O BIGBANG foi, indiscutivelmente, um dos grupos de maior alcance da história do K-pop. Durante seu auge, dominou charts, palcos e imaginários. Com o passar do tempo — especialmente após o hiato do grupo — outros artistas alcançaram números maiores, públicos mais amplos e uma fama global ainda mais massiva. Mas isso levanta uma pergunta essencial: se hoje existem grupos que foram mais longe em termos de alcance, por que o BIGBANG ainda é, e deve ser, considerado com os reis do K-pop?

A resposta está no contexto. Taylor Swift tem mais streams do que Madonna, mas isso nunca colocou em dúvida quem é chamada de Rainha do Pop. Da mesma forma, Michael Jackson é lembrado como o Rei do Pop não apenas pelo alcance gigantesco que teve em sua época, mas principalmente porque mudou o próprio cenário musical. Ele criou um novo jeito de fazer música, de cantar, de dançar, de se vestir e até um novo jeito de fazer videoclipe. 

Títulos como “rei” e “rainha” na música pop não são apenas uma questão de números. Eles não existem apenas para medir quem tem mais streams, mais seguidores ou mais prêmios, mas para nomear algo menos mensurável: impacto e reinvenção cultural. Quando falamos desses títulos, estamos falando de quem redefiniu linguagens, abriu caminhos e estabeleceu padrões que passaram a ser seguidos por toda uma indústria.

O BIGBANG pavimentou o caminho e com esse caminho aberto, muitos grupos conseguiram ir mais longe do que eles próprios em termos de fama e reconhecimento mundial. Isso, no entanto, não muda o fato fundamental: foram eles que construíram a estrada.

Dentro desse grupo, um nome se destaca como o eixo central dessa transformação: G-Dragon, ou simplesmente GD. Considerado por muitos o “rei dos reis”, grande parte do que o grupo revolucionou nasceu de suas ideias. Sua mente criativa ajudou a transformar o cenário musical sul-coreano, moldando o K-pop que o mundo conhece hoje.

INFÂNCIA E RELAÇÃO COM O DONO DA YG ENTERTAINMENT (1994 – 2001)

Um dos pontos mais importantes de G-Dragon como artista está em tudo aquilo que ele criou. Não apenas as músicas que compôs para o BIGBANG, mas também estilos, tendências, clipes e até os figurinos. Ele foi, inclusive, um dos primeiros artistas de K-pop a escrever e produzir as próprias músicas dentro do sistema idol.

E existe um fator essencial que sempre permitiu que G-Dragon tivesse a liberdade de ser quem era, sem filtros e sem se moldar completamente aos padrões de comportamento impostos aos idols: era ele quem escrevia os hits. As músicas que batiam recordes, geravam lucro e sustentavam o sucesso do grupo vinham diretamente dele. Isso criava uma dinâmica diferente. Se Yang Hyun-suk — fundador e CEO da YG Entertainment, gravadora responsável por gerenciar a carreira do BIGBANG e de artistas como BLACKPINK, PSY e 2NE1 — quisesse que aquele sucesso continuasse, não poderia impor as mesmas restrições que aplicava a outros idols nem tratar o grupo da mesma forma.

Mas como G-Dragon chegou a esse lugar? Como ele passou a escrever as músicas desde tão cedo? E por que recebeu esse primeiro aval dentro de uma indústria que, historicamente, não concedia esse tipo de liberdade criativa aos seus artistas?

A resposta está na relação entre G-Dragon e o próprio Yang Hyun-suk. Diferente da maioria dos artistas, G-Dragon não foi apenas mais um jovem que passou por uma audição e debutou em um grupo. Para entender a liberdade que lhe foi concedida, é preciso voltar ao início dessa relação e entender como os dois se conheceram — e por que essa conexão foi decisiva para tudo o que viria depois.

Muito antes de ser conhecido como G-Dragon, Kwon Ji-yong nascido em Seul, entrou em contato com a indústria do entretenimento ainda pequeno. Ele apareceu em vários programas infantis e integrou o grupo musical Little Roo’Raem 1994, aos 6 anos de idade

A experiência terminou de forma abrupta após o lançamento de um álbum de Natal, quando o contrato do grupo foi encerrado. 

