Entre sapatos, lingeries, maquiagens e namorados questionáveis, O Diabo Veste Prada, filme de 2006, baseado no livro de mesmo nome de 2003, escrito por Aline Brosh McKenna, é uma combinação perfeita entre moda e empoderamento, autoconfiança e posicionamento. 

O filme acompanha Andrea Sachs (Anne Hathaway), uma jovem recém formada que consegue o emprego dos sonhos de muitas garotas — menos dos dela: Trabalhar na          Runaway Magazine, a maior revista de moda de Nova York, como assistente da editora-chefe Miranda Priestly (Meryl Streep). No entanto, acaba percebendo que não é tão fácil ser bem sucedida na nova vida profissional mantendo a mesma vida social que levava antes. 

Andrea, ou Andy, é apresentada como uma personagem que não se encaixa naquele mundo da moda em que a revista Runaway vive e comanda. Ela não sabe nada sobre roupas e muito menos sapatos, mas é contratada justamente por isso: por ser diferente. Miranda vê nela uma oportunidade de ter finalmente uma assistente competente, enquanto  Andy vê em Miranda a chance de fazer contatos e conseguir seu tão sonhado emprego como jornalista.

Entretanto, para que possa se manter neste trabalho , que guarda tantas oportunidades para uma jovem recém saída da faculdade e com sede de sucesso, Andy precisa se adaptar ao ambiente altamente hierárquico e emocionalmente exigente que é o universo da moda. E é nesse ponto que o filme se torna mais real do que nunca. 

Pode parecer, à primeira vista, que O Diabo Veste Prada é apenas um retrato glamouroso (e ácido) do mundo da moda. Mas, sob a superfície de looks impecáveis e desfiles, o filme constrói uma narrativa bastante incisiva sobre pressão psicológica no ambiente de trabalho — especialmente aquela vivida por mulheres — e a solidão que muitas vezes acompanha esse processo. 

O preço da adaptação 

No primeiro ato do filme, Andy resiste à se moldar àquele ambiente, mas o jogo do sucesso não para e, em determinado momento do longa, a recém jornalista percebe que se não aprender a jogá-lo, vai ser prejudicada. Então, ela passa por um processo de internalização dessas regras: ela muda seu estilo, seus valores e até sua ética profissional para se adequar. Andy sabe que está abrindo mão de partes de si mesma, mas racionaliza esse comportamento como necessário para o sucesso. Esse tipo de conflito é extremamente comum em ambientes de trabalho competitivos, onde há uma pressão implícita para “dar conta de tudo” e, o mais importante, sem reclamar.

De acordo com Ylana Miller, especialista em liderança feminina que deu uma entrevista para o jornal O Globo,  “mulheres são mais afetadas pela síndrome de burnout por conta da combinação de fatores como dupla jornada de trabalho, acúmulo de funções domésticas, familiares e profissionais, além de enfrentarem assédio, discriminação de gênero e falta de reconhecimento”. A trajetória de Andy ilustra esse acúmulo de forma quase didática: ela não apenas trabalha mais, mas passa a viver em função do trabalho. 

A partir dessa transformação, Andy passa a receber, finalmente, certo conhecimento de Miranda Priestly, cuja frieza não é apenas um traço de personalidade, mas uma representação simbólica de um sistema que recompensa a dureza e pune a vulnerabilidade. Apesar de ser a “vilã”, ela encarna uma mulher que chegou ao topo em um sistema historicamente dominado por homens e que, para isso, precisou adotar comportamentos tradicionalmente associados à masculinidade, como rigidez extrema e distanciamento emocional. Psicologicamente, ela pode ser vista como alguém que reproduz o mesmo modelo que a formou, perpetuando um ciclo de exigência e frieza. Há, inclusive, momentos em que o filme sugere que essa postura tem custos pessoais altos, especialmente em sua vida afetiva. A própria Meryl Streep comentou, em entrevista ao canal do The New York Times, que “se a Miranda Priestly fosse Michael Priestly, nem existiria um filme”. A frase, simples e direta escancara uma questão estrutural: homens em posições de poder raramente são questionados por comportamentos que, quando reproduzidos por mulheres, são vistos como excessivos ou problemáticos.

