Existem séries que nos prendem pela trama. Outras, pelo romance. E existem aquelas que nos deixam incapazes de assistir apenas um episódio porque oferecem algo que parece surpreendentemente raro: personagens que sabem o que fazer com os próprios sentimentos.

A mais nova série do Prime Video, Off Campus, vem conquistando milhares de fãs ao redor do mundo e, apesar de parecer seguir uma fórmula bastante conhecida, de atletas populares, romances universitários, festas, amizades e uma boa dose de drama, logo revela algo diferente: personagens que conversam, refletem sobre seus sentimentos e, surpreendentemente, tomam boas decisões. A série, baseada nos livros de Elle Kennedy, acompanha a vida de estudantes da fictícia Universidade Briar, especialmente um grupo de jogadores de hóquei cujas histórias amorosas se tornam o centro da narrativa. E,entender o porquê do grande sucesso que a série está conquistando, requer uma análise um pouco mais profunda de como os personagens — principalmente masculinos — foram construídos. 

Apesar do carisma dos protagonistas, o que torna a adaptação dos livros da canadense tão diferente é justamente aquilo que, à primeira vista, deveria ser comum: seus personagens sabem lidar com as emoções. Parece até algo simples, mas não é.

Durante anos, o espectador foi condicionado por filmes, séries e livros a esperar que personagens masculinos lidem com conflitos emocionais de maneira desastrosa. O homem apaixonado da ficção frequentemente é impulsivo, fechado emocionalmente, incapaz de comunicar o que sente ou, em casos mais extremos, transforma vulnerabilidade em agressividade, ciúme ou comportamentos destrutivos.

Não é difícil encontrar exemplos. Boa parte das séries dos anos 2000 construiu personagens masculinos profundamente traumatizados, melancólicos e emocionalmente reprimidos. Eles eram interessantes, complexos e muitas vezes extremamente queridos pelo público. Mas também carregavam uma grande dificuldade de expressar sentimentos de forma saudável.

Nessa época, até mesmo as séries e filmes mais progressistas partiam de personagens emocionalmente contidos como ponto de partida dramático. A obsessão masculina (ou em certos casos, a ausência dela) era o motor das tramas. Chuck Bass em Gossip Girl, Mr. Big em Sex and the City: homens que agiam por impulso, sem embasamento emocional consistente, e cuja imprevisibilidade era apresentada como charme. O problema não era só estético. Era que esses padrões iam se depositando na expectativa afetiva do mundo real. Isso não aconteceu por acaso.

Por muito tempo, a sociedade sustentou a ideia de que homens seriam naturalmente mais racionais do que as mulheres. Hoje, sabe-se que essa antiga crença não encontra fundamento sólido nas pesquisas contemporâneas sobre cognição e comportamento humano, porém, ainda deixa marcas profundas na sociedade e forma de viver. A neurocientista, Gina Rippon, questiona a ideia de que existiriam diferenças cerebrais capazes de determinar que um gênero seria naturalmente mais lógico ou mais emocional do que o outro, o que existe, muitas vezes, são diferenças de socialização. E é justamente aí que a ficção entra.

A construção dos personagens de Off Campus

Meninos são frequentemente ensinados, desde cedo, a esconder fragilidades. Chorar, demonstrar medo, falar sobre inseguranças ou expressar emoções costuma ser tratado como sinal de fraqueza. Essa construção cultural não fica restrita à vida real, ela também molda os personagens que vemos nas telas. E é isso que faz da nova série da Prime Vídeo tão refrescante.

A série apresenta homens que possuem traumas, inseguranças e conflitos pessoais, mas que não transformam tudo isso em crueldade ou distância emocional. O personagem Garrett Graham é um dos exemplos mais evidentes. Sua história familiar é marcada por dificuldades e experiências dolorosas. Em muitas produções, esse seria o ponto de partida para um protagonista frio, agressivo ou incapaz de confiar em outras pessoas. Entretanto, Garrett segue outro caminho. Sua vulnerabilidade não se transforma em arma contra os outros. Pelo contrário, ela o torna mais atento, mais empático e mais disposto a ouvir.

personagem Garret Graham de “Off Campus”

Há um momento particularmente interessante quando Hannah, seu par romântico na série, se afasta enquanto lida com questões pessoais. A lógica de grande parte das séries românticas nos ensinou a esperar uma reação impulsiva: cobranças, ressentimento ou algum gesto dramático que complique ainda mais a situação, mas isso não acontece. Quando Garrett finalmente a encontra, sua principal preocupação é tentar entender o que ela está vivendo e garantir que ela esteja bem. Pode parecer um detalhe pequeno, mas a realidade é que não é. 