CD do Little Roora

Aos 8 anos, ele foi descoberto pela SM Entertainment durante uma viagem de esqui com a família e passou a treinar na empresa. Foram cinco anos de formação intensa, especialmente em dança, até que, aos treze, decidiu deixar a agência. Não por falta de habilidade, mas por uma inquietação crescente: a sensação de que ainda não havia encontrado sua própria identidade artística dentro daquele modelo.

Essa identidade começou a se formar no rap. Ainda criança, Ji-yong foi apresentado ao Wu-Tang Clan por um amigo, e o hip hop passou a ocupar um lugar central em sua vida. Ele começou a estudar rap, teve aulas e, sob a orientação do grupo People Crew, participou do álbum Hip Hop Flex (2001). Com apenas treze anos, tornou-se o rapper mais jovem da Coreia do Sul a integrar um projeto do gênero.

O trabalho em Hip Hop Flex chamou a atenção de Sean, da dupla Jinusean, da YG Entertainment, que o recomendou a Yang Hyun-suk. Ao entrar na YG como trainee, Ji-yong viveu a indústria a partir de seus bastidores: limpava estúdios e buscava garrafas de água.

Foi nesse contexto que Yang Hyun-suk passou a conhecer Kwon Ji-yong mais de perto, especialmente após Sean afirmar que ele era um talento fora do comum. Ao ter contato direto com seu trabalho, YG ficou genuinamente impressionado — não apenas pela forma como Ji-yong rimava, mas pela maturidade dos raps que escrevia, mesmo sendo tão novo. A partir daí, ele passou a acompanhá-lo de perto e começou a inseri-lo em projetos da gravadora, algo incomum para um trainee daquela idade. 

“Eu fiquei chocado ao ver uma criancinha fazer rap tão bem. Eu ficava pensando em como uma criança conseguia rimar tão bem, se vestir tão bem e expressar daquela forma”. – YG no episódio 2 do documentário “BigBang: The Beginning”.

Então ele passou a circular entre artistas mais velhos e participou de colaborações importantes. Ainda aos 13 anos, integrou o projeto YG Family na música “Hip Hop Gentleman”, sendo o único participante daquela idade em meio a artistas de 17 anos ou mais

Também participou de “Storm”, de Perry, ao lado de Masta Wu e do próprio Sean, além de lançar a faixa “My Age Is 13”.

“O Kwon Jiyong, diferentemente dos outros trainees que passaram por audições, foi um caso especial, no qual o YG foi atrás dele.”Documentário lançado pela YG sobre a formação do BigBang: “BigBang The Beginning”. 

FORMAÇÃO DO BIGBANG

Foto de infância de G-Dragon e Taeyang

Em 2006, aos 18 anos, G-Dragon seria lançado pela YG na dupla de hip hop GDYB com seu amigo Dong Young-bae (Taeyang), mas o projeto foi cancelado para a criação de um grupo masculino. Ele então convidou Choi Seung-hyun, que se tornou T.O.P, e junto com Taeyang, Daesung, Seungri e Jang Hyun-seung participou do processo de formação do BIGBANG, mostrado em um documentário. Antes da estreia, Hyun-seung foi eliminado, definindo o grupo como um quinteto.

BIGBANG em 2006

Já no documentário sobre a formação do grupo, fica evidente que aquela não era uma situação comum de audição. G-Dragon e Taeyang já faziam parte da YG Entertainment, o que mudava completamente a dinâmica do processo. Em audições tradicionais, todos os candidatos costumam estar na mesma posição: disputando uma vaga, sujeitos às avaliações constantes de professores, produtores e executivos. No caso do BIGBANG, essa lógica não se aplicava da mesma forma.

Ele e Taeyang não estavam exatamente lutando para entrar em um grupo — o que se via, na prática, era a YG estruturando um grupo ao redor deles. Ainda que Taeyang também treinasse na empresa há anos e fosse considerado um nome importante para a formação, sua relação com G-Dragon era diferente. Ji-yong ocupava um lugar singular dentro daquele processo.

