Em 2022, uma das maiores referências do K-pop, o grupo BTS, anunciou em suas redes sociais uma pausa temporária nas atividades para que os sete membros cumprissem o alistamento obrigatório ao exército da Coréia do Sul.
Sem atividades em conjunto por quase quatro anos, o grupo se reuniu no final de 2025 para anunciar seu retorno oficial com direito a novo álbum, no dia 20 de março, um novo documentário, no dia 27, e uma turnê com shows no mundo inteiro, inclusive no Brasil. Mas, a pergunta que não quer calar é: por que a volta deles merece ser assistida?
Primeiro de tudo, quem é BTS?
BTS foi um projeto pensado em 2010 por Bang Si Hyuk, presidente da então pequena empresa Big Hit Entertainment — hoje conhecida como HYBE. Inicialmente, Bangtan Sonyeondan (escoteiros à prova de bala, em tradução livre) seria um grupo voltado para o hip hop e contaria apenas com integrantes rappers. A ideia veio após Si Hyuk escutar uma demo de Kim Namjoon — atual líder do grupo — que o inspirou a recrutar os outros membros, como conta na série documental do Disney+ BTS Monuments: Beyond The Star. Entretanto, depois de algumas mudanças de conceito e trocas de integrantes, criou-se o BTS conhecido hoje, formado por: Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Min Yoongi (Suga), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Taehyung (V), Park Jimin (Jimin) e Jung Jungkook (Jungkook).
O começo deles, assim como de muitos artistas da indústria do K-pop na época, não foi fácil ou rápido. Eles estrearam em 2013 com a música “No More Dream”, pertencente ao primeiro mini-álbum “2COOL4SKOOL” e, apesar de terem conquistado, no mesmo ano, o prêmio de “Artista Revelação” na premiação Melon Music Awards, não vislumbravam mudanças em suas vidas, uma vez que dividiam o mesmo dormitório, enfrentavam os mesmos desafios financeiros e, principalmente, esgotavam seus corpos até a última gota de suor. “Quando eles estrearam, a HYBE era uma empresa de grupos pequenos. Estrearam em uma situação difícil”, conta Myeong Seok Kang, autor do livro Beyond The Story — uma biografia do grupo.

Após sua estreia, eles lançaram dois mini-álbuns e, em 2014, divulgaram o primeiro álbum completo intitulado “Dark&Wild”, com direito a clipe para a música “Danger” — o que, descobriram anos depois, foi a aposta mais alta da empresa, com um grande investimento e um risco ainda maior de enfrentar dívidas. Apesar da aposta esperançosa, os resultados não foram positivos e, cada vez mais, as músicas desciam de posição nas paradas musicais.
A visibilidade veio só com o terceiro mini-álbum “The Most Beautiful Moment in Life, pt.1”, lançado em 2015, que conta com os singles “Dope” e “I Need You” — o principal propulsor da carreira do grupo a partir dali. Além disso, o projeto também marcou uma nova fase do BTS, que antes carregava uma estética mais sombria com reflexões sociais e críticas ao sistema educacional rígido da Coréia, para um desabafo sobre a juventude e os conflitos que enfrentaram juntos até o momento. “Dali em diante”, conta o autor Seok Kang no documentário, “criaram suas histórias através da música.”

Em 2016, e após o lançamento de seu segundo álbum completo “Wings”, receberam o prêmio de “Melhor Álbum” na premiação Melon Music Awards e “Artista do Ano” no Mnet Asian Music Awards (MAMA), uma das premiações mais importantes de K-pop e músicas asiáticas.
Da forma que o primeiro álbum serviu para abrir um novo caminho e criar uma nova imagem, “Wings” chegou para fortalecer a base do BTS na indústria e colocá-los na mira do mercado internacional, como explica o presidente da HYBE, “eles tornaram sua presença não apenas no K-pop, mas também no mercado pop internacional”. E isso só se comprova quando, em 2017, eles atenderam a premiação Billboard Music Awards em Los Angeles e venceram a categoria “Top Artista Social” — título que pertenceu a Justin Bieber por seis anos.
No final do mesmo ano, lançam o mini-álbum “Love Yourself: Her”, que alcançou 7º lugar na parada Billboard 200 e se tornou o álbum coreano com a melhor posição de todos os tempos. Meses depois, apresentam a música “DNA” no American Music Awards (AMAs), tornando-se o primeiro grupo de k-pop a se apresentar em uma grande premiação dos Estados Unidos.
Nesse tempo, também fizeram uma parceria com o DJ Steve Aoki com a música “Mic Drop”, que alcançou disco de ouro em apenas dois meses de lançamento.

