Histórias de fantasia sempre foram marcadas por heróis inesquecíveis. Personagens que atravessam gerações, empunham espadas, lideram batalhas e se tornam símbolos de coragem, honra e sacrifício. No entanto, entre tantos nomes celebrados, existe um herói cujas camadas e nuances raramente são lembradas ou debatidas com a atenção que merecem. E um deles é  Pedro Pevensie, dos filmes As Crônicas de Nárnia

As Crônicas de Nárnia nasceram primeiro na literatura. A série foi escrita pelo autor britânico C. S. Lewis e publicada entre 1950 e 1956, tornando-se rapidamente um dos universos de fantasia mais influentes do século XX. Ao todo, são sete livros que misturam aventura, mitologia, alegorias religiosas e reflexões sobre amadurecimento, responsabilidade e moralidade.

Pedro Pevensie surge logo no livro que apresentou Nárnia ao mundo: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, publicado em 1950. Como o mais velho dos quatro irmãos Pevensie, Pedro assume desde o início um papel de liderança, ainda que relutante, sendo colocado diante de desafios que exigem coragem, tomada de decisões difíceis e, sobretudo, crescimento emocional. A história teve um impacto imediato, conquistando leitores de diferentes idades e atravessando décadas como uma das fantasias mais lidas e traduzidas do mundo.

Adaptação de 2005

Décadas depois, o universo criado por Lewis ganhou uma nova vida no cinema. Em 2005, As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa chegou às telas em uma grande adaptação produzida pela Walt Disney Pictures, em parceria com a Walden Media. A direção ficou a cargo de Andrew Adamson, conhecido por seu trabalho na franquia Shrek. A produção apostou em efeitos visuais ambiciosos, cenários grandiosos e um elenco jovem para apresentar Nárnia a uma nova geração, transformando a obra em um fenômeno de bilheteria e consolidando a saga como uma das grandes franquias de fantasia dos anos 2000.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa acompanha os irmãos Pevensie — Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia — durante a Segunda Guerra Mundial, quando são enviados para o interior da Inglaterra e acabam descobrindo, por acaso, o mundo mágico de Nárnia através de um guarda-roupa encantado. Lá, o reino vive sob o domínio da Feiticeira Branca, que mantém tudo congelado em um inverno eterno. Com a ajuda de Aslan, o grande leão e figura central da mitologia da saga, as crianças são levadas a cumprir uma antiga profecia que prevê o retorno da paz a Nárnia.

Poster oficial do filme O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005)

Seu impacto foi imediato: a adaptação se tornou um enorme sucesso de público, arrecadando centenas de milhões de dólares ao redor do mundo e se consolidando como uma das maiores bilheterias de 2005, além de apresentar Nárnia a toda uma nova geração de espectadores.

Três anos depois, a história continuou em As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian, lançado em 2008. O filme também foi dirigido por Andrew Adamson e mostra os irmãos Pevensie retornando a Nárnia muito tempo depois de terem sido coroados reis e rainhas — embora, no mundo real, apenas um ano tenha se passado. Eles encontram um reino profundamente transformado: Nárnia foi conquistada pelos telmarinos, e as criaturas mágicas foram expulsas ou forçadas a se esconder.

A trama gira em torno do jovem príncipe Caspian, herdeiro legítimo do trono, que busca restaurar a antiga Nárnia com a ajuda dos Pevensie. O tom do segundo filme é mais sombrio e político, com batalhas e conflitos morais mais complexos.  A triologia se encerrou com o filme As Crônicas de Nárnia: A Viagem ao Peregrino da Alvorada, lançado em 2010.

Personalidade do Pedro Pevensie

Pedro não é só o irmão que conduz batalhas ou aparece à frente dos conflitos mais visíveis de Nárnia. Embora muitas vezes lembrado apenas por sua postura de líder e por empunhar a espada em nome do reino, ele é um personagem repleto de camadas que raramente recebem o reconhecimento que merecem. A história pouco se detém em seus lados mais pessoais, deixando à margem as emoções, inseguranças e pressões que moldam suas decisões.

