Ao longo dos anos, o cinema presenteou o público com diversas sagas de fantasia e aventura voltadas aos jovens que ajudaram a moldar o imaginário de toda uma geração. Franquias como Harry Potter, Percy Jackson, Crepúsculo, Jogos Vorazes, Maze Runner, Divergente e As Crônicas de Nárnia transformaram salas de cinema em portais para outros mundos, enquanto universos mais amplos e intergeracionais — como Star Wars e O Senhor dos Anéis — consolidaram o poder das narrativas seriadas na cultura pop. Esses filmes não apenas conquistaram bilheterias: eles construíram comunidades apaixonadas de fãs que cresceram desejando fazer parte desses mundos.

Foi nesse contexto, em meados da década de 2010, que surgiu Dezesseis Luas (Beautiful Creatures), um filme que chegou aos cinemas com a ambição de inaugurar a próxima grande saga teen de fantasia. A adaptação trazia todos os elementos que pareciam promissores para isso: um universo sobrenatural próprio, personagens interessantes, uma identidade estética marcante e nomes de peso no elenco. 

Poster promocional do filme Dezesseis Luas (2013)

No entanto, o retorno de bilheteria ficou abaixo do esperado e a franquia nunca ganhou as continuações dos livros (Dezessete, Dezoito e Dezenove Luas). Ainda assim, o filme permanece como uma obra que apresentava um mundo com grande potencial de expansão e que merecia um reconhecimento maior do que recebeu na época.

Dezesseis Luas (Beautiful Creatures) é um filme americano de fantasia romântica lançado em 2013, com roteiro e direção de Richard LaGravenese. A produção é baseada no romance jovem-adulto homônimo publicado em 2009 por Kami Garcia e Margaret Stohl, primeiro volume da série literária Caster Chronicles. Segundo as autoras — para a revista Gizmodo em 2013 — a história foi escrita em apenas doze semanas, motivada por uma aposta com um grupo de sete jovens que elas conheciam — e, inicialmente, nem sequer havia a intenção de publicação. 

Na recepção crítica do livro Beautiful Creatures, a resposta foi majoritariamente positiva, com elogios à construção de mundo, ao tom narrativo e ao potencial de envolvimento com o público jovem, ainda que algumas ressalvas tenham sido feitas quanto ao ritmo. A Kirkus Reviews destacou a voz narrativa de Ethan, descrevendo-a como espirituosa e envolvente, capaz de dialogar tanto com leitores de John Green quanto com fãs de romances sobrenaturais em busca de uma nova saga para acompanhar. A Booklist também avaliou a obra de forma favorável, ressaltando a combinação de elementos que costumam atrair o público teen — romance, magia, assombrações e a promessa de continuidade na série.

A trama de Dezesseis Luas acompanha Ethan Wate (Alden Ehrenreich), um jovem de 16 anos que vive na pequena e conservadora cidade de Gatlin, na Carolina do Sul. Incomodado com a rotina e sonhando em deixar o lugar, ele passa a ter pesadelos recorrentes com uma garota misteriosa — que logo descobre existir de verdade: Lena Duchannes (Alice Englert), recém-chegada à cidade e sobrinha do recluso Macon Ravenwood, figura cercada de boatos e medo pela população local. Hostilizada pelos colegas e pela comunidade, Lena se aproxima de Ethan, e os dois desenvolvem uma conexão intensa, apesar da pressão externa para que fiquem afastados.

Com o avanço da relação, Ethan descobre que Lena pertence a uma família de Conjuradores — seres com poderes mágicos — e que, ao completar 16 anos, será “reivindicada” pela Luz ou pelas Trevas, sem poder de escolha, o que a apavora. 

Alden Ehrenreich e Alice Englert em cena do filme Dezesseis Luas (2013)

Parte do desempenho abaixo do esperado de Dezesseis Luas nas bilheterias costuma ser atribuída ao contexto em que o filme foi lançado — especialmente à sombra de Crepúsculo, que havia dominado o mercado de fantasia romântica poucos anos antes. Na tentativa de repetir o fenômeno, a Warner Bros. posicionou Beautiful Creatures como uma concorrente direta da saga dos vampiros. A estratégia, porém, teve efeito ambíguo. Segundo o analista de bilheteria Jeff Bock, em declaração à E! News, a abordagem acabou gerando resistência: “De fato, irritou os fãs de Crepúsculo, que defendem veementemente seu precioso território cinematográfico”.

