O diretor e coreógrafo Kenny Ortega não é apenas a mente por trás dos filmes de High School Musical (2006-2008), da coreografia de Dirty Dancing (1987) e da mágica de Halloween criada no filme Abracadabra (Hocus Pocus, 1993), mas também o responsável por dar uma nova voz e repaginar o espírito da cultura pop para o público que estava por vir.
Sua contribuição para o as produções clássicas deste universo vão além de técnicas precisas de coreografia e jogos de câmera. Ortega é considerado uma das figuras fundamentais da adolescência pop e a pessoa que redefiniu o mundo musical teen, criando uma essência tão única que ressoa até hoje em todos que cresceram ouvindo e assistindo seu trabalho.
O começo de tudo
Desde o início de sua vida, Ortega sempre esteve rodeado de música e dança, como se recorda em inúmeras entrevistas, de presenciar seus pais rodopiando pela casa ao som de um disco de mambo dos anos 50, ou uma gravação da era do swing. “Lembro-me de observá-los, e era quase como uma cena de filme em que, de repente, todos os outros na pista de dança desapareciam. Tudo o que eu conseguia ver era minha mãe e meu pai dançando. Não tenho dúvidas de que foi ali que me apaixonei pela dança”, conta em entrevista para o site Inside Dance Magazine, no ano de 2025.
Com essa paixão aflorada pela música e pela dança, não foi muito difícil seguir por esse caminho. Começou sua carreira integrando o elenco de dois grandes musicais, “Oliver!” — baseado no romance “Oliver Twist”, de Charles Dickens — e, em seguida, “Hair” — que retrata o movimento hippie nos Estados Unidos —, mas, antes que fosse se juntar à primeira turnê nacional de “Jesus Cristo Superstar”, foi convidado pela banda de rock The Tube para coreografar suas performances. A ideia deles era incorporar o teatro musical em suas apresentações, e ninguém melhor que um jovem Kenny Ortega para o trabalho.
Kenny conta que aquele foi um momento muito importante de sua carreira, pois abriu mão de algo que conhecia e sabia, que era a turnê de uma terceira peça musical, para virar o coreógrafo de palco de um grupo de rock. Ainda para a Inside Dance Magazine, o coreógrafo relata que sua intuição falou mais alto na decisão. “Sabe, arriscar e ouvir a voz interior — é nela que se deve confiar. Sempre muda tudo quando você faz isso!”.
Depois do período que passou coreografando as performances da banda, Ortega chamou atenção de outros artistas, mas, dessa vez, em uma escala bem maior, como Elton John, Cher, Diana Ross, KISS e muitos outros. E esse ainda é só o começo de uma longa e marcante carreira.
Os maiores atos da cultura pop
Em 1980, Kenny Ortega tem seu primeiro grande trabalho no cinema ao coreografar o filme Xanadu, estrelado por Olivia Newton-John (Grease, 1978) e o ícone dos musicais cinematográficos Gene Kelly (Cantando na Chuva, 1952). Em entrevista para o documentário de 2008 Going Back to Xanadu (Retornando à Xanadu), Kenny conta sua surpresa ao descobrir a participação dos astros, ainda mais quando o informaram que Kelly não dançaria no longa, mas também não atuaria se não gostasse de Ortega. “Gene diz para mim: eu não vou dançar, mas se eu fosse, o que eu faria? Eu não estava preparado para isso. (…) Me lembrei de alguns passos de alguns filmes (dele)e comecei a fazê-los. (…) Ele se levantou e começou a dançá-los comigo, e então começamos a criar uma combinação juntos”, declara Ortega que, no final, teve a honra de coreografar o renomado ator.

Apesar do longa não ter sido bem recebido em termos de bilheteria, Ortega não só descobriu novos caminhos como também um grande mentor para sua carreira. Em outro trecho do documentário, ele relembra que foi escolha do próprio Gene Kelly de virar seu mentor e ensiná-lo todo seu conhecimento sobre o desenho de coreografia para câmeras. E Kenny se provou um grande aprendiz. No ano de 1984, coreografou o clipe de “Let’s Hear it For the Boy” de Deniece Williams — música que ficou conhecida por integrar a trilha sonora do filme Footloose (1984) — e, no mesmo ano, o tão referenciado e aclamado clipe de “Material Girl”, de Madonna.