Ele carrega a responsabilidade de proteger, decidir e responder por todos. Ele sente a constante pressão de não falhar, de ser forte o suficiente e de manter o controle mesmo quando tudo desmorona ao seu redor. É justamente essa carga — a de alguém que precisa lidar com tudo e se responsabilizar por todos — que torna Pedro um personagem tão identificável. Sua força não está apenas nas batalhas que vence, mas no peso silencioso que aceita carregar.

O personagem é construído como o estereótipo clássico do irmão mais velho: ele carrega em si o peso da responsabilidade, a cobrança interna de sempre dar conta de tudo e a necessidade de não decepcionar ninguém. É um líder nato, aquele que pensa primeiro nos outros antes de pensar em si mesmo. Porém, essa liderança é marcada por uma constante pressão. Pedro se coloca num lugar em que falhar não é uma opção, e isso molda a forma como ele age em cada decisão e em cada batalha.

Em uma entrevista concedida ao ScreenSlam na época do lançamento do primeiro filme, William Moseley também refletiu sobre a personalidade inicial de Pedro e o ponto de partida emocional do personagem. Segundo o ator, Pedro surge como o irmão mais velho que carrega o peso da responsabilidade familiar desde cedo, sempre tentando corresponder às expectativas e fazer aquilo que acredita ser o correto. 

“Pedro é o irmão mais velho. Ele começa como esse jovem menino que sempre está tentando agradar sua mãe, sempre tentando fazer o que é certo para sua família, o que ele acredita ser certo. (…) Quando Pedro entra no guarda-roupa, ele é um menino; quando ele sai, ele é um homem.”

Esse traço da personalidade de Pedro pode ser percebido logo no início de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa. Enquanto aviões sobrevoam a cidade e bombas caem ao redor, a família Pevensie corre em direção ao abrigo antiaéreo. No meio do caos, Edmundo — imprevisível e impulsivo, fiel à sua própria essência — volta para dentro da casa para buscar uma fotografia do pai. Sem hesitar, Pedro corre atrás do irmão e o traz de volta para a segurança.

Pedro grita, chama Edmundo de egoísta e questiona por que ele nunca consegue obedecer. À primeira vista, o momento pinta Pedro como alguém bruto ou excessivamente autoritário. Mas, na verdade, essa explosão funciona como um dos primeiros ápices de seu esgotamento emocional. Pedro já carrega responsabilidades demais para a sua idade e, por isso, se irrita profundamente quando Edmundo não consegue assumir nem uma fração desse peso. Ele precisa ser responsável o tempo todo — logo se frustra quando Edmundo não consegue obedecer a ordens simples. 

Na cena seguinte, esse peso ganha contornos ainda mais claros. Na estação de trem, os irmãos se despedem da mãe antes de partirem para o interior, em uma tentativa de se afastar da guerra. No abraço de despedida, ela entrega a Pedro a frase que vai moldar seu destino: “Prometa que vai tomar conta deles.” 

Ao entrar na fila para embarcar, há um instante breve, mas revelador. Pedro observa os soldados que chegam à estação, como se procurasse entre eles o rosto do pai. É um momento silencioso de fragilidade que contrasta com sua postura rígida anterior. A cena deixa claro que, apesar de julgar Edmundo por sua impulsividade, Pedro também carrega a mesma saudade, a mesma angústia e o mesmo vazio. A diferença é que ele aprendeu — ou foi obrigado — a engolir esses sentimentos para cumprir o papel que lhe foi imposto.

Essa leitura também se reflete em uma interpretação bastante difundida entre fãs e leitores da obra: a de que os títulos concedidos por Aslan aos irmãos Pevensie no momento de sua coroação representam não aquilo que eles acreditam ser, mas justamente o que não conseguem enxergar em si mesmos. Susana, chamada de “a Gentil”, luta contra a própria impaciência; Edmundo, “o Justo”, carrega a culpa de ter sido um traidor; Lúcia, “a Destemida”, frequentemente duvida da própria coragem. Pedro, por sua vez, é nomeado “o Magnífico” em contraste direto com sua sensação constante de insuficiência. 

Não se trata de uma afirmação literal do texto, mas de uma interpretação simbólica poderosa — especialmente quando se entende Aslan como uma figura que enxerga além da autopercepção limitada dos personagens. Para Pedro, esse título funciona quase como um espelho invertido: ele é magnífico, apesar de muitas vezes se enxergar como alguém não especial.

