O sucesso recente da série Heated Rivalry reacendeu uma conversa que já circula há anos entre leitores, fãs de séries e da cultura pop. A história de romance entre dois jogadores de hóquei conquistou uma base de fãs nas redes sociais — e chamou atenção por um detalhe curioso: grande parte desse público é formada por mulheres.

Poster da série Heated Rivarly (2025)

Esse fenômeno não é novo. Narrativas de romance entre dois homens vêm ganhando cada vez mais espaço na cultura pop contemporânea, seja na televisão, no streaming ou na literatura. Séries como Heartstopper e Young Royals, além do best-seller Red, White & Royal Blue, mostram como histórias centradas em relacionamentos masculinos se tornaram fenômenos de audiência e engajamento — muitas vezes impulsionados por comunidades majoritariamente femininas.

O interesse levanta uma pergunta que intriga pesquisadores de cultura pop, literatura e estudos de gênero: por que tantas mulheres se sentem atraídas por histórias de romance entre dois homens? A resposta envolve fatores que vão desde a forma como o romance é representado nessas narrativas até transformações culturais mais amplas na maneira como o público consome histórias de amor.

Exaustão da ausência de sensibilidade e vulnerabilidade em homens héteros

Kit Connor e Joe Locke em cenas da série Heartstopper (2022)

Um dos fatores mais citados é a forma como a sensibilidade masculina aparece nessas narrativas. Durante muito tempo, grande parte das histórias de romance heterossexual na cultura pop retratou homens emocionalmente distantes, pouco vulneráveis ou incapazes de expressar sentimentos de forma aberta. Para muitas espectadoras e leitoras, essa representação limitada acabou gerando um certo cansaço narrativo.

Nas histórias centradas em romances entre dois homens, por outro lado, é comum encontrar personagens que demonstram emoções com mais liberdade. Esses protagonistas frequentemente lidam com inseguranças, conflitos internos, medo de rejeição e momentos de entrega emocional, elementos que tornam os relacionamentos mais complexos e humanos. A masculinidade apresentada nessas histórias costuma ser menos rígida e mais flexível, permitindo que os personagens expressem afeto, fragilidade e desejo sem que isso seja tratado como uma ameaça à sua identidade.

Esse tipo de representação também desafia a ideia tradicional de que homens precisam manter uma postura emocionalmente impenetrável. Em muitos desses romances, a narrativa mostra personagens masculinos capazes de cuidar, dialogar, errar, pedir desculpas e se abrir emocionalmente. Para parte do público feminino, essa dinâmica oferece algo raro em muitas histórias românticas: homens que não têm medo de sentir.

Diversos estudos em psicologia e estudos de gênero apontam que a forma como a masculinidade tradicional é construída culturalmente pode limitar a expressão emocional masculina. Normas associadas ao ideal tradicional de masculinidade — como força, autocontrole e domínio — frequentemente desencorajam homens a demonstrar fragilidade ou falar abertamente sobre sentimentos.

Uma pesquisa publicada na revista Personality and Individual Differences aponta que esses padrões culturais incentivam o que os pesquisadores chamam de “restrição emocional masculina”, isto é, a tendência de homens evitarem demonstrar emoções consideradas vulneráveis. Como observam os autores do estudo, “normas tradicionais de masculinidade frequentemente desencorajam a expressão emocional, promovendo uma forma de autocontenção afetiva que pode limitar a intimidade nas relações”.

Essa percepção também foi comentada pelos próprios atores de Heated Rivalry. Em uma entrevista publicada em dezembro de 2025 pelo canal do site Them, o ator Connor Storrie falou sobre como esse debate aparece frequentemente entre fãs da série.

Durante a conversa, Storrie contou que viu recentemente uma influenciadora comentar sobre o assunto nas redes sociais. Segundo ele, a criadora de conteúdo sugeria que muitas mulheres se sentem atraídas por romances entre dois homens porque estão exaustas da representação tradicional do homem heterossexual nas histórias românticas. “Ela dizia que essa talvez seja a única forma de ver um tipo de masculinidade que parece acessível e interessante para elas”, relatou o ator, acrescentando que considera essa interpretação “um ponto muito válido” para pensar o fenômeno.

Connor Storrie e Hudson Williams em ensaio de fotos para o The New York Times.

O colega de elenco Hudson Williams, que interpreta Shane Hollander na série, também abordou a questão na mesma entrevista. Para ele, muitos romances heterossexuais ainda reproduzem dinâmicas bastante previsíveis. “Em relacionamentos heterossexuais, muitas vezes você cai nesses estereótipos em que a mulher é a pessoa que comunica e o homem é o cara fechado. Esse costuma ser o arquétipo que vemos”, explicou.

Williams observa que a dinâmica muda quando a história envolve dois personagens masculinos. “Quando são dois homens, bem, alguém vai ter que se comunicar. A comunicação precisa acontecer e algum desses filhos da mãe vai ter que fazer isso. As pessoas pensam: ‘Ah, então homens são capazes de se comunicar — eles não são completamente incompetentes’.”

Distanciamento das dinâmicas de poder de relações heterossexuais

Omar Rudberg e Edvin Ryding em poster da série Young Royals (2021)

Outro elemento frequentemente mencionado por pesquisadoras e leitoras é que romances entre dois homens afastam parte das complexidades sociais que costumam atravessar narrativas de relacionamentos heterossexuais.

Quando uma história acompanha um casal formado por um homem e uma mulher, inevitavelmente entram em cena expectativas sociais profundamente enraizadas. Ao longo de séculos, papéis de gênero foram culturalmente associados a cada um desses personagens: quem lidera, quem cuida, quem se comunica mais, quem demonstra vulnerabilidade ou quem assume determinadas posições dentro da relação.