Miranda, nesse sentido, não é apenas uma personagem, ela é um produto de um sistema que exige que mulheres em posições de liderança sejam mais duras, mais resistentes, mais impenetráveis. Sua frieza pode ser interpretada como uma estratégia de sobrevivência em um ambiente que não permite falhas.

E talvez o maior indício de que essa personagem ultrapassa a ficção esteja na forma como o próprio mundo da moda reagiu ao filme. Embora O Diabo Veste Prada seja ambientado no universo fashion, muitos estilistas e nomes influentes evitaram aparecer como eles mesmos, temendo desagradar Anna Wintour (jornalista, escritora e que por 37 anos, exerceu a função de editora-chefe da Vogue), amplamente apontada como inspiração para Miranda Priestly. Ainda assim, diversas marcas aceitaram ceder roupas e acessórios, o que contribuiu para que o longa se tornasse um dos mais sofisticados em termos de figurino da história do cinema.

Meryl Streep e Anna Wintour

Esse movimento curioso entre o receio e a validação reforça o quanto Miranda se aproxima de uma figura real e, mais do que isso, o quanto o poder que ela representa não é exagero narrativo, mas reflexo de uma estrutura concreta, onde influência e reputação caminham lado a lado com medo e admiração.

Sozinha, mesmo acompanhada 

Mas há um detalhe importante: ao mesmo tempo em que Miranda desafia estruturas, ela também as perpetua. Ao exigir de Andy o mesmo nível de entrega absoluta que foi exigido dela, ela reproduz um ciclo de pressão e desgaste que dificilmente se rompe. A partir disso, Andy se vê dentro de um sistema completamente rigoroso, passando não apenas a percebê-lo, mas a fazer parte dele. 

À medida que essa transformação acontece, suas relações pessoais começam a se deteriorar. Seus amigos e seu namorado, Nate, não acompanham e não compreendem a dimensão da pressão que ela está vivendo. Eles falham em compreender a complexidade da situação dela. Em vez de oferecer suporte, muitas vezes julgam, minimizam suas experiências ou até a ridicularizam por estar dando o melhor de si mesma para um trabalho que, a primeira vista, poderia ser o oposto do que ela gostaria, como na cena em que pegam o seu telefone quando ela recebe uma ligação de Miranda, deixando-a desesperada. Isso reforça uma sensação de isolamento psicológico: Andy está cercada de pessoas, mas emocionalmente sozinha. Eles acreditam estar fazendo o melhor por ela, uma vez que o trabalho que sempre sonhou está longe de ser na Runaway Magazine, mas esse é o ponto; se realmente se importassem, compreenderiam que Andy, no meio desse processo, passou a enxergar valor no universo da moda, desenvolvendo admiração por ele e, mais do que isso, encontrando seu próprio lugar dentro desse mundo. Esse aspecto reflete uma realidade frequente para muitas mulheres que enfrentam ambientes profissionais tóxicos: a dificuldade de encontrar validação, seja no trabalho ou fora dele. 

Assim, o filme utiliza o universo da moda como metáfora para algo muito mais amplo: a pressão para performar excelência constante, a cobrança estética e comportamental, e a dificuldade de manter a própria identidade em meio a expectativas externas. No fim, a decisão de Andy de se afastar daquele ambiente não é apenas narrativa, mas também simbólica. Representa um rompimento com um sistema que exige demais e oferece demais   .

Mais do que um “filme sobre moda”, O Diabo Veste Prada é, portanto, um retrato psicológico de um tipo de sucesso que cobra um preço alto e, para muitas mulheres, esse preço inclui abrir mão de si mesmas.