Com a visibilidade que adquiriram e a produção frenética de álbuns, parcerias, vídeo clipes e turnês, a carga de trabalho também aumentou e passou a exigir cada vez mais dos sete membros. “Não acreditávamos que a fama era uma escala que conseguíamos controlar”, conta o integrante Min Yoongi (Suga) para o Beyond The Star. O esgotamento, físico e mental, chegou em um ponto tão alto que consideraram não renovar os contratos com a empresa e encerrar o BTS ali, antes mesmo de imaginar o que ainda poderiam alcançar.
Enquanto enfrentavam essas questões internamente, para o mundo, o BTS dava continuidade nos projetos lançando o álbum “Love Yourself: Tear”, o que seria o segundo de uma trilogia bem fechada sobre o processo de encontrar o amor em suas diversas formas. Refletindo os embates que viviam nos bastidores, o álbum mostra uma atmosfera mais melancólica e triste, falando sobre perdas, rompimentos e uma nova visão sobre maturidade emocional. “Estamos tentando dizer que se você está apaixonado/amando e não é verdadeiro consigo mesmo, o amor não vai durar”, explica Namjoon (RM) em entrevista para a Billboard, “o amor é complexo e nós sempre vamos ter o lado sombrio e triste.”
Encerrando a trilogia, eles lançam “Love Yourself: Answer” (2018), alcançando o 1º lugar na Billboard 200 e batendo recorde com o clipe da música “Idol”, que se tornou a maior estreia da história do youtube em 24 horas. No ano seguinte, estreiam o mini-álbum “Map Of The Soul: Persona” que também conquistou o 1º lugar nas paradas.
Com Map Of The Soul, o BTS atingiu novos patamares que abriram portas para o novo futuro do grupo. Além de contarem com parceria da cantora Halsey na música “Boy With Luv” — que em uma dedicação aos integrantes do grupo escreveu: “(…) por trás desse movimento espetacular e impecável, estão apenas alguns caras que amam música, uns aos outros e seus fãs.” —, ganharam diversos prêmios e em diferentes premiações.
Pandemia
Em 2020, lançaram seu 4º álbum completo “Map Of The Soul: 7” e, em seguida, bateram mais recordes com o clipe da música “Dynamite” — primeiro single em inglês e que os rendeu sua primeira indicação ao Grammy em “Melhor Dupla/Grupo Pop”, alcançando também o marco da primeira vez que um artista pop sul-coreano é indicado a premiação.
Antes que pudessem começar os shows da turnê do álbum, receberam a notícia de que o mundo entrava em confinamento devido a pandemia da COVID-19, e suas performances seriam, inicialmente, adiadas, até, por fim, serem canceladas por completo. Como muitos artistas, eles ficaram devastados com o desenrolar dos fatos e tiveram que aprender a lidar com o novo mundo que se formava: distantes uns dos outros, sem shows e sem contato com os fãs.
Em entrevista para o ABC News em 2021, após terem noticiado o cancelamento oficial da turnê, os sete integrantes se reuniram para compartilhar as dúvidas e os sentimentos conflituosos que enfrentaram durante o isolamento. “Eu tenho tido muitos pensamentos negativos e questionando meu propósito de vida”, declara Jimin na conversa. Entretanto, eles não encararam o isolamento de mãos atadas. Em outubro de 2020 fizeram um concerto online para os fãs, o “Map of the Soul: ON:E, for ARMY”, que reuniu 993,000 espectadores de 191 países. No mês seguinte, lançaram o álbum “Be”, na tentativa de “expressar seus sentimentos contraditórios sobre essa situação — medo e ansiedade misturados com a determinação de superar tudo isso.”, conforme explica o site oficial da HYBE.