Não muito tempo depois, em 1986, Kenny teve seu retorno para o cinema, começando sua parceria com o diretor John Hughes ao participar de A Garota de Rosa-Shocking (Pretty in Pink), o que abriu portas para seu grande trunfo: a direção e coreografia da nostálgica — e improvisada — parada de “Twist and Shout” no filme Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986). Ao relembrar desse momento em entrevista para o canal Entertainment Tonight, o diretor e coreógrafo conta que foi sua grande primeira experiência como diretor em um longa-metragem. “Ele [John Hughes] me deu 12 câmeras. Nós transformamos o carro alegórico e o levamos para uma parada real, e tivemos um take para gravar”. E não há dúvida de que conseguiram.

Outra conexão muito especial foi feita nesse filme: a atriz Jennifer Grey, que interpreta a irmã mais velha de Ferris, e quem Kenny encontraria no ano seguinte ao ser chamado para coreografar o longa “Dirty Dancing” (1987). O projeto não poderia combinar mais com a carreira que Kenny construiu até aquele momento, se dedicando a elevar a dança como peça fundamental nos filmes musicais, assim como sua própria história — crescendo com raízes cubanas e cercado de música. Ele conta para o Entertainment Tonight que pôde levar muito de si para a história e o personagem Johnny, interpretado por Patrick Swayze — que adorou essa combinação. “Esse foi um filme em que a dança é linguagem. Quando os diálogos param e a dança se transforma nas palavras”, Ortega explica na entrevista. “Eu aprendi o poder de como coreografia pode realmente contar uma história, e mover a história e os personagens adiante.”

Nos anos 90, outro artista desempenhou um grande papel na vida profissional de Kenny. Em 1992, ele trabalhou com Michael Jackson para construir a turnê mundial de Dangerous, que seguiu até o ano seguinte. A parceria continuou em 1996 com a turnê solo HIStory.
Anos depois, Jackson chama Ortega novamente para planejar a turnê de This is It, prevista para acontecer em 2009-2010 e que foi tragicamente cancelada pelo falecimento de Michael 18 dias antes do primeiro show. Como homenagem ao artista, Kenny dirigiu o documentário Michael Jackson’s This Is It (2009), que mostra os bastidores da criação e dos ensaios para a grande turnê. Durante os meses de divulgação do filme, Kenny relata sobre sua relação com o cantor e o processo criativo entre eles desde sua primeira colaboração. “Não tínhamos medo de dizer não um para o outro. Não tínhamos medo de discordar um do outro. Eu nunca disse sim para o Michael se não acreditasse que a resposta deveria ser sim”. Em outro momento, ele relembra: “Nós nunca conversamos o porquê (…) ele me chamou, mas nós logo descobrimos que tínhamos muito em comum”.
Walt Disney Company
Em meio a essa trajetória de criações que ficaram marcadas na história da cultura pop, o diretor e coreógrafo Kenny Ortega também iniciava um caminho que o traria uma das maiores fontes de sucesso da sua carreira, e seu trabalho de maior referência.
Em 1992, Kenny foi chamado pela Disney para coreografar e dirigir seu primeiro longa, o musical Newsies (Extra! Extra!), que conta a história sobre uma greve de jornaleiros reivindicando o valor alto dos jornais em Nova York e a redução da jornada de trabalho. Estrelado por Christian Bale e com canções originais de Alan Menken, o filme representava o desejo da Disney de trazer de volta os musicais para as novas gerações, com outros olhares e formatos. E não há pessoa mais adequada para a tarefa do que Kenny Ortega.
Assim como Xanadu, Newsies também não obteve bons resultados de bilheteria, mas, em 2012, o roteiro foi adaptado para uma peça musical da Broadway — estrelado por Jeremy Jordan no papel de Jack Kelly —, recebendo dois Tony Awards: Melhor Coreografia e Melhor Trilha Sonora.
Ainda que o filme não tenha alavancado como o esperado, as portas para Ortega não foram fechadas. No ano seguinte, a Disney oferece outro projeto para ele comandar: a história das bruxas Sanderson — Winifred, Mary e Sarah. E, assim, nasce Abracadabra (Hocus Pocus, 1993), com as atrizes Bette Midler, Kathy Najimy e Sarah Jessica Parker. Infelizmente, na época em que foi lançado, o filme também não foi recebido positivamente pela mídia, apesar de hoje ter se tornado uma das maiores referências pop do Halloween.