Pedro no segundo filme

As Crônicas de Nárnia: Príncipe Caspian apresenta um tom mais sombrio e amadurecido em relação ao primeiro filme. É dentro desse novo contexto que Pedro surge como um personagem ainda mais complexo e repleto de nuances. Isso acontece porque, ao final de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, é revelado que ele e os irmãos passaram anos governando Nárnia, cresceram até a vida adulta e lideraram batalhas como reis e rainhas antes de retornarem, pelo guarda-roupa, ao mundo real — recuperando instantaneamente suas idades originais

Apesar da aparência jovem, Pedro carrega dentro de si a mentalidade de um rei adulto que governou um reino inteiro por anos, tomou decisões políticas e liderou exércitos. Ao voltar para a Inglaterra, ele retorna ao corpo de um adolescente, mas a maturidade, o senso de dever e o peso de suas experiências permanecem intactos.

Um ano depois, no início do segundo filme, essa contradição se traduz em irritação constante. Pedro passa todo esse tempo sendo tratado como um garoto inexperiente — algo que ele definitivamente não é. A frustração de não ser levado a sério, somada à perda simbólica de seu papel como líder, molda uma postura mais rígida, orgulhosa e reativa.

Essa transformação interna do personagem também foi comentada por William Moseley, intérprete de Pedro, em uma entrevista concedida à Newsarama durante a Comic-Con International de 2008. Segundo Moseley, o arco de Pedro se afasta deliberadamente da figura idealizada do primeiro filme para revelar conflitos de ego, raiva e decisões equivocadas, tornando-o mais humano e contraditório.

“Meu papel está muito diferente do que no primeiro filme. Pedro no primeiro era obviamente muito bonzinho, muito empático, e nesse filme ele está um pouco egoísta. Ele está com raiva, com problemas de ego e não está tendo bons julgamentos.”

Isso fica evidente logo na primeira cena de Príncipe Caspian, quando Pedro se recusa a pedir desculpas a um jovem que esbarra nele. À primeira vista, o momento pode soar como teimosia ou exagero adolescente. Mas, sob outra perspectiva, não é um garoto batendo de frente com outro — é um rei adulto sendo desrespeitado. Para Pedro, aquele instante parece ser a gota d’água após um ano inteiro marcado pela sensação de invisibilidade e pela perda de autoridade, um conflito interno que o filme passa a explorar de forma mais intensa.

Relação Pedro x Aslam

William Moseley em cenas do filme O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa (2005)

A relação de Pedro com Aslam em Príncipe Caspian é marcada por distanciamento, descrença e uma sensação profunda de abandono. Quando os irmãos retornam a Nárnia, encontram um mundo irreconhecível: o reino foi tomado pelos telmarinos, Cair Paravel está em ruínas, os lugares que antes simbolizavam segurança e pertencimento desapareceram. Mais do que isso, a magia parece ter se esvaído, e Aslam — figura de guia, proteção e autoridade — não está em lugar algum.

Para Pedro, há um sentimento claro de ter sido deixado para trás, quase como a experiência de um filho que foi abandonado pelo pai. Essa ferida aprofunda sua rigidez emocional e reforça um traço já presente em sua personalidade: a dificuldade em admitir que precisa de ajuda.

Pedro carrega o vício de tentar resolver tudo sozinho, como se pedir auxílio fosse sinônimo de fraqueza ou falha pessoal. Ao mesmo tempo, essa postura nasce da insegurança constante de não saber se, de fato, consegue lidar com tudo sem apoio. O resultado é um personagem permanentemente irritado, na defensiva, reagindo como se estivesse sempre sendo testado ou atacado.

Em Príncipe Caspian, a ausência de Aslam não apenas enfraquece a fé de Pedro, mas expõe suas fragilidades mais profundas: o medo de não ser suficiente, a dificuldade de confiar e a solidão de quem acredita que precisa sustentar o mundo sozinho — mesmo quando esse mundo já desmoronou.

Essa frustração que atravessa Pedro ao longo de Príncipe Caspian foi comentada pelo diretor Andrew Adamson. Em uma entrevista concedida ao NarniaWeb em 2008, ele falou sobre como essa transição forçada entre fase adulta e adolescência foi central para a construção do personagem no segundo filme. 