Com isso, criou-se um cenário curioso: parte do público fiel a Crepúsculo não demonstrou interesse em “dar uma chance” ao novo título por lealdade à franquia favorita, enquanto espectadores que não gostavam de Crepúsculo evitaram o filme por presumirem que se tratava de uma imitação direta. O resultado foi um bloqueio duplo de audiência antes mesmo da experiência com a obra em si. 

Porém Dezesseis Luas apresenta diferenças significativas em tom, mitologia e dinâmica de personagens. A história incorpora qualidades frequentemente elogiadas em outras sagas, mas mantendo uma identidade própria, e traz mudanças em pontos negativos que eram comentados em obras do gênero. 

Em entrevista concedida ao Tribute Movies, em 2013, o ator Alden Ehrenreich comentou sobre as qualidades que tornaram Dezesseis Luas um projeto singular dentro do gênero. Segundo ele, o roteiro foi o principal fator que o convenceu a integrar o filme, justamente por apresentar uma abordagem incomum e mais sensível do que as produções adolescentes tradicionais.

Alice e eu estávamos relutantes em fazer o filme no começo. Antes mesmo de ler o roteiro, nós dois dissemos que não queríamos fazer o teste, porque só tínhamos recebido uma descrição geral de que era esse tipo de filme de gênero. Mas, para mim, quando li o roteiro, em apenas duas páginas, eu soube que queria fazer parte, porque ficou claro que era uma história única, com identidade própria. Nós dois estávamos na mesma sintonia de tentar fazer a versão mais incomum, fora do convencional e mais inteligente possível desse tipo de história.

Direção de arte e proposta estética

Um dos elementos que mais prendeu o público nas grandes sagas teen de fantasia, além da história e dos personagens, foi a estética — o universo visual cuidadosamente construído que transmitia sensação de pertencimento, conforto e identidade. Em franquias como Crepúsculo e Harry Potter, a direção de arte, a paleta de cores, os figurinos e os cenários ajudavam a transformar aqueles mundos em espaços reconhecíveis e emocionalmente habitáveis para o espectador. Não era apenas sobre acompanhar uma trama — era sobre querer viver naquele ambiente.

Dentro dessa lógica, Dezesseis Luas também apresentava uma identidade estética bastante consolidada. O filme investe numa atmosfera de bruxaria sulista, cidade pequena e tradição ancestral, combinada com uma pegada levemente gótica, porém acolhedora. Casas antigas, bibliotecas, florestas, símbolos mágicos e contrastes de luz e sombra constroem uma ambientação que dialogava diretamente com tendências visuais muito presentes no início dos anos 2010.

A direção de arte assinada por Lorin Flemming é, sem dúvida, um dos aspectos mais interessantes de Dezesseis Luas. Mesmo ambientado em um cenário contemporâneo, o longa utiliza, em momentos-chave da narrativa, figurinos e cenários marcantes, teatrais e elaborados, que reforçam o caráter mágico e ancestral daquele universo. Essa escolha visual cria um contraste intencional entre o cotidiano da pequena cidade e o mundo dos Conjuradores, elevando a atmosfera fantástica sem romper completamente com a sensação de realidade. 

Emmy Rossum em cena do filme Dezesseis Luas (2013)

Os personagens principais: Lena e Ethan

Alden Ehrenreich e Alice Englert em cena do filme Dezesseis Luas (2013)

Um dos pontos mais interessantes de Dezesseis Luas está justamente na dinâmica entre Lena e Ethan. Ao traçar um paralelo com outras narrativas sobrenaturais populares da época, como Crepúsculo, Teen Wolf e The Vampire Diaries, percebe-se uma inversão narrativa relevante: diferente dessas obras, o elemento fantástico não está no homem da relação, mas na mulher. Lena é quem carrega os poderes, o peso do destino e a complexidade mística da história, sendo a figura sobrenatural, poderosa e central do conflito.