Eles encerraram o ano recebendo dois grandes títulos: Artista do Ano pela revista Time que, em seu texto, declara: “Eles conseguiram isso em um ano marcado por contratempos, um ano em que o mundo parou e todos lutaram para manter suas conexões”, e o segundo, concedido pela Billboard, de “As Maiores Estrelas Pop de 2020”.
Após a pandemia, o BTS continuou a acumular grandes marcos, como o lançamento de seu segundo single em inglês, “Butter”, que alcançou rapidamente o primeiro lugar na Hot 100, quebrou recordes de visualizações no Youtube e os concedeu sua segunda indicação ao Grammy, no ano de 2021.
No final do ano, eles entraram para o Hall da Fama do Guinness World Records ao acumularem 23 recordes desde sua estreia oficial como grupo. Entre os recordes quebrado estão de Grupo Mais Escutado do Spotify, Faixa Mais Transmitida Nas Primeira 24 Horas com o single “Butter” — reproduzida exatamente 11.042.335 vezes durante as primeiras 24 horas, de acordo com a revista Recreio —, Vídeo musical mais visto no YouTube em 24 horas — título quebrado por eles mesmos mais de uma vez — entre muitos outros.
Apenas 11 meses depois, eles lançaram seu último projeto juntos antes da pausa para o serviço militar obrigatório. “Proof” foi um álbum criado para recontar a história do grupo a partir de suas músicas. Em ordem cronológica de lançamento, eles trazem de volta as canções que falam sobre as adversidades que passaram juntos, sua união como time e família, seu amadurecimento e, também, músicas que passaram a mensagem de que uma nova fase estava por vir, como o single “Yet To Come” (Ainda está por vir).
Letras e o impacto social como artistas
Para conquistar números e recordes tão distintos, um grupo não pode contar apenas com músicas cativantes e coreografias complexas. Desde seu início, o BTS mostrou que sua principal base está nas canções que escrevem e nas mensagens que querem passar para seus fãs — chamados de ARMY — e o mundo.
Logo em seus primeiros álbuns, o grupo fez questão de manter a honestidade nas letras e nos conceitos que escolheram para representar cada era. No começo, criticavam o sistema rígido de ensino da Coréia e suas questões sociais, principalmente o menosprezo em relação à juventude no país. Em seguida, se permitiram expor seus próprios pensamentos, suas dores e suas incertezas ao refletirem sobre o amadurecimento e todos os conflitos internos que os jovens enfrentam em suas jornadas individuais. E foi então que encontraram sua essência e a verdadeira ponte de conexão com seus fãs que, em resposta, fizeram questão de mostrar que compartilhavam da carga emocional junto com eles, e necessitavam de sua honestidade para continuar os apoiando e torcendo por seu crescimento.
No documentário BTS Monuments: Beyond The Star, o integrante e rapper principal Min Yoongi fala sobre como escreveram a música “2!3!” — do álbum “Dark & Wild” — para os fãs, em uma mensagem sincera sobre suas dificuldades como artistas na época, lidando com visões negativas e críticas pejorativas sobre seu trabalho. “Sofremos por causa disso por anos. Estávamos desesperados e rancorosos. Nossos fãs sentiam o mesmo. Então queríamos dizer: ‘No três, vamos esquecer tudo’”.
Percebendo o impacto e a importância de suas composições para seus fãs e para eles mesmos, em 2017, o BTS e a gravadora HYBE firmam uma parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) para promover a campanha “Love Yourself” (Ame a si mesmo), ao mesmo tempo em que o grupo lançava a trilogia de álbuns do mesmo título. O objetivo da campanha era ajudar e proteger jovens de violência, abuso e bullying; coisas que aparecem frequentemente em suas músicas, principalmente o cuidado com a saúde mental.

Na época, foram arrecadados R$3,6 milhões, de acordo com o site da UNICEF Brasil, e os resultados da campanha os levaram a discursar na reunião anual da Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Na ocasião, o líder do grupo, Kim Namjoon (RM), declarou: “Eu posso ter cometido um erro ontem, mas o eu de ontem ainda sou eu. Hoje, eu sou o que sou com todos os meus defeitos e erros. Amanhã, eu posso ser um pouco mais sábio e esse também serei eu. (…) Eu aprendi a me amar pelo o que eu sou, pelo o que eu fui e pelo o que eu espero me tornar.”

