Criar uma série ou filme sobre uma figura histórica é um trabalho delicado que requer muita atenção e muita pesquisa. E o problema se complica ainda mais quando a pessoa retratada era conhecida por ser extremamente reclusa e por ter pouca informação a seu respeito, como é o caso da poetisa Emily Dickinson, protagonista da série Dickinson da Apple TV e interpretada pela brilhante Hailee Steinfeld. 

Planejada em três temporadas, a série se destacou aos olhos do público por retratar uma importante figura da literatura americana de maneira contemporânea e criativa, fugindo das biografias de época normalmente criadas. Desta forma, Dickinson traz um novo olhar à vida da poetisa por meio dos sentimentos que ela expressa em suas obras, ao invés de contá-la a partir de sua vida pouco registrada, fazendo jus a história de uma mulher que era conhecida por ter ideias muito à frente de seu tempo e que terminou sua vida sem ter se casado.

Hailee Steinfeld como Emily Dickinson

Mas quem é Emily Dickinson?

Emily Dickinson ficou conhecida por ser uma das maiores referências da poesia norte-americana. Seus poemas, intensos e íntimos, abordavam temas como a morte e imortalidade, natureza, amor, desejo e tantos outros profundamente humanos e complexos. Seu tom provocador e suas frases pausadas refletiam a mente que pensava além do seu tempo, questionando a vida e o papel da mulher na sociedade do século XIX.

Nascida na cidade de Amherst, Massachusetts, em 1830, Emily era a filha do meio de uma conceituada família com fortes laços na comunidade religiosa. Seu pai, Edward Dickinson, foi um advogado de grande prestígio no estado, e sua mãe, Emily (Norcross) Dickinson, foi constantemente representada como uma esposa leal e devota, embora o site Poetry Foundation conte que ela era “uma jovem dedicada aos estudos, particularmente na ciência.”

Emily Dickinson para retrato na escola

Emily cresceu ao lado de seus irmãos, William Austin Dickinson, o mais velho, e Lavínia “Vinnie” Norcross Dickinson, a caçula, que desempenharam fortes papéis na vida e na morte da poetisa; principalmente Lavínia, que foi a responsável por entregar a editoras os poemas da irmã após seu falecimento em 1980.

A família Dickinson, por conta de seu status afortunado e sua influência positiva na comunidade, pode proporcionar uma educação de qualidade aos filhos, o que impactou diretamente a vida de Emily e seus poemas, que frequentemente apresentavam descrições meticulosas de flores e plantas e observações críticas a respeito do método científico. Além disso, despertou o interesse dela em jardinagem, que virou um de seus principais passatempos. 

A vida acadêmica também trouxe a Emily muitas ideias e novas percepções a respeito da sociedade na qual vivia. Após concluir a escola e cursar por um ano a Mount Holyoke Female Seminary (o nível final de educação para mulheres), ela retornou para a casa dos pais e começou os afazeres domésticos diários esperados de uma jovem dama pronta para se casar.

Em diversas cartas que escrevia para colegas, Emily demonstra seu descontentamento com a possibilidade de tornar-se uma esposa, a julgar pelo comportamento de sua mãe – que se anulava para acompanhar o marido na vida em sociedade – e por suas próprias tarefas em casa que eram ignoradas ou subestimadas. 

Outro ponto de rebeldia explicitamente declarado por Emily foi a respeito da religião. Na época de sua juventude, a cidade de Amherst vivia um forte renascimento religioso que marcou profundamente a família Dickinson. Todos os membros se juntaram à igreja em algum momento, exceto Emily, que em uma carta para uma de suas amigas, Jane Humphrey, desabafa: “Estou sozinha nessa rebelião”. No entanto, por mais que se recusasse a se encaixar nos padrões religiosos da família, a jovem tinha grande proximidade com a bíblia, que é frequentemente citada e referenciada em suas obras. 

Além dos poemas, Emily Dickinson também ficou marcada pela vida reclusa que viveu, oferecendo pouca informação aos pesquisadores após sua morte. Grande parte dos fatos que conseguiram recolher foi por meio das cartas que a poetisa trocava com seus amigos e conhecidos; e nessas correspondências, ficou claro que mesmo em algo tão informal como um relato sobre sua vida, ela despejava toda sua intensidade e devaneios. Um exemplo está neste trecho de uma das inúmeras cartas enviadas a sua amiga mais próxima e futura cunhada, Susan “Sue” Gilbert:

“(…) tento lhe trazer para perto, eu persigo as semanas afora até que elas tenham partido, e imagino sua chegada, e estou a caminho pela trilha verde para lhe encontrar, e meu coração a tamanho galope que terei problemas para trazê-lo de volta, e o ensino a ser paciente, até que a Querida Susie chegue. Três semanas.”