“Quando li o livro pela primeira vez, pensei: ele foi rei por 15 anos e agora precisa voltar a fazer dever de casa. Eu não lidaria bem com isso. E, para o Pedro, foi uma chance de se reafirmar, uma chance de provar a si mesmo novamente. Por isso, ele realmente não quer a ajuda de Aslam, porque isso significaria que ele precisava da ajuda de alguém. Ele queria provar que ainda era o Alto Rei e, por isso, foi o último a admitir: ‘Ok, eu preciso de ajuda.’”

Toda essa pressão que Pedro impõe a si mesmo atinge o auge durante a tentativa de invasão ao castelo de Miraz. Ele elabora um plano estratégico, calculado e silencioso. No entanto, a operação começa a se desestabilizar quando Caspian, tomado pela descoberta de que seu tio foi o responsável pela morte de seu pai, rompe a lógica do plano e age movido pela emoção. Susana percebe que a situação fugiu do controle e pede que todos recuem. A resposta de Pedro — “eu ainda consigo” — revela de forma cristalina seu conflito interno: a incapacidade de aceitar o fracasso.

Essa dor que ele sente fica ainda mais explícita quando os narnianos ficam encurralados no castelo de Miraz. Para Pedro, esse é o maior pesadelo possível: falhar com aqueles que confiam nele, decepcionar aqueles que o seguem e, acima de tudo, ser responsável pela perda de pessoas que ele ama. Metade do seu exército fica preso diante dos seus olhos, e esse peso é ainda maior porque, por mais que ele quisesse ajudar, não havia o que fazer. 

O detalhe de ele não ter atravessado a ponte de primeira, como todos os outros, torna a cena ainda mais simbólica da sua personalidade. Pedro fica no início, não por hesitação, mas porque precisa se certificar de que todos estavam a salvo. É um gesto pequeno, mas que revela muito: ele é o único que não atravessa porque é o único que para para olhar, para garantir, para se responsabilizar. Esse traço reforça sua essência de irmão mais velho — alguém que se coloca sempre no papel de guardião.

E, no fim, é justamente nesse peso, nesse senso de responsabilidade que o define, que se revela não apenas a essência do irmão mais velho, mas a de um verdadeiro rei.

Relação Caspian x Pedro

William Moseley e Ben Barnes em cenas do filme O Príncipe Caspian (2008)

A relação entre Pedro e Caspian é marcada por tensão e conflito, sobretudo porque Pedro não é apenas um adolescente comum, como muitos à primeira vista interpretam. Quando volta à Nárnia, Pedro acredita que esse peso é reconhecido novamente. E de fato, os narnianos o veem como um líder, apesar da aparência jovial. Porém, Caspian frequentemente rompe essa lógica, tratando Pedro como seu igual. É aí que surge a raiz do conflito: para Pedro, não se trata só de uma disputa de ego, mas da falta de reconhecimento de uma experiência que vai muito além da idade que aparenta ter. 

A diferença de mentalidade entre os dois é clara. Caspian, ainda inexperiente, se deixa levar pelas emoções, como quando perde o controle e tenta matar Miraz ao descobrir que ele assassinou seu pai. Embora a reação seja compreensível em termos humanos, não é cabível no momento em que você está sendo responsável pela vida de milhares de pessoas. Um rei não pode se dar ao luxo de se desestabilizar dessa forma. Pedro nunca comprometeria um plano de guerra para resolver assuntos pessoais — e não apenas porque acumulou anos de experiência, mas porque, mesmo quando era de fato um adolescente, já demonstrava essa racionalidade. No primeiro filme, quando Edmundo foi capturado, Pedro não se lançou impulsivamente ao castelo; ele ouviu os conselhos dos castores e pensou de forma estratégica, provando que desde cedo possuía a calma e a lógica de um verdadeiro líder.

A relação entre Pedro e Caspian também passa por uma transformação decisiva a partir do momento em que o jovem príncipe é enganado e quase ressuscita a Feiticeira Branca. Até então, Caspian demonstra impaciência, raiva do tio e uma vontade constante de liderar, muitas vezes questionando ou atropelando as decisões de Pedro e dos irmãos. É apenas diante das consequências desse erro que ele começa, de fato, a reconhecer seu lugar e a respeitar a liderança de Pedro.

