em diferentes formatos, como também os novos atores e cantores que cresciam aos poucos na visão dos espectadores, como Selena Gomez – que fez participações em Hannah Montana como a rival da protagonista –, Demi Lovato, Jonas Brothers e muitos outros. 

Miley Cyrus x Hannah Montana

Diferente de outros colegas da Disney, desde a criação da série Hannah Montana, Miley Cyrus não participou ativamente de nenhuma outra produção do canal, como, por exemplo, Demi Lovato, que passeou por diferentes personagens e temáticas. Miley cresceu sendo a Hannah Montana, e a Hannah cresceu por conta da Miley. 

Eu tive que evoluir porque Hannah era maior que a vida, maior que eu”, contou em entrevista à Rolling Stones em 2020. “[O programa] era sobre uma garota normal com uma peruca. Tudo sempre esteve dentro de mim. O conceito do programa sou eu. Eu tive que realmente aceitar isso e parar de pensar em terceira pessoa”. 

Apesar de isto estar claro hoje para a Miley adulta, sua versão adolescente ainda precisou buscar a própria identidade e uma vida sem a peruca loira por perto. E foi questão de tempo até um rompimento completo com a ideia da Hannah acontecer.

Em 2008, Miley criou seu primeiro álbum desvinculado da série, o “Breakout”, que continha músicas como “7 Things”, “Fly On The Wall” e o cover de “Girls Just Wanna Have Fun”. Em 2009, lançou o icônico clipe de “Party In The U.S.A”, que alcançou o segundo lugar na Billboard Hot 100 e deixou ainda mais claro quem era Miley Cyrus sem a Hannah Montana.

Miley Cyrus no clipe de “Party In The U.S.A”

Em 2010, com 18 anos, ela lançou “Can’t Be Tamed” e, no ano seguinte, perdeu um contrato com o filme Hotel Transilvânia após o vazamento de fotos em que aparecia posando com um bolo em formato de pênis, como conta a Variety. No entanto, foi apenas com o fim do programa, em 2011, que o nome da cantora passou a surgir de maneira única e com mais evidência.

Em 2013, ela lançou o famoso clipe de “Wrecking Ball”, que se tornou o grande divisor entre seu passado e seu futuro. A música pertence ao álbum Bangerz (2013), que foi a tentativa de Miley em se afastar da imagem que construiu enquanto ídolo teen da Disney — ou seja, como Hannah Montana.

Para a Vogue UK, em 2023, ela conta que queria chamar atenção para si mesma, “porque estava me separando de um personagem que eu havia interpretado. Qualquer um, quando se tem 20 ou 21 anos, quer se provar: ‘eu não sou meus pais, sou quem eu sou’.” 

Como prova disso, no mesmo ano de Bangerz, ela se apresentou no MTV Video Music Awards (VMA) com outro hit, “We Can’t Stop”, ao lado de Robin Thicke, e chocou o público com a performance rebelde e provocadora, que se tornou um grande marco da história do pop internacional. 

Miley Cyrus se apresentando no VMA em 2013 | Imagem: Reuters/Lucas Jackson

Além disso, nesse momento, Miley também enfrentava o fim do noivado com o ator Liam Hemsworth, conhecido por seu papel como Gale na franquia Jogos Vorazes. Ambos se conheceram no set do filme A Última Música, em 2010, e estavam juntos desde então. Eles por fim se casaram em 2018, e assinaram um divórcio em 2020. 

Os anos que se seguiram foram de total desconexão com seu passado. Miley fazia questão de mostrar que não era mais a garota que todos pensavam que fosse, que o papel da adolescente doce e obediente — que exigiam dela por anos — não existia mais. A cada música, a cada foto, a cada apresentação, deixava claro que era dona de sua própria história, e a escreveria do jeito que quisesse. 

Meses depois da apresentação no VMA, ela foi apresentadora especial do programa de comédia Saturday Night Live (SNL) e, em seu discurso de abertura, declarou, brincando, que Hannah havia sido “morta”. Assim como no aniversário de 16 anos do programa ela escreveu em seu instagram: “Mesmo que HM esteja cortada em pedacinhos e enterrada no meu quintal, ela sempre terá um lugar muito especial no meu coração!”