Após isso, Kenny se aventurou em outros projetos, como produzir o show de intervalo do Super Bowl em 1996, que contou com a performance de Diana Ross; dirigiu episódios de diversas séries, entre elas Gilmore Girls; e também encabeçou a abertura do Jogos Olímpicos de Inverno em 2002. Contudo, o desejo de dirigir outro longa-metragem ainda existia, como conta ao Entertainment Weekly: “Eu estava fazendo muitos programas de televisão, muitas séries, então minha agência me enviou esse roteiro e eu simplesmente amei”. E o roteiro em questão é nada mais, nada menos, do que o primeiro filme da franquia High School Musical, lançado em 2006 e que fez 20 anos em janeiro deste ano.

Alcançando 7,7 milhões de espectadores na primeira semana de transmissão, o filme foi um sucesso absoluto para o canal Disney Channel e para o próprio Kenny Ortega, responsável pela direção e coreografia. Para o Weekly, ele diz que a história o relembrou de seu próprio ensino médio participando de musicais e que, no momento em que leu o roteiro, soube que poderia fazer algo diferente e muito charmoso. “Em um mundo onde não há muitas oportunidades musicais para diretores-coreógrafos, isso [o filme] me permitiu fazer o que eu realmente gosto.” E a Disney aproveitou desse entusiasmo oferecendo, no mesmo ano, a direção da sequência de The Cheetah Girls, filmado em Barcelona, Espanha.
Entretanto, o sucesso de High School Musical foi tanto que, em 2007, o Disney Channel anunciava a estreia de High School Musical 2 e, em 2008, High School Musical 3 tinha seu lançamento mundial nas telas do cinema, sendo o primeiro e único filme da trilogia a alcançar esse feito.
Apesar do extenso currículo que o seguia, Kenny, por fim, se consagrou como diretor da adolescência pop, com seu talento único de contar histórias que ressoavam nos jovens, com músicas dramáticas e números musicais grandiosos. Seu nome estava tão lapidado na indústria que, anos mais tarde, Gary Marsh, então presidente e diretor criativo dos canais Disney, liga para Ortega oferecendo outro roteiro. “Ele disse: “Kenny, estou desenvolvendo um filme chamado Descendentes (…) É baseado nos filhos dos personagens da Disney, tanto os bons quanto os maus.” Eu respondi: “Estou dentro!”, relembra Ortega em entrevista para o site do The Walt Disney Company. Então, em 2015, o filme Descendentes estreia no canal Disney Channel, se tornando o primeiro de uma franquia de cinco longas no total.
Anos mais tarde, todo o esforço, a criatividade e o olhar sensível de Kenny foram marcados pela conquista da estrela na calçada da fama de Hollywood em 2019. No evento, diversos atores estiveram presentes para prestigiar o diretor, como Jennifer Grey, Kathy Najimy, Dove Cameron e Booboo Stewart. Na ocasião, Monique Coleman, que interpreta Taylor McKessie na franquia High School Musical, diz em entrevista “ele tem essa visão, essa habilidade de pegar um momento e transformá-lo em algo bem maior. Ele é infinitamente criativo.”

No ano de 2020, em parceria com a Netflix, Kenny dirige a série Julie and the Phantoms, um remake da série brasileira Julie e os Fantasmas, com Mariana Lessa e Bruno Sigrist. Entretanto, a série foi cancelada após sua primeira temporada, mesmo ganhando três Daytime Emmy em 2021 nas categorias de Melhor Canção Original, com a música ‘Unsaid Emily’, Figurino Extraordinário/Estilismo para um programa de drama e Edição de Múltiplas Câmeras.
Mesmo que alguns de seus projetos não tenham sido imediatamente reconhecidos pela mídia ou pelo público, os trabalhos de Kenny sempre tiveram um grande impacto em jovens de diferentes gerações. Desde Xanadu, Dirty Dancing, até suas contribuições para o Disney Channel, o diretor e coreógrafo fez questão de entregar não apenas sua criatividade e conhecimento, mas todo o amor e o carinho que tem pela música, dança e pela habilidade de contar histórias. E isso fica claro pelo fato de sua trajetória profissional ser recheada de produções que fomentaram a cultura pop, e ainda a alimentam até os dias de hoje.
Ainda para o site The Walt Disney Company, Kenny reflete sobre a receita secreta para sustentar franquias na Disney, e ele cita uma das maiores lições de seu mentor Gene Kelly: “A The raison d’être (a razão para ser)… Todos os projetos tinham algo de muito valioso para mim. (…) eles podiam falar com os jovens; podiam empoderar, impactar e inspirar. Então, tratava-se apenas de criar um ambiente, como produtor e diretor, que fizesse com que todos se sentissem seguros e pudessem correr riscos. Eles não seriam julgados. (…) Portanto, esse foi um ingrediente importantíssimo e muito útil.”