Durante esse episódio, Pedro intervém para salvar Caspian, mas acaba sendo encantado pela Feiticeira Branca. O que ela diz para desestabilizá-lo atinge exatamente seu ponto mais frágil: “Você sabe que não consegue sozinho.” A frase ecoa tudo aquilo que Pedro tenta negar desde o início do filme. Logo em seguida, ele é salvo por Edmundo.

A partir desse momento, Caspian recua. Sua raiva pelo tio diminui, assim como a necessidade de se impor como líder a qualquer custo. Ele passa a compreender a importância da retaguarda e deixa de atravessar as decisões de Pedro, apenas dando sugestões.

Para Pedro, o impacto é ainda mais profundo. O encontro com a Feiticeira o obriga a encarar uma verdade que ele vinha evitando: há situações em que ele não consegue sozinho — e tudo bem. Reconhecer a ajuda dos outros não o enfraquece como líder, pelo contrário, o humaniza. Esse amadurecimento fica claro quando ele agradece Edmundo, reconhecendo que o irmão sempre esteve ao seu lado, mesmo nos momentos mais difíceis.

Esse episódio também marca uma reconexão silenciosa de Pedro com sua fé em Aslam. Pouco depois, ele é visto diante da escultura do leão na tumba, em um gesto de respeito e esperança. Em uma conversa com Lúcia, Pedro admite que ela é sortuda por ter visto Aslam e confessa que só queria algum sinal, alguma prova de que ele ainda estava ali. A resposta de Lúcia é simples e definitiva: não é Aslam quem precisa se provar — são eles. A partir dali, Pedro começa, enfim, a baixar a guarda.

William Moseley e Ben Barnes em cenas do filme O Príncipe Caspian (2008)

Essa transformação se consolida no momento da despedida. Ao deixarem Nárnia, Pedro entrega sua espada a Caspian — um gesto simples, mas profundamente simbólico. A espada, que sempre representou sua autoridade, sua responsabilidade e sua necessidade de controle, deixa de ser um escudo contra o medo de ser substituído. Ao passá-la adiante, Pedro demonstra que já não se sente ameaçado, que confia no novo rei e que entende que liderança também é saber ceder espaço. É o encerramento de um arco marcado pela insegurança, pelo orgulho e, finalmente, pela aceitação de que ele não precisa carregar tudo sozinho.

Esse aprendizado mútuo entre os dois personagens também foi abordado por William Moseley em entrevista à MTV, durante a Comic-Con International de 2008. Segundo o ator, a relação entre Pedro e Caspian é construída a partir do conflito, justamente porque ambos refletem versões semelhantes de liderança e orgulho em momentos diferentes da vida. O choque entre eles expõe egos inflados, inseguranças e disputas por controle, mas também abre espaço para um amadurecimento necessário. 

“Ele aprende essa lição muito valiosa. Ele conhece Caspian, que é meio similar a ele na época, e eles não se dão bem. Eles têm um grande desentendimento e é quando acontece esse momento muito humilhante e triste no filme que Caspian e Pedro se unem. Em vez de tentarem se dividir, eles tentam realmente salvar Nárnia e não os próprios egos.”

Na entrevista concedida ao site NarniaWeb em 2008, o diretor Andrew Adamson comentou justamente sobre a transformação do personagem ao longo de Príncipe Caspian. Ao ser questionado sobre qual personagem mais mudou durante o filme, Adamson apontou Pedro e destacou a importância simbólica da cena final em que ele entrega a espada a Caspian. 

“Essa é uma boa pergunta. Acho que é o Pedro, na verdade. Porque ele está saindo da posição de Alto Rei… Quero dizer, a cena em que ele entrega a espada para Caspian é o maior sinal dessa mudança. Ele viveu por 15 anos como esse Alto Rei, conquistando gigantes, todas essas coisas. E agora ele precisa passar isso adiante e aceitar que vai voltar a ser apenas um estudante. É algo bem difícil de lidar.”

Conclusão

Pedro representa o peso de crescer rápido demais, de ser forte quando ninguém mais pode ser e de aprender, aos poucos, que liderança não é sinônimo de solidão. Justamente por isso, As Crônicas de Nárnia mereciam ter sido mais desdobradas no cinema. Mais filmes significariam mais tempo para explorar personagens tão complexos quanto ele — figuras que encontram força na humanidade.