Apesar desses anos em que tentou recuperar a autonomia de sua própria identidade e imagem, Miley, hoje com 33 anos, percebe que foi uma fase necessária em sua vida pessoal e, principalmente, profissional. Sem ter vivido isso, não saberia estabelecer os limites que conhece hoje e que permitem o equilíbrio entre uma vida pública e privada. 

“Naquela época, apresentei-me ao mundo com ousadia e sem pedir desculpas”, disse em entrevista a Variety, “Talvez isso tivesse dado certo na época, e não teria sido um fardo tão pesado, mas eu não teria tido a recompensa. Não sei se teria a estabilidade que minha carreira tem hoje.” 

Por mais que admita que não quer apagar o passado, por ele ter sido importante para sua evolução, ela relembra de sentir vergonha das eras anteriores, especialmente ao chegar em casa e encarar a família, ou saber da vergonha que os irmãos sentiam na escola por serem relacionado a ela, como contou ao podcast Reclaiming. Entretanto, Miley ainda busca um olhar positivo de toda sua trajetória: ”Prefiro pegar cada pedacinho de tudo o que já fui e criar um mosaico que representa exatamente quem sou agora.”

Em 2023, lançou seu álbum Endless Summer Vacation que conta com o hit “Flowers”, responsável por lhe dar seu primeiro Grammy, na categoria “Melhor Performance Solo de Pop”, e também por trazer uma nova fase da cantora — mais confiante com sua história e sua descoberta como mulher e artista. 

Miley surgiu com uma proposta mais madura e mais certa sobre sua carreira na música, sabendo dosar quem ela foi, e quem ela não tinha receio de ser. E uma das maiores provas deste processo aconteceu em 2024 ao receber o status de Lenda da Disney.

A homenagem aconteceu na D23, na Califórnia, onde ela se tornou a artista mais jovem a receber o título. Na ocasião, fez um discurso que refletiu toda a sua história e como seu papel na Disney mudou sua vida. “Estou aqui, ainda orgulhosa de ter sido Hannah Montana, porque ela moldou a Miley de tantas maneiras”, disse durante seu discurso, “este prêmio é dedicado à Hannah e a todos os seus fãs incríveis e leais, e a todos que tornaram meu sonho realidade. Para citar a própria lenda: ‘Esta é a vida.’” 

O Legado

20 anos depois, Hannah Montana deixou de ser apenas uma sitcom de sucesso para se tornar um dos maiores símbolos da cultura pop. A peruca loira, as roupas coloridas montadas em camadas e músicas como “This is the Life”, “Everybody Makes Mistakes”, “He Could Be The One” e muitas outras viraram referências diretas à personagem Hannah Montana, que ganhou vida própria na memória dos fãs. 

Para celebrar esse marco da Disney, hoje foi ao ar o grande especial pensado pela própria Miley Cyrus e apresentado por Alex Cooper, do podcast Call Her Daddy. Para a Variety, Miley contou que pensou com muito cuidado e carinho em todos os aspectos do especial para honrar o legado da série no canal e para que os fãs se sentissem representados. “Toda a minha vida se deve a essa lealdade.”, ela disse. “Eu não queria que isso se tornasse um momento viral. Meu objetivo ao fazer isso não era quebrar a internet.”

A comoção durante esses meses, com o anúncio do especial e a expectativa de reviver momentos importantes e nostálgicos, só mostra o impacto que Hannah Montana ainda tem nas pessoas. Desde o começo do ano, foi possível ver nas redes sociais novas mercadorias da personagem serem vendidas, resgate de falas e cenas marcantes, looks icônicos sendo recriados e músicas voltando a serem escutadas por milhares de fãs.

Hannah Montana deixou uma profunda marca em uma geração inteira, influenciando inclusive artistas como Sabrina Carpenter, como ela já comentou em entrevista à Rolling Stones. Independente do motivo que levou cada fã a se conectar com a personagem — seja pela série que trazia conforto durante  adolescência, pelas músicas que davam sentido a conflitos internos ou pelas roupas que ditaram moda por muitos anos —, todos carregaram na memória e no coração por anos, e continuam celebrando cada aniversário como se fosse o primeiro.