Interpretar um personagem é, de alguma forma, aprender a enxergar o mundo por outros olhos. Para o ator e cantor Gabriel Vicente, essa experiência não termina quando as cortinas se fecham: cada papel deixa marcas, ensina algo novo e se conecta às histórias que ainda estão por vir. Em entrevista à Revista Histeria, o artista compartilhou reflexões sobre sua trajetória nos palcos, a importância da representatividade e os encontros entre arte e realidade, tudo isso enquanto vive mais um desafio profissional em “PIAF – Eu Não Me Arrependo”.

Após uma temporada em São Paulo, o musical chegou ao Rio de Janeiro em outubro, com Laila Garin no papel da lendária cantora francesa Édith Piaf. Com dramaturgia de Newton Moreno e Alessandro Toller e direção de Sergio Módena, a montagem percorre diferentes momentos da vida da artista, marcada por perdas, amores, dificuldades e uma trajetória de consagração internacional. A produção também reúne canções que atravessaram gerações, como “La Vie en Rose”, “Hymne à l’Amour” e “Non, Je Ne Regrette Rien”.

No espetáculo, Gabriel interpreta diferentes figuras que fizeram parte da vida de Piaf, entre elas Louis Gassion, seu pai, e Jacques Pills e Théo Sarapo, dois homens com quem a cantora viveu relacionamentos amorosos. A experiência permite ao ator acompanhar praticamente toda a trajetória da protagonista por perspectivas distintas: de um pai que começa a reconhecer o talento da filha ao homem que a acompanha no fim da vida. 

Gabriel Vicente e Laila Garin em “Piaf – Não Me Arrependo” | Foto: Caio Gallucci

Ao conversar com a Histeria, Gabriel destacou justamente a riqueza de observar essa história por dois extremos. No início, seu personagem ainda não compreende plenamente a dimensão do talento de Piaf, até presenciar o momento em que ela conquista a atenção do público. Já ao interpretar Théo Sarapo, ele encontra uma mulher que, mesmo diante das fragilidades e dificuldades dos últimos anos, permanece forte e resiliente. Para o ator, transitar entre essas relações torna a experiência especialmente interessante, porque permite testemunhar diferentes versões de uma mesma mulher ao longo do tempo. 

“Acho interessante que eu não tenho um personagem que consiga ter um arco dramático (…), mas a minha trajetória dentro da peça acaba tendo esse arco, porque eu vejo ela nascer e acompanho com outro personagem o fim da vida dela.”, conta.

Essa força também foi um dos aspectos que mais o marcaram na construção dos personagens. Para além da artista consagrada, Gabriel encontrou em Piaf uma mulher cuja história dialoga com questões que continuam urgentes: a humildade, a preocupação com outras pessoas e a disposição de lutar por causas importantes. Em um mundo atravessado por tantas tensões, aproximar-se de uma figura com uma trajetória tão intensa tornou-se também uma oportunidade de refletir sobre os valores que queremos preservar na sociedade. “(…) é importante e potente contar histórias de pessoas como ela, da Piaf, para que a gente tenha lucidez de que momento estamos agora, e de que lado queremos estar”.  

Com uma trajetória que inclui produções como “Cartola – O Mundo é um Moinho”, “A Cor Púrpura”, “Romeu e Julieta – ao Som de Marisa Monte” e “A Pequena Sereia”, Gabriel também enxerga a própria carreira como um processo contínuo de transformação.

Ao falar sobre o que aprendeu ao longo dos anos, o ator recorreu a uma imagem delicada: a de uma tela em branco que vai sendo preenchida por pinceladas. Cada personagem acrescenta uma nova camada à pintura, enquanto os aprendizados de trabalhos anteriores continuam presentes nas experiências seguintes.

É uma maneira de compreender a atuação não como uma sequência de papéis isolados, mas como uma construção em constante movimento. As descobertas feitas em uma montagem podem reaparecer em outra, assim como as experiências acumuladas ao longo da vida ajudam a dar novas dimensões a personagens futuros. No fim, tudo se conecta e o artista também se transforma nesse percurso. “É muito legal perceber que sua tela está tomando forma”, ele acrescenta. 

Essa visão ganha outra dimensão quando Gabriel relembra um dos papéis mais marcantes de sua trajetória: o príncipe Eric, de A Pequena Sereia. Ao interpretar o personagem, ele compreendeu ainda mais profundamente o impacto que a representatividade pode ter sobre quem está assistindo.

A importância daquele momento já era evidente para o ator, mas ganhou um significado especial quando ele viu os olhos das crianças brilhando diante do palco. Para crianças negras, ver um príncipe negro, imaginar-se em uma família real e reconhecer a possibilidade de ocupar aquele lugar significava encontrar uma referência que nem sempre esteve presente nas histórias que consumiram.

Gabriel Vicente como Príncipe Eric | Foto: Divulgação/ Pedro Dimitrow

Entre as lembranças que guarda dessa experiência, Gabriel contou sobre o filho de um colega de elenco que assistiu ao espetáculo e ficou tão encantado com ele que não queria se afastar depois da apresentação. “Eu notei o quão especial era aquilo”, ele conta, “ele não sabia falar o que era, mas o que estava acontecendo ali era identificação, de ele possivelmente só se ver em outros tipos de personagem, e dessa vez ele estava ali, dentro daquele castelo (…)”. Um encontro aparentemente simples, mas que revelou a dimensão afetiva que um personagem pode alcançar fora de cena. 

Mais do que representar um papel, aquele príncipe também se tornou uma possibilidade para outras crianças. E essa é uma das potências do teatro: criar imagens que ampliam o que o público acredita ser possível para si mesmo.

No encerramento da entrevista, a Histeria fez a Gabriel sua pergunta mais especial: qual é a sua histeria do momento?

A pergunta carrega o próprio propósito da revista. Por muito tempo, a palavra “histeria” foi associada às mulheres de maneira pejorativa, como se sentir demais fosse sinônimo de loucura, exagero ou doença. A Histeria nasce da vontade de ressignificar essa ideia e transformar o sentir demais em potência, expressão e possibilidade de mudança.

A resposta de Gabriel trouxe essa proposta para o presente. Em meio às preocupações com o cenário social e político, ele falou sobre o desejo de que as coisas fiquem bem, de que possamos construir uma sociedade melhor, que respeite as mulheres, as minorias e o próximo. Também ressaltou seu compromisso de lutar por esse horizonte e a importância de uma sociedade que valorize a arte. “Que a gente preze pela nossa cultura, pela cultura do nosso país. Pela cultura de um país que é feito por mulher”, ele comenta.

Gabriel Vicente segue construindo sua trajetória entre personagens que deixam marcas e histórias que continuam reverberando depois que as cortinas se fecham. E, enquanto se despede de uma figura para encontrar a próxima, carrega consigo as experiências que o trouxeram até aqui, como pinceladas de uma pintura que ainda está sendo feita.

O musical “PIAF – Eu Não Me Arrependo” está em cartaz no Teatro Riachuelo Rio, no Centro do Rio de Janeiro, com temporada anunciada até 29 de novembro de 2026.