Alden Ehrenreich e Alice Englert em cena do filme Dezesseis Luas (2013)

Ethan, por outro lado, é apenas um adolescente comum que se vê gradualmente inserido nesse universo mágico. Em vez de ser o “protetor” ou a figura dominante da narrativa fantástica, ele ocupa um papel de observador, alguém que precisa compreender, acompanhar e se adaptar à realidade de Lena. Ao longo do filme, sua trajetória passa a girar em torno dela: ele investiga seu passado, enfrenta as consequências do mundo dos Conjuradores e aceita que sua própria vida é transformada a partir do momento em que Lena entra nela. Essa dinâmica desloca o eixo tradicional do romance sobrenatural da época e confere à relação um tom mais equilibrado e emocionalmente centrado na jornada da protagonista.

Em uma entrevista para a Open Letters Monthly, Alden Ehrenreich comentou sobre a dinâmica entre Ethan e Lena em Dezesseis Luas, destacando como a história se diferencia das demais obras do gênero fantasia jovem-adulto. Quando questionado sobre a relação de casal no contexto da narrativa, Alden apontou sobre como a masculinidade é abordada em outras histórias:

Eu realmente não sei muito sobre esse gênero, mas as autoras estão muito envolvidos nisso, e elas disseram que, nesses livros de jovens adultos, os garotos eram sempre aqueles tipos frios, distantes, impenetráveis, um pouco babacas com as garotas, e as garotas sempre ficavam intimidadas. Então, elas queriam escrever uma história que tivesse um personagem masculino que fosse educado, literato, um cara legal, basicamente. Foi escrito para as garotas que olham essas histórias como modelos para os tipos de namorados que elas desejam.

Um dos aspectos mais cativantes da relação entre Ethan e Lena é a forma como ele assume esse lugar do namorado bem-humorado, que usa o humor e a espontaneidade como forma de suavizar os momentos difíceis e arrancar sorrisos de Lena. Sua disposição em fazer brincadeiras, provocar risadas e transformar situações tensas em algo mais suportável revela não apenas sua personalidade, mas também seu cuidado genuíno. Ethan busca confortá-la emocionalmente, mostrando que está disposto a fazer o que for necessário para vê-la bem.

Lena Duchannes

Alice Englert em cena do filme Dezesseis Luas (2013)

Lena se destaca como uma protagonista forte e decidida, cuja presença sustenta o eixo emocional da narrativa. Seu temperamento é intenso, e ela não hesita em reagir quando tentam diminuí-la ou fazê-la sentir-se deslocada. Essa postura revela uma personagem consciente de seu próprio valor, que se recusa a aceitar passivamente o julgamento ou a hostilidade ao seu redor. Ao mesmo tempo, essa força não a torna fria. Lena é profundamente gentil e leal, especialmente com aqueles que conquistam sua confiança.

Sua coragem é uma de suas características mais marcantes. Mesmo diante do medo e das incertezas que cercam seu destino, ela demonstra maturidade emocional e clareza ao tomar decisões difíceis. Lena também se destaca por sua inteligência e sensibilidade, compreendendo as consequências de suas escolhas e, quando necessário, colocando o bem das pessoas que ama acima de seus próprios desejos. 

Ethan Wate 

Alden Ehrenreich em cena do filme Dezesseis Luas (2013)

Ethan é um protagonista carismático, cuja personalidade extrovertida e bem-humorada equilibra os tons mais sombrios da narrativa. Ele utiliza o humor e a ironia como forma de se posicionar no mundo, frequentemente recorrendo a piadas e comentários. Ao mesmo tempo, Ethan é profundamente reflexivo, alguém que encontra nos livros uma forma de compreender a si mesmo e o ambiente ao seu redor. Seu desejo constante por algo além do que conhece reflete sua inquietação com a vida em uma cidade pequena, que ele enxerga como limitada e previsível.

Esse desejo pelo diferente é justamente o que o aproxima de Lena. Enquanto muitos a rejeitam, Ethan é atraído por sua singularidade. Ele não busca o que é comum ou confortável, mas aquilo que desafia sua visão de mundo. Ethan também se destaca por sua lealdade e instinto protetor. Ele demonstra um comprometimento genuíno com as pessoas que ama, especialmente Lena, por quem está disposto a enfrentar incertezas e transformar sua própria vida. Sua capacidade de se adaptar e de priorizar o bem-estar dela evidencia sua maturidade emocional. Dentro do contexto das sagas adolescentes da época, Ethan se consolida como um par romântico consistente e presente — não como um herói idealizado, mas como alguém que escolhe, continuamente, permanecer ao lado de quem ama.