Ao longo dos episódios, é possível observar como Yang Hyun-suk exige que G-Dragon auxilie os outros membros em praticamente todas as áreas. Ele assume uma postura de liderança que, em muitos momentos, se sobrepõe até mesmo à dos próprios professores da YG. G-Dragon coordena coreografias, auxilia nas aulas de canto, orienta sobre arranjos e harmonia e chega, inclusive, a escolher figurinos. Mostrando como o dono da gravadora realmente sabia que, com o olhar e orientação de Jiyong, aquele grupo poderia chegar muito longe.

YG deixa claro, desde antes da formação final do grupo, que a posição de G-Dragon já estava definida. Independentemente de quem passaria ou não pelo processo, seu papel era inquestionável: ele seria o rapper principal e o líder. Mais do que um trainee, Ji-yong já era tratado como o eixo criativo em torno do qual o BIGBANG começava a tomar forma.

Mais do que o nascimento de um novo grupo, aquele momento marcava o início de uma proposta diferente dentro do K-pop — liderada por alguém que, desde cedo, havia aprendido que entender a indústria era tão importante quanto desafiar suas regras.

“A YG não fez o BIGBANG, o BIGBANG fez a YG”. – Yang Hyun-suk.

É por isso que G-Dragon sempre teve liberdade. Diferente da maioria dos idols, ele não conheceu Yang Hyun-suk em uma audição no escuro. Seu talento e seu trabalho duro, construídos desde a infância, o levaram até ele — e, a partir desse encontro, a relação entre os dois passou a ser diferente. YG nunca o enxergou apenas como mais um artista sob contrato e eles moldaram uma relação quase paternal.

G-Dragon e Yang Hyun-suk (YG) em 2001

Yang Hyun-suk sempre deixou claro acreditar que a mente criativa de G-Dragon era capaz de levar o BIGBANG ao futuro. Essa confiança mudou completamente a dinâmica entre artista e gravadora. G-Dragon não seria um produto moldado para se encaixar em criações pré-estabelecidas. O caminho seria o oposto: a YG existiria para produzir as criações de G-Dragon.

“Nós vamos ser ajudantes e não criadores”Yang Hyun-suk no documentário “BigBang: The Beginnig”. 

PRIMEIROS ANOS DO BIGBANG (2006 – 2011)

Desde o início, o BIGBANG se apresentou como um grupo com raízes fortemente ligadas ao hip hop. Sua estreia oficial aconteceu em 19 de agosto de 2006, na Olympic Gymnastics Arena, em Seul, durante o concerto de dez anos da YG Family. No mesmo mês, lançaram seu primeiro single, seguido, no fim do ano, pelo álbum de estreia Bigbang Vol.1. O disco ultrapassou a marca de 110 mil cópias vendidas e levou o grupo a realizar seu primeiro show solo, The Real, diante de um público de cerca de doze mil pessoas.

Naquele momento, o BIGBANG vivia um sucesso sólido, porém contido. Não era um fracasso — muito pelo contrário —, mas também ainda não representava uma ruptura ou um fenômeno avassalador dentro da indústria. O grupo estava em crescimento, encontrando seu espaço, mas sem ter provocado, até então, uma mudança real no cenário musical.

“Always” e a criação do primeiro Lightstick da história

Essa virada começou a acontecer em 2007, com o lançamento do primeiro EP do grupo, Always. Diferente dos trabalhos anteriores, esse projeto marcou o momento em que G-Dragon assumiu, de forma ampla, a liderança criativa do BIGBANG. Embora já tivesse participado da composição de músicas anteriores, dessa vez ele tomou a frente do projeto e decidiu redirecionar completamente o grupo.

A proposta era clara: deixar de ser um grupo centrado exclusivamente no rap para explorar novas possibilidades sonoras. A faixa “Lies”, lançada como single principal, tornou-se o primeiro número um da carreira do BIGBANG e impulsionou o EP a vender mais de 120 mil cópias. A música “Last Farewell” alcançou o topo de diversas plataformas digitais, permanecendo em primeiro lugar por oito semanas consecutivas e venceu o prêmio de Canção do Ano no Mnet Asian Music Awards.

