Conhecida por ser um símbolo mundial da luta pela educação de meninas, principalmente em países como Afeganistão e Paquistão, Malala Yousafzai cresceu aos olhos do mundo como um grande exemplo de ativismo e sobrevivência. Desde o atentado terrorista sofrido pelas mãos do Talibã aos 15 anos, ela viu sua vida inteira mudar drasticamente; precisou recorrer a um refúgio na Inglaterra para garantir sua segurança, a de sua família e a de tantas outras garotas de seu país — além de passar meses em uma cama de hospital lutando pela própria vida.
Foram muitos os marcos que colocaram a vida de Malala nos holofotes. Ela passou a adolescência frequentando eventos no mundo todo e apertando a mão de grandes líderes mundiais. Enquanto isso, discursava sobre a importância da educação para os jovens, ainda mais para meninas que, muitas vezes, por motivos políticos ou culturais, viam esse direito ser arrancado de seus futuros sem ter como impedir. Entretanto, ao passo que o mundo via a figura pública tirando fotos em palcos famosos, por trás das câmeras, Malala enfrentava uma realidade bem diferente.
No livro lançado em 2025, “No Meu Caminho”, Malala coloca de lado a vida da ativista, que ganhou o Prêmio Nobel aos 17 anos, para mergulhar em um relato honesto sobre a vida que precisou moldar em outro país, principalmente sua ida à faculdade, que não só era um dos seus maiores sonhos, mas também foi a porta de entrada para descobrir quem ela era além do atentado e da atenção do mundo — apenas uma jovem mulher com dificuldades, traumas, inseguranças, vontade de viver e muita ambição.
Mas primeiro, quem é Malala?
Antes do acidente que quase tirou sua vida, Malala já era uma grande representante da luta pelo direito de meninas frequentarem a escola, como é contado no livro “Eu Sou Malala”, escrito em parceria com a jornalista Christina Lamb e publicado em 2013. Na obra, é contado como Malala já fazia discursos e correspondia com jornais ainda muito nova, descrevendo as dificuldades que ela e outras garotas enfrentavam com a ascensão do grupo terrorista Talibã no Paquistão, que inviabilizava qualquer autonomia feminina.
Essa consciência em relação à educação teve muito apoio de seu próprio pai, Ziauddin Yousafzai, que, não apenas era professor em uma escola em Mingora, sua cidade natal localizada no Vale do Swat, como também sempre destacou a importância dos estudos dentro da própria casa — algo muito incomum em países como Paquistão e Afeganistão, que, em setores e áreas conservadoras, não aceitam com facilidade que mulheres frequentem escolas e busquem uma educação completa, uma vez que precisam cuidar, desde muito novas, da casa, dos filhos e maridos.

Em entrevista para a Revista Crescer, em 2019, durante a promoção de seu livro “Livre Para Voar”, Ziauddin conta que viu suas cinco irmãs crescerem sob os rígidos costumes paquistaneses, e que não gostaria de perpetuar isso dentro de sua casa, especialmente com sua filha. “Meu pai e minha mãe tinham grandes sonhos para mim e meu irmão, mas o único sonho para as minhas irmãs era que casassem o mais cedo possível. Então, minha missão como pai era a igualdade e comecei escolhendo para minha filha um nome em homenagem a Malala de Maiwand, uma heroína afegã (…)”. Em outro momento, afirma que uma das maiores atitudes que tomou durante a criação da filha foi, na verdade, o que deixou de fazer: “Eu não cortei as asas dela”.
E foi com essa base e mentalidade que Malala cresceu, agarrando-se ao seu direito de estudar e preservando seus sonhos — algo de que muitas meninas precisaram abrir mão devido a casamentos forçados e outros empecilhos. No entanto, esses direitos e sonhos foram minguados com a forte presença do Talibã no país, que decretou o fim da presença de garotas nas escolas e passou a bombardear os prédios para que não houvesse discussão.
Na época, em 2009, Malala escrevia um blog para a BBC Urdu, a pedido do próprio portal, relatando como estava sendo a vida no Paquistão após a tomada do grupo extremista. Em uma das publicações, ela conta: “Hoje é o último dia antes da ordem do Talibã passar a valer, e minha amiga estava discutindo o dever de casa como se nada além do ordinário estivesse acontecido”. No mês seguinte, relata a tristeza de deixar a vida de estudante para trás: “fico triste ao olhar para o meu uniforme, minha mochila e minha caixa de apetrechos para as aulas de geometria. As escolas para meninos reabrirão amanhã. Mas o Talibã baniu as meninas das escolas.”