É justamente essa quebra constante de expectativa que torna a série tão envolvente. O espectador passa episódios inteiros esperando que alguém tome uma decisão impulsiva, diga a coisa errada ou transforme um problema simples em uma tragédia emocional. Em vez disso, os personagens frequentemente escolhem conversar e isso gera uma sensação curiosa: alívio. O prazer de assistir Off Campus não está apenas no romance, está em observar personagens emocionalmente conscientes navegando em conflitos sem destruir tudo ao redor.

Belmond Camelli e Ella Bright como Garret Graham e Hannah Wells de “Off Campus”

O mesmo acontece com Dean DiLaurentis, que, à primeira vista, parece encaixar perfeitamente no arquétipo do “galã” universitário. É o personagem cercado por mulheres, seguro de si e aparentemente despreocupado com relacionamentos. Em muitas histórias, esse perfil costuma vir acompanhado de manipulação emocional, promessas vazias ou jogos de interesse, mas Dean é construído de forma diferente.

Desde o início, ele deixa claro suas intenções para as pessoas com quem se envolve, não criando falsas expectativas  e nem escondendo quem é. Mais interessante ainda é observar como ele lida com o surgimento de sentimentos que não estavam em seus planos. Em vez de recorrer a jogos emocionais ou à famosa confusão que move tantas narrativas românticas, ele escolhe a honestidade e, novamente, a série opta pela comunicação.

Stephen Klyn como Dean Di Laurentis em “Off Campus”

Em uma conversa com Garret, Dean surpreende mais uma vez os espectadores, indo pela direção oposta do que seria o esperado de seu personagem ao falar sobre sexo e prazer feminino. Enquanto muitas produções transformariam os personagens populares em caricaturas da masculinidade, a série apresenta uma discussão sobre intimidade e prazer que passa pela importância do conforto, da segurança e do respeito dentro de uma relação.

São pequenos detalhes que, somados, criam algo raro: personagens masculinos que permanecem confiantes, fortes e carismáticos sem abrir mão da sensibilidade. Os quatro amigos jogadores de hóquei, apesar do ambiente universitário competitivo e da constante presença de interesses amorosos, constroem uma relação de amizade que é marcada por incentivo mútuo, escuta e lealdade.

A mesma lógica aparece nas amizades femininas da trama. Hannah e Allie representam uma relação construída sobre apoio, respeito e acolhimento. Não existe competição artificial nem rivalidade gratuita. As duas crescem juntas ao longo da narrativa, respeitando os limites e o tempo uma da outra.

Off Campus em meio a solidão

Pode ser que o grande sucesso de Off Campus diga menos sobre a série e mais sobre quem a assiste uma vez que vivemos em uma época marcada por discussões sobre solidão, conexões humanas e relacionamentos. Ao mesmo tempo em que entendemos cada vez melhor o que esperamos de vínculos saudáveis, também nos deparamos com a dificuldade de encontrar essas experiências na vida real.

Stephen Kalyn e Mika Abdalla como Dean Di Laurentis e Allie Hayes em “Off Campus”

Em novembro de 2023, a Organização Mundial da Saúde declarou a solidão uma preocupação global de saúde pública, criando uma comissão internacional para tratar do problema. O isolamento social, acelerado pela pandemia, aprofundado pelas redes sociais, afeta especialmente jovens entre 13 e 29 anos, que representam a maior parte do público de Off Campus.

Nesse contexto, histórias funcionam como espelhos de desejos coletivos, e Off Campus é a prova de que a ficção não deve mais ignorar isso. A série faz muito bem ao não inventar personagens perfeitos. Garret tem traumas reais. Dean tem camadas que ainda estão sendo descobertas. A série não higieniza nada disso, ela apenas aponta que homens podem carregar tudo isso e ainda assim se comunicar de forma honesta, cuidar das pessoas que amam, e fazer isso sem que o roteiro precise tratá-los como exceções extraordinárias.

O vício em Off Campus pode ser visto como um sintoma de uma geração que finalmente sabe como quer ser amada, mas que, ao encontrar exemplos disso na ficção, percebe o quanto ainda sente falta de encontrar o mesmo fora dela.