Outro marco dessa época foi a criação da lightstick do BIGBANG. O conceito que hoje é praticamente obrigatório no K-pop nasceu a partir da iniciativa criativa do próprio G-Dragon, que desenhou e idealizou a Bang Bong, o bastão oficial do grupo. O sucesso foi tão grande que o modelo se tornou padrão na indústria, e hoje praticamente todo grupo possui sua lightstick exclusiva. 

“Stand Up” (2008)

Lançado em 2008, Stand Up marcou um novo salto do BIGBANG em sucesso e identidade sonora. O destaque foi “Haru Haru”, que ficou seis semanas consecutivas no topo das paradas digitais coreanas, com uma proposta sentimental sobre perda que contrastava com o pop dançante dominante da época. 

O videoclipe reforçou essa ruptura com uma estética urbana e melancólica, em vez de coreografias e ostentação. Escrita e produzida por G-Dragon, com arranjos de Daishi Dance, a faixa tornou-se um dos singles mais vendidos da Coreia do Sul, enquanto outras cinco músicas do EP figuraram entre as vinte mais ouvidas do país.

A recepção crítica acompanhou o sucesso comercial: a Billboard descreveu a faixa como uma “obra-prima experimental”, enquanto E. Alex Jung, da revista Vulture, foi ainda mais enfático ao chamá-la de “a canção indiscutível da década”, observando o seu inovador. No mesmo período, o BIGBANG recebeu seu segundo prêmio de Artista do Ano no Mnet Asian Music Awards, além de vencer como melhor grupo masculino.

Pausa, “Tonight “e Prêmio MTV EMA

Após cerca de dois anos de pausa nos lançamentos coreanos de grupo, o retorno veio com o EP Tonight (2011). O projeto já demonstrou força antes mesmo de chegar oficialmente ao público: registrou dez mil cópias em pré-venda no Cyworld, superando o recorde anterior do TVXQ.

O lançamento alcançou o topo da Gaon Album Chart na Coreia do Sul e ampliou o alcance internacional do grupo: tornou-se o primeiro álbum de K-pop a entrar no Top 10 do iTunes Top Albums no país e garantiu ao BIGBANG sua primeira entrada nas paradas da Billboard World Albums e Billboard Heatseekers Albums.

Em 2011, o BIGBANG também alcançou um marco simbólico importante para a internacionalização do K-pop ao vencer o prêmio de Melhor Artista Global (Worldwide Act) no MTV Europe Music Awards, representando a região Ásia-Pacífico. A vitória foi impulsionada por uma mobilização massiva de fãs ao redor do mundo, somando mais de 58 milhões de votos

BIGBANG recebendo o prêmio de Melhor Artista Global no MTV Europe Music Awards em 2011

Na disputa, o grupo superou nomes consagrados do pop ocidental, incluindo Britney Spears, o que evidenciou não apenas a força do fandom, mas o alcance global que o BIGBANG já havia construído naquele momento.

ALIVE (2012)

O álbum Alive promoveu uma verdadeira mudança de chave — não apenas para si, mas para o próprio K-pop. O projeto apresentou uma reinvenção sonora e visual que ampliou radicalmente a identidade do grupo e redefiniu o padrão de ambição estética dentro da indústria.

É com Alive que o BIGBANG consolida, em escala grandiosa, a incorporação do estilo camp em sua linguagem artística. O camp é uma estética baseada no exagero consciente, na teatralidade, na artificialidade assumida e na valorização do que é estranho, extravagante e performático. O camp abraça o excesso, o contraste e a ironia visual. É o espetáculo como linguagem.

A partir desse conceito, o BIGBANG estabelece uma de suas marcas visuais mais reconhecíveis: a provocação pelo incomum. Surgem os penteados esculturais, cabelos em cores não convencionais, figurinos altamente conceituais, cheios de camadas, texturas e detalhes, combinando moda, arte e performance. Os videoclipes passam a operar em escala cinematográfica — cenários monumentais, direção de arte elaborada, forte carga simbólica e alto investimento de produção.

O contraste com o padrão dominante da época é importante para entender o impacto. Grande parte dos videoclipes de K-pop do início da década de 2010 seguia uma fórmula relativamente estável: gravações em estúdios, paletas escuras, ambientes sem grande cenografia e grupos centralizados em cenas de coreografia. Havia estilo, mas raramente havia ruptura conceitual. Os figurinos eram modernos, porém dentro de uma lógica mais “usável”; cabelos mantinham cores naturais; o foco estava na performance, não na construção de um universo visual.