Essa reclusão de Emily se tornou mais intensa conforme os anos se passaram. De início, não gostava de participar das visitas que aconteciam em sua casa, depois, quando entendeu que sua existência girava em torno da poesia, passou grande parte de seus dias dentro de seu quarto apenas escrevendo. Esse período é marcado como o de maior produção dela, como informado no site Emily Dickinson Museum, e também de muitas mudanças, como a eclosão da Guerra Civil americana.

Emily e Susan

Uma das grandes dúvidas em relação a vida de Emily Dickinson são seus relacionamentos amorosos, que não passam de grandes suposições já que ela faleceu sem ter se casado ou sequer ficado publicamente noiva. 

Com base em suas cartas, existem muitas especulações de pretendentes homens, como Benjamin Newton — um estudante de direito que ela credita como responsável por lhe mostrar novas leituras e autores para admirar — e George Gould — amigo de Austin e um possível noivo de Emily por um curto período de tempo. Contudo, a maior dúvida reside na relação entre a poetisa e sua cunhada Sue Gilbert.

Susan Dickinson | Imagem: Museu Emily Dickinson

Apesar de Sue ter se casado com Austin, irmão mais velho de Emily, em 1856, é comprovado por cartas trocadas entre elas que o contato das duas vinha desde muito antes. Além das cartas, foi descoberto que Emily compartilhou com a amiga mais de 250 poemas, algo que ela raramente fazia, ainda mais com tanta frequência.

Sue é considerada, por muitos historiadores, uma escritora/poeta, e, por ter essa natureza mais próxima da escrita e da criação, tinha trocas significativas com Emily a respeito de seus poemas. Esse era um dos grandes fatores de conexão entre as duas, já que a poetisa via na amiga e cunhada uma extensão de si mesma e seu alter ego. Em uma das cartas, Emily declara à Sue: “Com exceção de Shakespeare, você me contou mais sobre conhecimento do que qualquer outra pessoa viva. Dizer isso sinceramente é um elogio estranho”.

A reclusão de Emily Dickinson ao longo de seus anos se entrelaça com períodos de estranhamento entre as duas. Não existe uma explicação clara sobre as fases em que se afastaram ou pouco se falavam, mas especula-se que as diferenças a respeito da religião foram um dos motivos, uma vez que Sue também se tornou membro da igreja junto com a família de seu marido. Outro ponto que fomenta o isolamento de Emily foi o papel de esposa que Sue passou a desempenhar mais assiduamente, recebendo visitas em sua casa, dando festas e, anos mais tarde, se tornando mãe de três crianças.

É pressuposto que essas diferenças criaram um distanciamento entre as duas, porém, elas mantiveram contato até o final da vida de Emily. De acordo com o Museu Emily Dickinson, Sue foi quem escreveu o obituário da amiga, publicado no jornal Springfield Republican, e também teria editado os poemas de Emily, se Lavínia não tivesse se irritado com a demora da cunhada.

Hailee Steinfeld (Emily Dickinson) e Ella Hunt (Sue Gilbert/Dickinson) em foto de divulgação para a série Dickinson

Apesar de tantos materiais comprovando a conexão próxima que ambas possuíam, nunca foi confirmado se a relação delas passou a ser algo além de pura amizade. Conforme muitos pesquisadores, as trocas de afetos entre mulheres no século XIX costumava ser mais explícito, mesmo sem indicar ligações amorosas, como esclarece a Revista Continente: “como destaca a poeta Adrienne Rich, o vínculo entre mulheres nesse período podia ser carregado de proximidade intelectual e física, mas de uma forma distinta do que hoje compreendemos como afetividade lésbica”. Desta forma, o contato de Sue e Emily permanece até hoje apenas no imaginário de muitas pessoas.

Dickinson, por Alena Smith

Tendo como narrativa principal a história de uma poeta que quase não se tem informações concretas sobre sua vida, não fica difícil imaginar que a ficção viajou além de suas fronteiras para a criação da série Dickinson, escrita por Alena Smith – que também assinou a direção do último episódio da temporada final – e com produção da atriz Hailee Steinfeld, que dá vida a Emily nas telas.

A série foi lançada em 2019 e finalizada em 2021, contando com três temporadas bem planejadas no streaming Apple TV, que recebeu uma resposta positiva do público logo de início, apesar de não ter se saído tão bem nas temporadas de premiações.

Um dos grandes atrativos de Dickinson, e o que coloca a série em outro patamar de obras biográficas, é a brincadeira escancarada com o anacronismo – um erro cronológico ao situar pessoas, fatos e ideias em um período diferente do original. Essa dinâmica, que permite os personagens falarem em uma linguagem moderna, dançarem músicas atuais e, principalmente, encontrarem figuras importantes da história que não pertenciam à época retratada, transformou toda a narrativa de Emily Dickinson, permitindo uma interpretação criativa sobre sua existência e seus poemas.