Após isso, houve um período entre os anos 2009 e 2012 em que o exército pasquitanês conseguiu retomar algumas regiões, inclusive o Vale do Swat, onde Malala e sua família moravam. Nesse mesmo período, uma trégua entre o governo e o Talibã permitiu que as garotas retornassem às escolas. Entretanto, nesse mesmo tempo, Malala ficou muito conhecida por sua postura pública em defender o direito de meninas e mulheres à educação, o que culminou no atentado que sofreu em 2012 quando voltava da escola. Um dos homens do grupo terrorista entrou no ônibus – que levava Malala e suas amigas para casa – e atirou na cabeça da jovem de apenas 15 anos.
De acordo com matéria no G1, o Talibã alegou que o ataque foi uma consequência das atitudes de Malala por “promover a educação secular”, ou seja, defender uma causa que não esteja ligada a religião ou dogmas espirituais.
Malala em primeira pessoa
No livro “No Meu Caminho”, Malala decide se reapresentar ao mundo à sua própria maneira. Ela não está interessada em contar a história da ativista e sobrevivente de um atentado. Muito pelo contrário. Escrito em primeira pessoa e narrado com muita sinceridade, ela compartilha com o leitor suas experiências como uma jovem sonhadora começando a faculdade e experimentando a liberdade de morar longe dos pais.

Embora o livro tenha como ponto de partida sua mudança para os dormitórios do prédio Lady Margaret Hall, na Universidade de Oxford — onde se graduou em Filosofia, Política e Economia — e o desejo de experimentar de tudo um pouco, ao longo dos capítulos fica claro que a vida universitária é apenas a superfície da história, que logo mergulha em conflitos mais intensos e profundos.
Logo em seus primeiros meses, ela relata a dificuldade de aproveitar a vida comum na faculdade sendo uma figura pública; não apenas pela pressão de não virar manchete nos jornais — como o dia em que foi flagrada usando calça jeans no campus e recebeu uma enxurrada de críticas e comentários de ódio por não estar honrando sua religião e costumes paquistaneses —, mas também por perder semanas de aulas para comparecer a eventos mundiais, já que sua presença era a principal fonte de renda dela e de sua família.

Além de precisar equilibrar a vida de estudante com a vida pública, Malala também conta sobre a intensa batalha que travou com sua própria mente. No livro, ela descreve em detalhes os momentos em que sofreu com ataques de ansiedade e pânico, que a faziam reviver cenas do atentado ao tentar dormir e despertavam todas as sensações ruins e angústias que ela sentiu naquele período.
Com toda sua honestidade, ela relata como enfrentou diversos episódios que a paralisaram de medo até procurar ajuda profissional e descobrir que sofria de Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Apesar de parecer lógico, considerando tudo o que passou, Malala compartilha a dificuldade que teve para aceitar que ainda sofria pelo atentado e os traumas que ele deixou e, principalmente, para entender que se tratava de uma condição que a acompanharia por toda a, e a única forma de lidar seria com muita paciência e conhecimento sobre seu próprio corpo.
A relação com a religião e o Paquistão
Malala cresceu em um país mulçumano e uma família muçulmana “comprometida aos ensinamentos do Islã”, como ela declarou ao site Muslim Girl em 2024. Sendo assim, a fé e a religião sempre tiveram grande importância em sua vida — e isso fica claro durante a leitura de “No Meu Caminho”.
São inúmeros os momentos em que Malala demonstra sua devoção às próprias crenças e, especialmente, seu país. Depois que ela precisou deixar o Paquistão em 2012 para ser socorrida na Inglaterra, ela não pôde retornar à sua terra natal até 2018. Em seus relatos, escreve com muita nostalgia e carinho suas memórias de infância e detalhes que a faziam se sentir mais próxima de seu país.