Alguns artistas chegaram a flertar com elementos camp de forma pontual, mas não com o mesmo nível de investimento, consistência e escala apresentado pelo BIGBANG em Alive

Lançado em 29 de fevereiro de 2012, Alive trouxe singles como “Blue”, “Bad Boy” e “Fantastic Baby”, mostrando diferentes lados da nova fase sonora e visual do BIGBANG — do emocional ao extravagante, do R&B ao techno. O álbum tornou-se o primeiro em coreano a entrar na Billboard 200, com cerca de 4,1 mil cópias na primeira semana, o melhor desempenho inicial de um artista de K-pop nos EUA.

Na Coreia do Sul, dominou as paradas digitais, com seis faixas no top 10 da Gaon Digital Chart, estreou em #1 na Gaon Albums Chart e foi o disco mais vendido do país no primeiro semestre de 2012. Pouco depois, o grupo se tornou o primeiro artista a colocar cinco canções ao mesmo tempo no top 10 da Billboard K-Pop Hot 100

Alive foi amplamente elogiado pela imprensa especializada e entrou na lista de melhores álbuns do ano da Fuse — sendo o único trabalho não cantado em inglês a aparecer na seleção. Já o The Borneo Post definiu o álbum como uma declaração de ambição — um projeto que mostrava o BIGBANG se posicionando acima do padrão comum e se movendo em direção a um status de legado dentro do K-pop. 

Fantastic Baby: o single que mudou tudo

O single se tornou o maior hit do álbum e, por muitos anos, a principal assinatura do BIGBANG — a música que sintetizava sua nova identidade sonora, visual e performática em escala máxima.

Composta por G-Dragon e T.O.P e produzida por G-Dragon em parceria com Teddy Park, a canção carrega um espírito abertamente anárquico — tanto na sonoridade quanto na imagem que projeta. “Fantastic Baby” rapidamente ultrapassou o círculo do fandom e passou a representar o próprio K-pop para públicos internacionais.

A Rolling Stone incluiu a faixa entre as maiores canções de boy bands de todos os tempos e a descreveu como “instantaneamente acessível”, destacando como o BIGBANG “arrombou várias portas do mercado americano com pouco esforço”.

Para Tamar Herman, da Billboard, o single teve um papel pioneiro na expansão global do gênero: “foi a primeira a atravessar fronteiras internacionais através de seu então estilo inovador”. O alcance da música também atravessou outras mídias, sendo performada na série musical americana Glee em 2012 e apareceu no trailer de Pitch Perfect 2 em 2015.

O videoclipe, dirigido por Seo Hyun-seung, amplificou ainda mais o impacto. Estruturado como um espetáculo de rebelião estilizada, ele apresenta os membros em meio a uma atmosfera de revolução visual, com cenários monumentais, figurinos conceituais e imagens simbólicas.

Ele se estrutura em torno do tema da luta pela liberdade, encenada como uma revolução estilizada. Os integrantes surgem com figurinos maximalistas — capacetes futuristas, maquiagem teatral e penteados escultóricos — compondo personagens que misturam realeza, distopia e moda conceitual. 

G-Dragon em cena do videoclipe de “Fantastic Baby” em 2012

A recepção crítica destacou justamente esse excesso calculado. Kevin Perry, da NME, descreveu o figurino como extravagante e comparou a ousadia visual ao estilo de Lady Gaga. Para David Thomas, do The Daily Telegraph, o vídeo merece recomendação pela sua “excentricidade e excesso fashionista”. A Billboard classificou o clipe como um “festival visualmente estimulante” que promove a música como forma de rebelião, enquanto o The Guardian o elegeu o melhor vídeo de K-pop de 2012, descrevendo-o como “extremamente louco”.

Em março de 2014, o vídeo ultrapassou 100 milhões de visualizações no YouTube, tornando o BIGBANG o primeiro grupo masculino de K-pop a atingir a marca. Em junho de 2017, passou de 300 milhões, estabelecendo outro recorde — o de primeiro grupo sul-coreano, de qualquer gênero, a alcançar esse patamar na plataforma.

