Um país que aprende a seguir em frente

Na noite de 15 de março de 2026, durante a cerimônia do Academy Awards, o cinema brasileiro chegou à premiação com expectativas altas. Indicado a quatro categorias, O Agente Secreto acabou saindo da cerimônia sem levar nenhuma estatueta. Em um cenário dominado por grandes produções internacionais, a derrota poderia facilmente transformar o filme em apenas mais um título que passou pelo Oscar e seguiu seu caminho silenciosamente para o esquecimento. No entanto, algumas obras resistem a esse destino. Mesmo sem o reconhecimento final da premiação, O Agente Secreto permanece como um dos filmes brasileiros mais provocativos dos últimos anos, não apenas por sua narrativa política, mas pela forma como dialoga com uma questão profundamente brasileira: nossa relação instável com a memória.

Há algo de contraditório na maneira como o Brasil lida com o próprio passado. Um país que se construiu sobre histórias de luta, resistência e sobrevivência, mas que, ao mesmo tempo, raramente olha para trás com a intensidade necessária para reconhecer essas histórias. No cotidiano nacional, a memória frequentemente parece diluída. Eventos que deveriam gerar indignação ou orgulho coletivo se transformam rapidamente em lembranças distantes, quase apagadas.

Essa relação frágil com o passado não é apenas uma questão histórica; ela também é cultural. A memória coletiva brasileira parece sempre em disputa, como se o país estivesse constantemente tentando decidir o que deve ser lembrado e o que é mais fácil esquecer.

É nesse terreno delicado que surge O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura. Ambientado no Brasil de 1977, durante a ditadura militar, o filme acompanha Armando (que passa grande parte do filme com o nome falso Marcelo), um especialista em tecnologia que retorna ao Recife tentando escapar de um passado misterioso. 

Mais do que um thriller político, o filme funciona como uma reflexão sobre memória, silêncio e transmissão entre gerações. Ao observar a trajetória de Marcelo e sua relação com o próprio filho, a narrativa apresenta uma pergunta desconfortável: o que acontece com as histórias que ninguém conta?

Wagner Moura em poster de divulgação de “O Agente Secreto”

Cinema como documento da memória

Ao longo de sua filmografia, Kleber Mendonça Filho tem demonstrado um interesse recorrente pelo passado e pela maneira como ele permanece presente no cotidiano. Em entrevista recente para a emissora de rádio espanhola Cadena SER, o diretor afirmou que o Brasil tem um problema com a memória e o cinema sempre é um documento.

A frase resume uma percepção compartilhada por muitos estudiosos da cultura brasileira: a de que o país frequentemente evita confrontar seu passado de maneira direta. Diferentemente de outras nações latino-americanas que criaram processos institucionais amplos de memória histórica, o Brasil muitas vezes prefere seguir adiante sem revisitar completamente as marcas deixadas por períodos de violência política.

O cinema, nesse contexto, assume um papel fundamental. Filmes tornam-se registros emocionais e culturais de experiências que nem sempre encontram espaço nos discursos oficiais. Não é por acaso que obras brasileiras frequentemente retornam à história recente — especialmente à ditadura militar — para investigar as consequências desse período.

Em O Agente Secreto, essa investigação aparece de forma indireta, através de uma narrativa que mistura suspense político, memória pessoal e reconstrução histórica. O filme se passa em Recife no final da década de 1970, momento em que o país ainda vivia sob a repressão do regime militar e em que muitos cidadãos experimentavam medo, vigilância e perseguição política. 

A escolha desse cenário não é casual. Trata-se de um período decisivo da história brasileira, marcado por repressão e resistência — um passado que, apesar de recente, muitas vezes permanece distante da consciência coletiva.

Histórias que sobrevivem em silêncio

Cena do filme “O Agente Secreto”

Um dos elementos mais significativos do filme é a relação entre gerações. No centro da narrativa está Marcelo, personagem de Wagner Moura, um professor universitário que retorna à sua cidade natal depois de anos distante. Ao voltar, ele carrega consigo uma ameaça constante: está sendo perseguido por assassinos de aluguel desde sua passagem por São Paulo.