A relação que Malala construiu com suas memórias, seu país e, principalmente, sua religião diz muito sobre a maturidade que ela adquiriu ao longo dos anos, entendendo até que ponto sua fé e suas crenças a confortam e a ajudam, e até que ponto a devoção se transforma em fanatismo, prejudicando algo saudável que guia e apoia tantas pessoas.
Especialmente sob o domínio do Talibã, o Paquistão se tornou um lugar hostil para as mulheres, usando não apenas os costumes, mas também a religião para aprisioná-las e controlá-las. No livro, assim como em suas entrevistas, Malala ressalta diversas vezes que o tipo de ensinamento que esses grupos seguem ou transmitem não condiz com os que ela aprendeu. Ainda para o Muslim Girl, ela conta sobre o que entendeu com o Alcorão: “O Islã ensina que não podemos permanecer na ignorância, que devemos buscar o conhecimento — não importa o quão difícil seja ou o quão longe tenhamos que ir”. Em seguida, acrescenta: “Vemos no Afeganistão como o Talibã explora uma interpretação distorcida do Islã para impor seu regime de segregação de gênero. Minha fé me guia a saber que é errado oprimir meninas e mulheres de forma deliberada e sistemática”.
Essa compreensão reflete diretamente em sua luta pelo direito à educação de jovens meninas. Para o jornal O Globo, em 2025, ela explica a importância da educação e o pensamento crítico para que seja possível o questionamento de informações que são impostas, principalmente por homens, com o objetivo de restringir os direitos das mulheres. “Na maioria das religiões, os homens controlam a narrativa e usam a religião como uma desculpa para a sua misoginia. Se tirarmos deles o livro sagrado, facilmente encontrarão um outro para usar como desculpa.”
O papel das mulheres em sua vida
De acordo com seus relatos em “No Meu Caminho”, Malala sempre teve a figura feminina muito presente em sua vida. Em sua fase universitária, ela conta como ficou feliz em ter um grupo de amigas com quem podia criar tradições, se arrumar para festas, dar conselhos ou ficar até tarde conversando. Ela também relembra que, em seus períodos mais sombrios, quando sofreu severamente com ataques de pânico e ansiedade, eram suas amigas que dormiam em colchões no chão para garantir que ela estivesse amparada durante a madrugada.
As amizades no Paquistão também eram frequentemente citadas, principalmente como uma forma de lembrar a importância de sua luta pela educação das meninas, ao passo que muitas de suas amigas foram forçadas a abrir mão de seus sonhos e carreiras por conta de casamentos arranjados ou da maternidade. Malala conta, com pesar, sobre conhecidas e primas que não puderam seguir o sonho de cursar medicina, tornar-se escritoras ou estudar moda por proibição das famílias, que as tiravam da escola para aprender a cuidar da casa e seus futuros maridos, impossibilitando qualquer autonomia em suas vidas.
Essa limitação do papel das mulheres se mostrou um assunto de grande relevância para Malala desde pequena. Como conta no livro, já declarava que nunca se casaria. Por presenciar a vida de tantas mulheres depender exclusivamente dos homens com quem se casavam — já que eles determinariam o tipo de vida que as esposas teriam — Malala entendeu que o casamento nunca seria uma opção para ela, que tomava as próprias decisões e continuaria trabalhando. Até mesmo quando conheceu Asser — seu futuro marido —, ela precisou de muito tempo e muitas conversas com ele para decidir e entender que o casamento, nos termos certos, não significava uma prisão, mas sim compartilhar a vida com um parceiro que admirava, respeitava e amava.