Primeira turnê mundial: Alive Galaxy Tour 

A Alive Galaxy Tour (2012–2013), patrocinada pela Samsung Galaxy, foi a primeira turnê mundial do BIGBANG e contou com direção criativa de Laurieann Gibson, conhecida por trabalhos com Lady Gaga. A turnê quebrou recordes, tornando o grupo o primeiro artista coreano a realizar três shows em arenas dome no Japão e a reunir, no Reino Unido, o maior público já registrado para um artista sul-coreano, além de receber destaque da crítica internacional.

“Foi nostálgico, uma volta ao hip hop old school, mas com um toque comercial e uma reinterpretação estrangeira … Estes rapazes, bem, eles estarão de volta, e eles sabem que serão super estrelas.”

Mais do que uma sequência de hits, Alive funcionou como manifesto artístico e industrial — provando que um grupo de K-pop podia não apenas seguir tendências, mas criá-las, exportá-las e sustentar uma identidade própria diante do mercado internacional. 

“MADE” (2015 – 2016)

A era MADE marcou o grande retorno do BIGBANG após cerca de três anos desde Alive e é frequentemente vista como o projeto mais completo — e possivelmente o mais definitivo — da carreira do grupo. Lançado em 2016, o álbum funciona como uma síntese madura de tudo o que eles haviam construído até então: mistura de gêneros, identidade autoral forte e convivência entre duas estéticas que sempre os definiram — o maximalismo camp e o lado melancólico e sentimental. As letras passam a abordar temas mais densos, como depressão, vício em álcool e drogas, pressões da indústria e questões sociais e políticas, ampliando o escopo temático do grupo.

Nos Estados Unidos, o disco alcançou a posição 172 na Billboard 200, marcando a segunda entrada do grupo na parada. Entre os destaques está “Bang Bang Bang”, frequentemente vista como a “irmã” de Fantastic Baby. A faixa foi composta por Teddy Park, G-Dragon e T.O.P e produzida por Teddy e G-Dragon, tornando-se o single mais vendido de 2015 na Coreia do Sul. O impacto foi tamanho que rendeu ao grupo o prêmio de Canção do Ano no Mnet Asian Music Awards e no Melon Music Awards. 

A música extrapolou o entretenimento: foi utilizada pelo governo sul-coreano em transmissões de propaganda na fronteira com a Coreia do Norte após o teste nuclear de 2016 e também cantada por estudantes universitários em Seul durante os protestos pela renúncia da presidente Park Geun-hye. Em entrevista ao Newsen, Taeyang resumiu o espírito do projeto:

“Mais do que canções de amor, nos concentramos principalmente nas questões que nossa sociedade está enfrentando e como olhamos para a sociedade. Mesmo parecendo felizes, também temos nossas dificuldades, por isso gostaríamos de ter uma troca e nos simpatizar com estas coisas.”

MADE World Tour 

A MADE World Tour foi a segunda turnê mundial do BIGBANG e consolidou, em escala definitiva, o tamanho global que o grupo havia alcançado na era MADE. O circuito foi encerrado em 6 de março de 2016, em Seul, com um público total superior a 1,5 milhão de pessoas.

Os números transformaram a MADE World Tour na maior turnê já realizada por um artista coreano até então. Em vários dos países visitados, o BIGBANG também estabeleceu recordes de público para shows de artistas coreanos — e, em alguns casos, para artistas estrangeiros em geral.

CARREIRA SOLO (2009 – 2013)

Paralelamente ao BIGBANG, G-Dragon construiu uma carreira solo que trilhou um caminho próprio de êxito, sem depender apenas do peso do nome do grupo. Seus projetos individuais bateram recordes, conquistaram prêmios de alto nível e mostraram que sua força artística se sustentava de forma independente.

Seu álbum de estreia, Heartbreaker (2009), rapidamente se tornou um marco: venceu Álbum do Ano no Melon Music Awards e no Mnet Asian Music Awards, fazendo de G-Dragon o primeiro artista solo a conquistar a categoria em ambas as premiações — um feito raro para um debut individual em um mercado dominado por grupos.