O tópico da saúde mental também é recorrente em suas letras. Ao mesmo tempo que contam em sua discografia com músicas como “Blue&Grey”, que retrata a exaustão emocional, depressão e ansiedade, também contam com canções como “Magic Shop” e “00:00 (Zero O’Clock)”, que apresentam palavras de acolhimento, esperança e força para seguir em frente, mesmo que seja um dia de cada vez.
O BTS para a Coréia e seu impacto cultural
Além da profunda influência na indústria musical e na vida dos fãs, o BTS também desempenhou um papel fundamental na fomentação da cultura coreana pelo mundo, assim como o interesse do mundo pela Coréia do Sul.
A Coréia já tinha entrado no campo de visão mundial com a explosão do single “Gangnam Style” do cantor PSY,em 2012, junto com o trabalho de outros grupos de K-pop como o Big Bang. Entretanto, com o alcance que o BTS conseguiu, os números já existentes apenas se expandiram cada vez mais, e isso não passou despercebido pelo próprio governo sul coreano, que já utilizava do chamado “Soft Power” — “a capacidade de um país de se impor (e lucrar) com seu entretenimento”, de acordo com a revista Veja — para impulsionar sua economia.
Conforme dados do Instituto Coreano de Cultura e Turismo, apresentados pela revista Exame, o BTS foi responsável por gerar US$3,7 bilhões em receita anual, equivalente a 0,2 % do Produto Interno Bruto (PIB) da Coreia do Sul. E, de acordo com matéria da Veja publicada em 2025, o retorno de apenas dois integrantes do serviço militar foi responsável por movimentar a bolsa de valores coreana, representando um ganho para a empresa HYBE.

Em 2022, o BTS realizou um show gratuito na cidade de Busan — segunda mais populosa da Coréia do Sul após a capital Seul — como apoio a candidatura do país para sediar a World Expo 2030. O show contou com mais de 50 mil pessoas no Estádio Principal do Busan Asiad e transmissão ao vivo em plataformas online. O esforço do grupo recebeu um agradecimento público do prefeito da cidade Park Heong-joon, que declarou: “Gostaria de expressar meu sincero agradecimento aos membros do BTS e do HYBE por aceitarem ser os embaixadores da Expo Mundial 2030 em Busan (…) O apoio do grupo como embaixadores será extremamente útil para intensificar nossos esforços para trazer a Expo Mundial para Busan.”
Serviço militar e o retorno
Em 2022, o BTS anunciou a pausa nas atividades para realizar o serviço militar obrigatório imposto pelo governo sul-coreano. De acordo com a Lei, todos os jovens aptos entre 18 e 28 anos devem cumprir com o alistamento em um período de, no mínimo, 18 meses. Existem isenções, como atletas, músicos — clássicos e tradicionais — e bailarinos, caso ganhem prêmios em determinadas competições e sejam considerados como tendo prestígio nacional. Entretanto, para artistas do universo K-pop, a regra não se estende. Apesar disso, BTS ainda conseguiu um adiantamento da ordem por terem sido reconhecidos com a medalha de Mérito de Ordem Cultural do governo sul-coreano.

O alistamento dos sete integrantes não foi imediato. Durante o tempo que tiveram, desde o anúncio da pausa até iniciarem os serviços, cada membro trilhou seu próprio caminho lançando álbuns solos, fazendo shows pequenos, parcerias — como Coldplay, Erykah Badu, Usher e mais — , experimentando diferentes vertentes musicais e testando novos limites de sua própria identidade artística.
Foi apenas no final de 2025 que todos os membros do grupo haviam oficialmente finalizado o período militar. E não levou tempo para que anunciassem o novo álbum “Arirang”, um novo documentário e uma turnê mundial, que inclui três shows no Brasil.
Desde sua criação, o BTS não mediu esforços para conquistar o sucesso que almejava. Sua jornada foi marcada por muitas dificuldades, pressões — muitas vezes vinda deles mesmos — e amadurecimento constante. Essas etapas que viveram não marcaram apenas suas vidas pessoais, mas também sua trajetória como banda, influenciando diretamente nas músicas e nos fãs. Em cada álbum, clipe ou show, eles buscavam novos limites e novas maneiras de ultrapassá-los, sem esquecer de sua história e o que os motivou a chegar onde chegaram.
Os fãs, o incentivo do próprio país e os prêmios foram apenas consequências do trabalho que eles realizavam desde 2013. Agora, após conhecerem novas identidades artísticas, enfrentarem novos desafios nunca imaginados no serviço militar e, principalmente, se despedirem dos jovens de vinte e poucos anos que ainda tentavam entender a vida, o BTS volta com novas mensagens, mentalidades, e visões de mundo,
De acordo com o site oficial da HYBE, o novo álbum “define a direção que os membros seguirão daqui para frente”. Todos os sete estiveram envolvidos na criação de todo o conceito e das composições, “infundindo seus próprios pensamentos e identidades, ao mesmo tempo que expressavam as emoções e reflexões que vivenciaram ao longo de sua jornada.”
Com base na evolução que tiveram desde sua estreia, é justo dizer que seu retorno promete novidades na música, na composição e, quem sabe, até mesmo um novo modelo para a indústria do K-pop.