Após o término da faculdade, Malala descreve outro momento crucial em que viu a força da união feminina. Em 2021, o Talibã retomou o controle sobre o Afeganistão, aterrorizando a população e exercendo cada vez mais poder no país. Nos jornais, o desespero dos cidadãos era manchete. Uma reportagem do jornal El País informa que, em um único dia, foram transportados 640 afegãos em um avião de carga militar da Força Aérea dos Estados Unidos. De acordo com a matéria “[o avião] decolou com centenas de cidadãos que tentavam deixar o país após a chegada do Talibã e a saída do presidente afegão, Ashraf Ghani”.
Apesar de estar longe, Malala relata o medo e a angústia que sentia pelas pessoas que não conseguiam deixar o país, principalmente pelos integrantes de sua equipe que continuavam no Afeganistão. Como resposta à aflição que crescia ao ver a história se repetir, ela enviou e-mails para presidentes e primeiros-ministros de vários países com os quais já havia tirado foto e conversado em reuniões. Para sua surpresa, nenhum retornou seu pedido de ajuda. “Para os homens que governavam o mundo, eu não passava de marketing de campanha política”, desabafa. “(…) Já as mulheres, responderam imediatamente, atendendo as ligações e botando a mão na massa assim que desligávamos.”
Representantes como Erna Solberg, primeira-ministra norueguesa; Hillary Clinton; Lolwah Al-Khater, ministra adjunta das Relações Exteriores do Catar; e Lisa Cheskes e Elizabeth Snow, gerentes de reassentamento do governo canadense, permitiram que os parceiros afegãos da equipe de Malala conseguissem lugar nos aviões que partiam de Cabul, que outros entrassem no Catar sem documentação ou passaporte, e providenciaram alojamentos até que conseguissem novas realocações. No livro, ela declara: “Posso até não concordar pessoalmente com todas as opiniões dessas mulheres ou com decisões que tomaram como líderes — mas serei eternamente grata a elas por terem ajudado a salvar tantas vidas”.
O Fundo Malala
Fundado por Malala e seu pai, Ziauddin, em 2013, o Fundo Malala funciona como uma organização sem fins lucrativos que trabalha para garantir a educação de meninas em todo o mundo. Em seu site oficial, contabilizam que mais de 122 milhões de garotas estão fora da escola atualmente. “No Afeganistão, meninas são totalmente proibidas de frequentar a escola após o sexto ano”, declarou a então CEO do Fundo, Lena Alfi, para a Forbes em 2025. “Na África Subsaariana, os números estão aumentando à medida que os governos abandonam suas promessas.”
Em “No Meu Caminho”, mesmo após a onda de questionamentos que surgiram sobre seu futuro com o fim da graduação em Oxford e o começo da vida adulta, Malala nunca deixou de priorizar o Fundo e o trabalho exercido por ele. Durante sua jornada, a preocupação com a escola para garotas que estava sendo construída em Shangla — região de origem ancestral da família da ativista — é uma das coisas mais constantes de sua história. Inclusive, esse é o ponto de fechamento do livro: a tão esperada visita à construção finalizada e às setecentas alunas que estudavam ali. “Quando decidi construir a escola, as pessoas me diziam que os pais da região não iam apoiar a educação das filhas. Agora o número de inscrições excedia o de carteiras disponíveis”, conta no trecho. “Nunca me orgulhei tanto de alguma coisa na vida.”
Atualmente, o Fundo Malala atua em 6 países — Afeganistão, Etiópia, Nigéria, Paquistão, Tanzânia e Brasil — garantindo 12 anos de educação para meninas, que apresentam altas taxas de evasão escolar durante o período equivalente ao ensino médio brasileiro. De acordo com o site oficial do Fundo, são inúmeros os motivos que levam garotas a abandonarem a escola, como pobreza, residência em áreas de conflito, violência baseada em gênero, qualidade da educação, casamento precoce e gravidez, entre outros. Além de assegurar o aprendizado de jovens meninas, o Fundo Malala também atua na defesa de que governos e outras instituições defendam o direito básico à educação e implementem as políticas necessárias para que isso se concretize.

No Brasil, a organização atua desde 2018 e, até 2025, apoiavam 11 projetos liderados por mulheres, que vão desde a área de pesquisa sobre discriminação racial e de gênero nas escolas, treinamentos, até o monitoramento de políticas públicas e orçamentos. Para O Globo, Malala conta sobre a motivação para expandir o trabalho do Fundo para o Brasil: “O que me chamou atenção aqui é a alta evasão escolar. É de partir o coração que em comunidades indígenas e quilombolas apenas 30% das meninas completem o ciclo escolar. Isso é um enorme desafio para vocês”. Em seguida complementa: “Eu aprendi na região de onde eu venho que muitas vezes não é dada a devida importância a certos grupos, especialmente os de baixa renda. Por isso escolhi o Brasil.”

O trabalho de Malala na luta pelo direito à educação de meninas vai muito além de congressos, palestras mundiais ou conversas com presidentes. Ela vem de um local específico, uma data exata e uma memória que marcou e moldou sua vida inteira. Em “No Meu Caminho”, ela não apenas mostra a batalha constante de uma jovem mulher lidando com traumas, ansiedade e milhões de dúvidas sobre seu propósito, como também aponta a forma como a vida das mulheres está suscetível a quase qualquer coisa, menos às próprias decisões.
Mesmo vivendo de acordo com suas vontades e regras, Malala ainda sofreu com comentários de ódio na internet por pequenas coisas que fazia ou dizia; entrou em uma espiral de dúvidas a respeito da instituição do casamento — que sempre foi uma fonte de medo para ela — e precisou enfrentar a pressão de se formar na faculdade para provar que era merecedora, e que seu diploma jamais poderia ser tirado dela.
Malala divide toda a sua jornada de amadurecimento sem filtros. No livro, o leitor não conhece a ativista e símbolo mundial, mas a jovem mulher que precisou superar inúmeros obstáculos pessoais para alcançar a vida que deseja construir. E, principalmente, aprendeu que não existe ninguém no mundo que possa dizer o que ela pode ou não fazer, porque as escolhas são dela e a vida também.