Hailee Steinfeld como Emily Dickinson

No mini documentário sobre a série, lançado em 2022, Alena comenta que provavelmente os jovens hoje na escola estão estudando uma versão bem diferente da Emily Dickinson que ela criou para as telas, “uma [versão] que é de fato mais próxima da que estudiosos e historiadores, que estudaram ela esse tempo todo, já disseram”. Em outro momento da produção, a atriz Anna Baryshnikov, que interpreta Lavínia “Vinnie”, acrescenta: “Alena construiu esse show envolta de uma mistura de seu senso de humor, seu conhecimento histórico sobre Emily Dickinson e sua visão sobre o mundo contemporâneo. Uma combinação selvagem de coisas”. 

Dickinson se passa durante um específico período da juventude de Emily – uma aspirante poetisa descobrindo seu lugar no mundo. Cada uma das três temporadas aprofunda ainda mais o cerne das relações entre os personagens e a intensidade de Emily em relação à poesia, que ela entende ser sua única fonte de vida e salvação. 

Toby Huss (Edward Dickinson), Adrian Enscoe (Austin Dickinson), Ella Hunt (Sue Gilbert), Hailee Steinfeld (Emily Dickinson), Anna Baryshnikov (Lavínia Dickinson) e Jane Krakowski (Emily Norcross) | Imagem: Divulgação

Os poemas de Emily são o grande ponto central dos episódios, onde conseguimos ver cada estrofe se formando na mente da jovem enquanto ela sobrevive a seus intensos sentimentos em relação a vida. Contudo, o interessante da série não é a tentativa de mostrar como determinado poema foi criado, mas sim permitir ao espectador vivenciar e experimentar as palavras de Emily de maneira única. Alena não tenta explicar ou datar nada durante as temporadas, apenas abrir espaço para que o público sinta as impressões de Dickinson a respeito do seu mundo.

Um dos exemplos é o episódio onde Emily tem a oportunidade de publicar um de seus poemas e, ao fazê-lo, se vê invisível vagando pela cidade de Amherst ouvindo os comentários sobre sua obra e observações a respeito de sua própria identidade. Isso causa um conflito em Emily ao perceber que a fama que tanto busca não traz o reconhecimento que esperava, apenas a afasta mais da fantasia de que seus poemas podem salvar o mundo. E todo esse embate se baseia na criação do conhecido verso: “Eu sou ninguém! Quem é você?”, que a série também relaciona com a recrutamento de jovens para a Guerra Civil que despontou nos Estados Unidos. 

Outro ponto que a série se permitiu tomar como sua verdade foi a relação de Emily e Sue (Ella Hunt), que é um dos pontos centrais da vida da protagonista. O envolvimento das duas se aprofunda e se intensifica conforme cada temporada, o que também traz grande foco para a atriz Ella Hunt e a própria Sue, que se vê cada vez mais imersa na conflitante vida de casada no século XIX.

Ella Hunt (Sue Gilbert), Hailee Steinfeld (Emily Dickinson)

Por mais que Dickinson consiga traduzir a intensidade de Emily sem dificuldade, a série consegue equilibrar a explosão de sentimentos com uma comédia muito bem calculada. Um dos pontos altos  é quando Emily e Lavínia viajam para o futuro e encontram a poetisa Sylvia Plath, interpretada pela comediante Chloe Fineman, que conta para as irmãs como Emily é vista pelas pessoas no futuro: “Tem esse livro, que foi publicado anos atrás, que causou um grande escândalo. (…) Porque nesse livro o autor diz que Emily Dickinson era lésbica!”, ao que Lavínia responde: “Não, ela era americana”. 

Fica claro que, desde o início, Dickinson não pretende ser uma biografia fiel e precisa da poetisa, muito pelo contrário. A produção tenta trazer vida às obras e significado para a existência de Emily, permitindo que o espectador possa sentir e viajar com criatividade e conhecer novos formatos de narrativa. Como expressa o ator Adrian Enscoe, intérprete de Austin Dickinson, no minidocumentário: “Eu não consigo agradecer a Alena o suficiente por retratar esses personagens de uma maneira tão vibrante”. 

A parceria de Alena e Hailee, na criação de Emily para a TV, mostrou ainda mais a força da narrativa feminina criada por mulheres, onde descaracterizam uma importante figura para formar uma pessoa viva com sentimentos, falhas e que pode construir sua própria história. Dickinson tira a poetisa do pedestal para deixar ela correr livremente pela tela sendo a mulher que conseguiu registrar sua essência em tinta em papel, permitindo que outros futuramente pudessem se conectar com suas palavras e sentir o mesmo que ela sem medo.