Por trás de hits virais no TikTok, de composições refinadas que já foram destinadas a nomes como Beyoncé, Charli XCX, Lisa (BLACKPINK), e do feito histórico de se tornar a primeira artista a conquistar seis BRIT Awards em uma única noite, existe uma garota que domina, acima de tudo, a arte de transformar sentimentos em música. Raye, como é conhecida pelo público e pela mídia, é também Rachel, nome que ainda vive no ambiente íntimo de sua família e amigos. A mesma menina que, aos sete anos, escreveu sua primeira canção após se comover com a injustiça de ver alguém em situação de rua e que já demonstrava ali uma sensibilidade rara e uma urgência criativa que moldariam toda a sua trajetória.

Canalizar emoções e convertê-las em arte sempre esteve em sua essência. Filha de um produtor musical e compositor, que conheceu sua mãe na igreja onde ela cantava no coral, Raye cresceu cercada por música. Hoje, esse núcleo familiar não apenas permanece próximo, como integra sua equipe profissional — um detalhe que ganha ainda mais significado ao considerarmos que, desde 2021, ela trilha o caminho da independência artística. Sua decisão de deixar a gravadora com a qual iniciou a carreira não foi impulsiva, mas inevitável: a dificuldade de se encaixar em padrões impostos e em uma estrutura que limitava sua expressão criativa se tornou insustentável. Afinal, sua relação com a indústria começou cedo demais.

Os limites da indústria e o rompimento necessário  

Aos 14 anos, Raye conheceu seu primeiro empresário e, desde então, não hesita em expor como a indústria musical pode ser um ambiente perigoso, especialmente para jovens artistas. Sua infância e adolescência foram marcadas por traumas profundos, incluindo episódios de assédio sexual, transtornos alimentares e vícios. Aos 16, deixou a prestigiada BRIT School — instituição por onde passaram nomes como Amy Winehouse, Adele e Olivia Dean, que frequentou a escola ao mesmo tempo de Raye, possibilitando as duas de se conhecerem  antes mesmo de estarem entre os nomes de destaque na indústria musical nos últimos tempos  — para se dedicar integralmente à carreira. Foi nesse momento que se viu inserida em contratos e relações profissionais que, muitas vezes, exploravam sua juventude e ingenuidade, abafando suas verdadeiras vontades artísticas e mergulhando-a em um período obscuro e doloroso.

Ela mesma relata que, em determinado ponto, havia desistido de si. O álcool e as drogas surgiram como anestesia para a dor de não poder ser quem era, nem criar o que desejava. E o que ela queria era simples, ou ao menos parecia: escrever um álbum. Durante anos, seu talento brilhou nos bastidores com seu nome creditado como compositora de grandes sucessos e sua voz presente em faixas vocais de músicas que não eram dela. Até que, em junho de 2021, um tweet mudou tudo. “Estou farta de ser uma popstar educada. Eu quero gravar o meu álbum agora. Por favor, isso é tudo o que eu quero.” ela escreveu em seu perfil na plataforma. 

Um ano e meio depois, nascia My 21st Century Blues. Sem gravadora, sem concessões e, como a própria artista afirma, sem qualquer chance de aprovação dentro de uma estrutura tradicional. Livre, Raye explorou gêneros como R&B, jazz e soul, entregando letras densas, cruas e profundamente pessoais. O álbum não apenas marcou sua estreia oficial como artista completa, mas também lhe rendeu seu primeiro grande hit: “Escapism”, que alcançou o topo das paradas no Reino Unido. Em 2024, a consagração veio em forma de seis estatuetas no BRIT Awards. E, naquela noite histórica, Raye fez uma escolha simbólica: abriu sua apresentação não com seu maior sucesso, mas com “Ice Cream Man”, uma das músicas mais dolorosas de seu repertório, na qual revisita experiências traumáticas de assédio sexual, incluindo um episódio ocorrido quando tinha apenas 17 anos e causada por um produtor musical. Em entrevista à revista Elle, descreveu o momento como catártico: cantar aquela letra diante de figuras da indústria foi, para ela, um ato de poder.

O Amor Próprio como Força: 

Raye via Instagram

O poder do amor próprio se torna o eixo central de sua nova fase. Em seu último álbum,This Music May Contain Hope, lançado em 27 de março de 2026, Raye se debruça sobre a esperança,  mas não de forma ingênua. O álbum reflete suas dores, seus processos e, principalmente, sua reconstrução. 

