Nos últimos anos, um gênero específico de livro vêm ganhando espaço nas prateleiras de livrarias e nas estantes de muitos leitores. São histórias que transportam, mudam perspectivas e permitem que a vulnerabilidade seja a maior força; principalmente porque trazem a visão feminina como o centro de tudo — e, apesar disso ser um dos grandes atrativos dessas narrativas, também é o que atrai críticas e a ideia de ser uma leitura inferior a qualquer outra.

A Romantasia se tornou um subgênero literário de grande sucesso para muitas editoras de livros; ela consiste na junção da fantasia clássica com o romance, criando histórias que apresentam novos mundos, novos seres, diferentes visões de vida, relacionamentos que os leitores podem se entregar sem medo e o protagonismo feminino — seja pelas personagens quanto as próprias escritoras, que se tornaram as maiores responsáveis pela popularização e criação desse subgênero. 

Hoje são muitos títulos, nacionais e internacionais, que se enquadram em romantasia, entretanto, uma saga de livros em específico foi considerada a principal propulsora do subgênero: “Corte de Espinhos e Rosas” – ou como é popularmente conhecida, Acotar — da escritora Sarah J. Maas. Em 2020, ano em que os livros tiveram uma ascensão por conta da pandemia e a influência do Tik Tok, foram vendidos um milhão de livros só no Brasil, e mais de 10 milhões pelo mundo, de acordo com matéria na Veja. E, com base nos dados do Circana BookScan concedidos à Forbes em 2024, só no início daquele ano foram 4,83 milhões de livros da série impressos.

O sucesso de Acotar traduz os atributos da romantasia que cativam tantos leitores fiéis. A saga traz todos os elementos que tornam a história tão atraente e viciante, conseguindo segurar o leitor por cinco livros seguidos.

A Romantasia de Sarah J. Maas

Publicada em 2015, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, a saga de livros “Acotar” se tornou um sucesso absoluto logo de início. Como reforça a diretoria executiva da Galera Record — responsável pela publicação dos livros aqui no país — Rafaella Machado, “é impossível falar de romantasia sem falar de Sarah J. Maas”. 

Conhecida pela criação de um universo fantástico complexo, nomeado pelos fãs de “Maasverse”, Sarah desenvolveu histórias que envolvem e cativam seus leitores a ponto de segurá-los por três sagas, sendo uma delas com oito livros no total (Trono de Vidro). Entretanto, foi com a série “Corte de Rosas e Espinhos” que ela conseguiu se consolidar no mundo da fantasia e, principalmente, liderar o consumo de romantasia. 

O primeiro livro da saga introduz a história de Feyre Archeron, uma jovem garota que mora com seu pai e suas duas irmãs mais velhas, Nestha e Elain, em uma parte precária de um vilarejo. Apesar de ser a caçula, Feyre é a responsável por cuidar de todos e caçar animais para alimentar a família, uma vez que seu pai sofreu um acidente e não consegue mais andar direito. 

Narrado pela própria Feyre, ela conta como cresceu ouvindo histórias terríveis sobre seres chamados feéricos que vivem do outro lado de uma grande muralha — localizada próxima de onde vivem. Em uma de suas caças, na tentativa de garantir comida durante o rigoroso inverno que chegava, ela acerta e mata um desses feéricos. Por conta de um acordo criado anos atrás para manter a ordem de convivência entre os humanos e esses seres, Feyre é levada para as terras além da muralha, onde é sentenciada a viver para sempre nesse mundo até então misterioso.

A partir disso, a saga desenvolve o mundo feérico, suas lendas e seus conflitos, junto com a jornada de Feyre, que passa de uma simples humana para uma personagem de extrema importância para a narrativa. 

Por meio de uma releitura da famosa história de “A Bela e a Fera”, Sarah elabora na saga um mundo completamente novo, com novas leis, novos hábitos e novos seres. E, de acordo com o portal Correio 24 horas, esses são fatores determinantes para a classificação de uma romantasia: “a geografia, a história e a política do universo devem ser diferentes da sociedade contemporânea” — o que Maas consegue aprofundar e aperfeiçoar cada vez mais nos quatro livros seguintes, criando não apenas uma jornada mais intensa para Feyre e os outros personagens, como um território completamente único e diverso, rico em detalhes e imaginação da autora.

Além dessas especificações de espaço, tempo e território, outro ponto que determina uma romantasia é o romance, que precisa ter o mesmo nível de importância para a história quanto a fantasia. A combinação desses dois gêneros possibilitaram que a saga ultrapassasse muitas barreiras da literatura e criasse uma experiência completa para o leitor, que pode aproveitar o mundo da fantasia com conflitos políticos, lutas, batalhas e magias, assim como o romance que, como explica Rafaella Machado, as mulheres sentem que são “seguros de viver”.

No romance, as relações que o leitor encontra são de apoio mútuo entre os casais, liberdade, respeito, companheirismo e a segurança para se entregar ao sentimento sem ser rejeitado ou machucado — permitindo que o público se envolva emocionalmente com esses personagens. Essas trocas evoluem a história e permitem que os protagonistas cresçam e se tornem sua melhor versão, capaz de enfrentar a nova realidade que encontram.