Mesmo em narrativas que apresentam personagens masculinos sensíveis e emocionalmente disponíveis, essas diferenças sociais continuam presentes no pano de fundo. Isso acontece porque homens e mulheres ainda são percebidos de maneiras distintas pela sociedade, e essas percepções acabam influenciando a forma como o romance é construído.

Relações heterossexuais carregam, de forma implícita, uma dinâmica histórica de poder, que aparece em diferentes níveis — desde expectativas emocionais até representações sexuais e físicas. A socióloga britânica Raewyn Connell, uma das principais pesquisadoras sobre masculinidades, argumenta que as relações de gênero são estruturadas por hierarquias sociais que moldam comportamentos e expectativas dentro das relações. Em seu livro Masculinities, ela observa que “as relações de gênero não são apenas interações individuais, mas parte de estruturas sociais que organizam poder, trabalho e intimidade”.

Em romances entre dois homens, por outro lado, muitos desses elementos estruturais são deslocados. Como os dois personagens compartilham a mesma posição social de gênero, para parte do público feminino, isso cria um espaço narrativo diferente. Em vez de acompanhar relações moldadas por papéis tradicionais de gênero, essas histórias podem apresentar relacionamentos em que as negociações emocionais e afetivas acontecem em um terreno mais equilibrado.

Essa percepção aparece também na forma como cenas íntimas são recebidas por algumas espectadoras e leitoras. Em romances heterossexuais, questões relacionadas à diferença física, à força corporal ou a expectativas sobre prazer e sexualidade feminina podem ativar debates e desconfortos ligados à experiência real das mulheres.

Quando a narrativa envolve dois personagens masculinos, muitas dessas camadas deixam de estar diretamente associadas à experiência feminina. Para algumas leitoras, isso torna a experiência de acompanhar a intimidade do casal menos carregada de tensões sociais e mais centrada na dinâmica emocional entre os personagens. Nesse sentido, romances entre dois homens podem funcionar como uma espécie de espaço narrativo alternativo, no qual o foco recai menos sobre papéis de gênero.

Essa percepção também foi comentada pelo ator Hudson Williams. Em entrevista ao canal do site Them, ele observou que, para parte do público feminino, existe também um elemento ligado à segurança nas cenas de intimidade. “Existe um elemento de que as mulheres têm o desejo de abrir mão do controle. E isso é assustador, há muito medo nisso. Há o medo da violência, sabe? Os homens são grandes e assustadores. Mas, se elas podem viver indiretamente através do Shane, elas sabem que existe uma proteção inerente ali”, comentou o ator.

O processo de identificação e comparação 

Tarjei Sandvik Moe e Henrik Holm em cenas da série Skam (2015)

Outro aspecto frequentemente discutido por pesquisadoras é o modo como funciona o processo de identificação do público com os personagens. Em romances heterossexuais, muitas leitoras e espectadoras acabam se relacionando com a história por meio da personagem feminina — e isso pode gerar uma dinâmica constante de comparação.

Esse movimento de identificação pode trazer reflexões sobre aparência, comportamento, decisões e até sobre a forma como o personagem masculino a trata. Em alguns casos, essa comparação pode gerar desconfortos ou julgamentos internos, especialmente quando a personagem feminina é construída a partir de idealizações românticas ou padrões difíceis de alcançar.

Já nas histórias centradas em romances entre dois homens, essa dinâmica tende a mudar. Como não há uma personagem feminina no centro da relação, muitas leitoras relatam que conseguem acompanhar a história com mais distanciamento, observando o desenvolvimento emocional dos personagens sem precisar se projetar diretamente em um deles. Esse deslocamento pode tornar a experiência narrativa mais fluida. Em vez de acompanhar a trama a partir da lógica da identificação direta, o público passa a observar a relação de fora, concentrando-se no desenvolvimento do vínculo entre os personagens.

Jake Jake Gyllenhaal e Heath Ledger em cenas do filme Brokeback Mountain (2005)

A pesquisadora japonesa Kazumi Nagaike, especialista no estudo de romances entre homens voltados ao público feminino, observa que esse tipo de narrativa permite às leitoras experimentar histórias românticas “sem a pressão da identificação direta com uma personagem feminina”. Segundo ela, isso cria um espaço narrativo em que as leitoras podem explorar emoções, conflitos e fantasias românticas de forma mais livre.

Essa característica ajuda a explicar por que muitas fãs descrevem essas histórias como emocionalmente envolventes, mas ao mesmo tempo confortáveis de acompanhar. Ao remover a expectativa de comparação com uma protagonista feminina, a narrativa abre espaço para que o foco recaia principalmente na construção do relacionamento e na jornada emocional dos personagens.

O interesse de muitas mulheres por romances entre dois homens não pode ser explicado por um único fator. Envolve representações de masculinidade, transformações nas expectativas sobre relacionamentos e novas formas de consumo de narrativas românticas.

Isso ajuda a explicar por que obras como Heated Rivalry, Skam, Call Me By Your Name, Heartstopper, Young Royals, Brokeback Mountain e Red, White & Royal Blue despertam tanto engajamento nas redes sociais e nas comunidades de fãs. Mais do que apenas um subgênero da ficção romântica, essas narrativas se tornaram um espaço onde diferentes públicos exploram novas formas de imaginar relações afetivas.

O público contemporâneo está cada vez mais interessado em romances que desafiam modelos tradicionais e apresentam personagens emocionalmente complexos. Nesse cenário, narrativas que exploram novas formas de masculinidade, intimidade e comunicação tendem a encontrar um público cada vez mais atento e participativo.