Dividido em quatro partes, correspondentes às estações do ano, o projeto se inicia no “Outono”, com uma introdução de pouco mais de um minuto que estabelece uma atmosfera quase cinematográfica, em que Raye narra uma noite na vida de uma mulher, que é ninguém menos do que a própria. Em entrevista para Zane Lowe no programa da Apple Music, a cantora discorre sobre a semelhança entre sua vida e o álbum. Mais sóbria do que nunca durante o processo criativo, Raye revela ter se encontrado de maneira mais profunda nas próprias letras.

Nessa primeira seção, ela critica uma lógica social imediatista: a ideia de que o amor romântico ou pequenos escapes podem resolver tudo. Para ela, a verdadeira transformação veio do encontro com o amor próprio. “Eu preciso me encontrar primeiro. Eu não quero que ninguém venha para me consertar”, disse à Elle, ao abordar também seu desejo de, no futuro, construir uma família e encontrar um amor — tema presente na faixa “Where Is My Husband!”, que chegou ao topo das paradas britânicas. Em entrevista à NPR, destacou como mulheres frequentemente são julgadas por expressarem seus desejos com intensidade, como ela faz na música, mas reforçou estar em um momento da vida em que deseja, sim, compartilhar sua trajetória com alguém.

Entre Influências e Comparações: 

Ainda dentro dessa primeira sessão do álbum, já na segunda faixa, um trecho da letra chama atenção.

E é engraçado, algumas pessoas dizem que eu as faço lembrar da Amy

And it’s funny, some people say I remind them of Amy

Outras cospem pelos teclados que eu nunca serei nada

Some spit through their keyboards I’ll never amount

E a maldade nos insultos, as flechas das suas línguas

And the evil in insults, the arrows from your tongue

(Trecho da música I Will Overcome de Raye)

Nesse trecho, Raye menciona as fortes comparações que recebe tanto da mídia quanto dos fãs entre ela e sua conterrânea Amy Winehouse. Fortemente influenciadas por cantoras como: Ella Fitzgerald, Dinah Washington e Sarah Vaughan, as semelhanças entre a sonoridade das duas são justificáveis. No entanto, os comentários que normalmente vêm acompanhados das comparações, são cercados de agressividade e provocação, instigando a rivalidade feminina que é sempre tão comum no universo pop. No trecho “Outras cospem pelos teclados que nunca serei nada”, Raye faz referência direta ao tipo de comentário que costuma receber ao ser comparada com Amy, os quais não apenas colocam lado a lado a sonoridade e a trajetória de ambas, mas também tentam provar que, independentemente das semelhanças, ela jamais alcançará o talento de Winehouse — muitas vezes recorrendo a ofensas e insultos. Ainda assim, Raye reconhece a grandiosidade do legado deixado por Amy, mas, sempre que questionada sobre o tema, propõe uma reflexão importante: provavelmente, se não fossem comentários desse tipo, carregados de ódio, Amy ainda estaria aqui. 

A Voz de Raye

Raye nos bastidores do clipe de Click Clack Symphony

E é entre passado, dor e reconstrução que Raye se reafirma como uma artista em constante expansão. Na sexta faixa de This Music May Contain Hope, ela surpreende ao apresentar uma composição sinfônica em parceria com o compositor e produtor musical Hans Zimmer, mundialmente conhecido por seus trabalhos em trilhas sonoras de filmes como “Interestelar” e “O Rei Leão”. Zimmer representa uma escolha ousada e inovadora. Os dois se conheceram ao colaborar em uma música para a série documental da BBC “Planeta Terra III” de 2023 e, ao começar a trabalhar em seu último álbum, a artista sabia que precisaria de um arranjo de orquestra; foi quando teve a ideia de mandar uma mensagem para Hans Zimmer. 

Livre das limitações impostas pelas gravadoras, ela abraçou a grandiosidade da ideia: uma música de cinco minutos, com arranjos orquestrais e um monólogo final digno de cinema. Para ela, essa liberdade é ao mesmo tempo uma benção e uma maldição, mas, acima de tudo, é essencial.

Raye constrói sua trajetória como quem se recusa a ser reduzida. Sua arte não se encaixa em fórmulas e, principalmente, não se silencia. Cada verso carrega fragmentos de uma vida que foi, por muito tempo, controlada por outros, mas que agora se reconstrói com autonomia, coragem e verdade. Ao transformar dor em narrativa, e vulnerabilidade em potência, ela não apenas se redefine como artista, mas também amplia os limites do que significa existir dentro da indústria musical contemporânea e independente. 

No fim, o maior triunfo de Raye está na sua capacidade de sobreviver, de se reinventar e de, finalmente, se permitir ser exatamente quem é. Em um cenário que tantas vezes exige máscaras, ela escolheu a honestidade, e é justamente isso que torna sua música tão necessária, tão humana e tão impossível de ignorar.