O “problema” do ponto de vista feminino 

Na romantasia, o ponto de vista feminino é o que rege o subgênero, seja nas histórias, na produção dessas narrativas ou no consumo delas. E, justamente por ser direcionado majoritariamente a esse público, os livros costumam ser ignorados ou mal vistos na comunidade literária, principalmente pelo olhar masculino que já foi tão abrangente no gênero da fantasia com títulos como “O Senhor dos Anéis”, “A Guerra dos Tronos”, “Percy Jackson”, etc. 

Uma pesquisa realizada pela Nielsen BookData no Reino Unido apontou que, em 2023, as 20 escritoras mais vendidas em ficção e não ficção tiveram menos de 20% de compradores homens, e entre as autoras estão nomes como Agatha Christie, Harper Lee, Colleen Hoover, Taylor Jenkins Reid, entre outras. Diferente dos autores que tiveram 44% das compras feitas por mulheres. 

Esse número mostra uma tendência cultural onde homens preferem livros escritos por outros homens, ou que se passam pelo ponto de vista masculino. Isso porque os assuntos abordados por escritoras, como o romance, conflita diretamente com “as expectativas tradicionais da masculinidade”, conforme explica Bruna Schlindwein Zeni — mestra em direitos sociais e fundadora da editora feminista Blimunda — para o Correio Braziliense. Sendo assim, ler histórias que falem abertamente sobre a experiência feminina, e o contato com os sentimentos, pode trazer desconforto para muitos que não estão acostumados a lidar com outra realidade — senão aquela que aprenderam a seguir. 

Portanto, uma vez que a romantasia também se alimenta do romance, os livros do subgênero se tornam automaticamente direcionados para mulheres, que, na visão de muitos, estão mais propensas a ler histórias dessa natureza. 

Entretanto, são esses os principais elementos que tornam as narrativas da romantasia tão atraentes para os leitores. Na saga Acotar, o protagonismo feminino é destrinchado em diversas formas, principalmente por abordar a visão de duas personagens com diferentes destinos e ambições, como acontece no quarto livro “Corte de Chamas Prateadas”, onde Feyre deixa de ser a narradora principal e entrega a continuação da história para sua irmã mais velha, Nestha. A mudança de narração, e ponto de vista, aprofunda ainda mais a perspectiva feminina, mostrando como duas mulheres encontram suas forças para sobreviver e experienciar o amor de maneiras completamente diferentes — e isso em um mesmo universo. 

Enquanto Feyre segue uma trajetória linear, onde todos os obstáculos que aparecem são superados um atrás do outro, permitindo com que ela amadureça e aprenda com seus erros e o de seus amigos, Nestha, por outro lado, percorre um caminho diferente e mais solitário, aprendendo e errando inúmeras vezes por preferir viver a sua maneira. Ela não tem medo de impor seus limites e tomar suas próprias decisões. E, por mais que ela e Feyra trilhem caminhos diferentes, Maas deixa claro que nenhum está certo ou errado, mas que as experiências de ambas as protagonistas são válidas para suas próprias histórias. Além disso, o romance que encontra cada uma das irmãs também mostra que o amor não é igual para todas, pois cada uma tem sua própria necessidade e uma vida individual para viver naquele mundo.

A desvalorização da leitura adulta para mulheres

Outro ponto que a saga consegue explorar bem é a vivência sexual das mulheres. Classificado como “leitura hot’’ por conter cenas detalhadas de sexo entre os personagens, Acotar deixa em primeiro plano o desejo da mulher, e não ela como apenas parceira ou a que satisfaz o outro, mas sim a que tem suas vontades atendidas. Em entrevista neste ano para o podcast “Call Her Daddy” com Alex Cooper, Sarah explica que as cenas íntimas entre os casais muitas vezes estão ligadas à narrativa, e que também servem para revelar a conexão que se desenvolve entre eles, além de querer mostrar que o desejo feminino não deve ser tratado com restrição. “Você está escrevendo algo que retrata a vida com muita precisão. E sexo faz parte da vida”, ela acrescenta.

Sarah J. Maas em entrevista no podcast “Call Her Daddy”

Ainda para o podcast, Sarah comenta sobre como essas obras são minimizadas pela mídia, e pela comunidade literária, e tratadas como “uma leitura picante” apenas por conter cenas de sexo: “eu vejo que tem uma tendência das pessoas rolarem os olhos para coisas que trazer alegria às mulheres, especialmente. (…) Sempre que uma mulher escreve algo, mesmo que seja apenas uma pequena pitada de sexo, e que não seja artístico, de repente isso desvaloriza a obra, e não importa o resto do livro”. 

Em outro trecho da entrevista, ela relata que muitas fãs da série conversam com ela sobre como a história as ajudou em muitas aspectos de suas vidas, inclusive a identificar e sair de relacionamentos abusivos, e que, no fim, escreve os livros para algo muito maior do que as cenas de sexo, apesar de se divertir criando-as também. 

Apesar dos preconceitos que a romantasia enfrenta no mundo literário — ser rotulada como uma leitura exclusiva para o público feminino, ou que serve apenas como um escapismo da realidade e, portanto, não se enquadra em uma leitura séria — as sagas lançadas continuam mostrando que o subgênero abrange assuntos maiores e mais profundos que refletem a nossa realidade e nos permitem analisar, de maneira criativa, a sociedade na qual vivemos. 

Durante o podcast, Sarah anunciou mais três livros da saga Acotar. Os dois primeiros já possuem data de lançamento,  sendo para o dia 27 de outubro deste ano, e o segundo com previsão para 12 de janeiro de 2027. Ainda não há informações sobre o terceiro, assim como sinopse ou títulos dos livros.