Marcelo tenta encontrar alguma segurança enquanto busca proteger o filho pequeno,  Fernando, que mora com os avós maternos. Em meio à constante vigilância, perigo, identidades falsas, fugas e lendas urbanas que parecem ganhar vida, ele leva uma existência secreta e fragmentada e uma vida desconhecida para o filho, que, mesmo na idade adulta, não demonstra nenhum interesse em compreender o passado e as experiências que marcaram a trajetória do pai.

Esse contraste entre experiência vivida e memória transmitida é um dos aspectos mais fortes da obra. O personagem principal carrega uma história complexa, enquanto a geração seguinte parece distante dessa trajetória.

Essa distância não é apenas um elemento narrativo; ela também dialoga com uma realidade brasileira. Muitas famílias no país carregam histórias extraordinárias que raramente são contadas de forma completa. Avós e bisavós atravessaram períodos de grande violência social e política, participaram de movimentos de resistência ou enfrentaram condições extremas de sobrevivência — e, ainda assim, essas experiências frequentemente permanecem fragmentadas dentro da memória familiar.

Com o passar do tempo, essas histórias deixam de ser transmitidas e se transformam em silêncios.

Nesse sentido, o final de O Agente Secreto — frequentemente criticado por parte do público — pode ser entendido de outra maneira. Em vez de oferecer uma resolução grandiosa ou dramática, a narrativa termina de forma quase cotidiana, como se os acontecimentos simplesmente se dissolvessem no fluxo da vida.

A normalização do extraordinário

A história do Brasil é marcada por eventos que, em qualquer outra sociedade, talvez ocupassem um lugar central na memória nacional. Revoltas populares, processos de resistência política, movimentos sociais e trajetórias individuais de coragem fazem parte da construção do país.

Ainda assim, muitas dessas histórias permanecem pouco conhecidas.

Milhares de brasileiros enfrentaram perseguições políticas durante a ditadura, participaram de redes clandestinas de solidariedade ou arriscaram suas vidas para defender princípios e direitos. Entretanto, essas narrativas raramente ocupam o espaço simbólico que poderiam ter na construção da identidade nacional.

Em muitos casos, essas experiências foram absorvidas pela vida cotidiana como se fossem apenas mais um capítulo da história — algo que aconteceu, mas que não precisa necessariamente ser lembrado com intensidade.

É exatamente essa sensação que o final de O Agente Secreto reproduz. O desfecho não transforma o protagonista em um herói celebrado nem em uma figura histórica amplamente reconhecida. Sua trajetória permanece quase invisível, conhecida apenas por poucos personagens e praticamente ausente da memória coletiva.

A consequência é profundamente simbólica: um homem que viveu acontecimentos extraordinários termina a história quase como um anônimo.

O Brasil como caricatura de si mesmo

Nesse sentido, o filme pode ser interpretado como uma grande caricatura do país. Não no sentido de exagero cômico, mas como uma representação simbólica que evidencia traços estruturais da sociedade brasileira.

Cena do filme “O Agente Secreto”

No filme, a presença do filho que pouco conhece a trajetória do pai, reforça essa ideia de ruptura entre passado e presente. O que para uma geração foi experiência direta (o medo, a resistência) para a geração seguinte pode parecer distante, quase abstrato.

Ao final, o filme deixa uma sensação ambígua. Por um lado, há a consciência de que muitas histórias permanecerão incompletas ou desconhecidas. Por outro, surge a percepção de que o simples ato de narrar essas experiências já representa um gesto importante.

O cinema, nesse contexto, funciona como uma forma de resistência contra o esquecimento. Ao reconstruir atmosferas, personagens e contextos históricos, ele cria um espaço em que memórias podem ser revisitadas e reinterpretadas.

Quando Kleber Mendonça Filho afirma que “o cinema é um documento”, ele aponta justamente para essa capacidade da arte de registrar aquilo que a história oficial por muitas vezes deixa escapar. 

O Agente Secreto não oferece respostas definitivas sobre o passado brasileiro. Em vez disso, o filme apresenta perguntas. Perguntas sobre memória, silêncio e transmissão entre gerações.

Talvez essa seja sua contribuição mais importante. Ao mostrar um país onde histórias extraordinárias podem desaparecer dentro da normalidade cotidiana, o filme convida o público a reconsiderar a própria relação com o passado.

Pois, afinal, a memória também depende das histórias que decidimos continuar contando.