Em uma entrevista para o Collider em 2012, a atriz Alice Englert falou sobre a relação entre Ethan e Lena, destacando o que torna a história de amor deles única e profunda. Para Alice, o que torna a dinâmica entre os dois tão especial não é a típica ideia de “precisar” de um namorado ou namorada, mas sim a verdadeira essência do amor e do sacrifício.

O que eu acho ótimo sobre a história de amor deles é que não se trata de, ‘Ah, você precisa de uma namorada. Ah, você precisa de um namorado.’ Na verdade, é sobre o amor, o sacrifício, amar alguém e ter que deixá-los ir por diferentes razões.

Elenco de peso

Outro ponto forte de Dezesseis Luas é, sem dúvida, o seu elenco de peso. Já em seu primeiro filme, a produção reuniu nomes consagrados da indústria, conferindo mais densidade dramática e prestígio à narrativa. Começando pela icônica Viola Davis, que interpreta Amma, a mulher que ajudou a criar Ethan desde a infância, assumindo quase o papel de mãe em sua vida. Amma é sua principal figura de conforto e estabilidade emocional, mas a personagem vai muito além do arquétipo da cuidadora: ao longo da história, descobrimos que ela é uma vidente — alguém capaz de prever o futuro, se comunicar com espíritos e ler cartas de Tarô. Trata-se de uma personagem rica, misteriosa e fundamental para a mitologia do filme, elevada por uma atuação sensível e imponente de Davis.

Como antagonista, o filme conta com ninguém menos que Emma Thompson no papel de Serafine, a mãe de Lena. A vilã apresenta como debochada, irônica e até carismática, trazendo uma presença magnética sempre que surge em cena. O elenco ainda inclui Jeremy Irons como Macon Ravenwood, o tio rabugento de Lena e sua principal figura paterna, cuja postura enigmática e protetora reforça o tom gótico e ancestral do universo dos Conjuradores.

A presença de um elenco tão experiente logo no primeiro capítulo da história apenas intensifica a sensação de potencial interrompido: havia espaço para que esses personagens se desenvolvessem ainda mais ao longo de uma saga, explorando novas camadas emocionais e mitológicas que poderiam crescer junto com o próprio universo da narrativa.

Personagens clássicos que compõem o universo 

Poster do filme Dezesseis Luas (2013)

Além de seus protagonistas interessantes, Dezesseis Luas também constrói seu universo a partir de arquétipos clássicos das narrativas adolescentes da época. Esses personagens ajudam a estruturar o mundo ao redor da história e reforçam sua identidade dentro do gênero. Link (Thomas Mann), o melhor amigo de Ethan, cumpre o papel do alívio cômico, com sua personalidade leal e bem-humorada. Ridley (Emmy Rossum), prima de Lena, representa a figura confiante da “it girl”, marcada por sua atitude provocadora e presença dominante.

A narrativa também se apoia em figuras paternais centrais, como Amma e Macon, que funcionam como guias e guardiões, oferecendo proteção e sabedoria diante das forças que cercam Lena e Ethan. Em paralelo, personagens como a avó e a tia de Lena ampliam essa rede familiar e reforçam o peso da herança e da tradição em sua trajetória. Por fim, Sarafine, mãe de Lena, incorpora o arquétipo da vilã estilosa e provocadora, cuja presença combina ameaça e fascínio, intensificando o conflito central da história.

Dezesseis Luas tinha todos os ingredientes para se tornar a próxima grande saga teen de filmes, mas, infelizmente, não foi valorizada como deveria. Com uma estética própria e distinta, a produção se destacou no gênero por seus personagens inteligentes, que ofereciam uma dinâmica de relacionamento profunda e bem desenvolvida. O elenco, composto por atores com grandes carreiras, trouxe riqueza aos protagonistas, tornando a história ainda mais envolvente. Com uma trama envolvente, Dezesseis Luas possuía um grande potencial que, se mais bem explorado, poderia ter se consolidado como uma das maiores franquias teen da época.