O salto seguinte veio com o EP One of a Kind (2012), que representou uma virada de escala em sua carreira solo. O projeto liderou as paradas semanal e mensal da Gaon Album Chart, ficou em primeiro lugar na Billboard World Albums e alcançou a posição 161 na Billboard 200, tornando G-Dragon o quarto artista coreano a entrar na lista na época. 

Com mais de 200 mil cópias vendidas, tornou-se o álbum de solista mais vendido da Coreia do Sul até então, superando Heartbreaker. O trabalho rendeu prêmios como Melhor Artista Solo Masculino (MAMA) e Gravação do Ano (Seoul Music Awards). A era culminou na One of a Kind World Tour, que fez dele o primeiro solista coreano a se apresentar em quatro domes no Japão e o segundo a realizar uma turnê mundial, com produção multimilionária — a turnê de maior escala da história coreana. 

Ele se superaria novamente com Coup d’État (2013), seu projeto solo mais ambicioso até então. O álbum trouxe colaborações internacionais de peso — como o Diplo — e participação da rapper americana Missy Elliott. Seis faixas entraram no top 10 da Gaon Digital Chart, com destaque para “Crooked”, seu maior hit solo, um desabafo emocional que misturou rap com pop-rock/punk e fugiu do padrão esperado. O álbum alcançou a Billboard 200 (posição 182), tornando G-Dragon o primeiro artista coreano com múltiplas entradas na parada. A era rendeu quatro prêmios no Mnet Asian Music Awards, incluindo Artista do Ano, além de vitórias no World Music Awards como Melhor Artista do Mundo e Melhor Álbum do Mundo.

Em 2014, G-Dragon e Taeyang uniram forças no single “Good Boy”, reforçando a química criativa dos amigos. O videoclipe ultrapassou 100 milhões de visualizações no YouTube, estabelecendo um marco — o BIGBANG tornou-se o primeiro grupo masculino coreano a ter três clipes acima dessa marca.

Já em 2017, G-Dragon lançou o que é amplamente considerado seu trabalho mais pessoal e honesto, o EP Kwon Ji Yong, distribuído de forma não tradicional, em formato USB em vez de CD — uma decisão conceitual que dialogava com identidade e ruptura de formato. O projeto explora liricamente o lado privado por trás da persona pública de G-Dragon e foi bem recebido pela crítica, que destacou sua vulnerabilidade e honestidade. 

O EP alcançou o número 1 no iTunes Top Albums em 46 países, recorde para um artista coreano na época. Nos Estados Unidos, tornou-se seu álbum mais vendido em um único dia e garantiu sua terceira entrada na Billboard 200. Também permaneceu por duas semanas no topo da Billboard World Albums, tornando-o o primeiro solista coreano a alcançar esse feito

O single “Untitled, 2014” foi o principal destaque comercial do EP: alcançou o primeiro lugar na Gaon Digital Chart e figurou entre as canções de melhor desempenho do ano no país. A faixa marcou mais uma reinvenção artística — uma balada triste inteiramente cantada, sem rap, centrada em emoção crua e interpretação vocal.

Em apoio ao projeto, foi anunciada em abril de 2017 a Act III: M.O.T.T.E World Tour, sua segunda turnê mundial como solista. O circuito terminou com 36 shows em 29 cidades, reunindo mais de 654 mil pessoas e estabelecendo a maior turnê já realizada por um artista solo sul-coreano até então.

INFLUÊNCIA NA MODA

Além de ser um ícone da música, G-Dragon também se consolidou como uma das figuras mais influentes do mundo da moda asiático. O rapper trouxe uma identidade visual única para o K-pop, desafiando as normas estabelecidas e transformando-se em um verdadeiro ícone fashion

“Muito antes dos ícones da moda coreana como BTS e Blackpink que conhecemos e admiramos hoje, já existia Kwon Ji-yong. Desde sua estreia com o grupo, há quase duas décadas, o cantor vem ganhando destaque por apresentar visuais vanguardistas e, em muitos momentos, andróginos, sempre executados com sua característica despreocupação e magnetismo. Ele já fez de tudo: de um visual punk rock com peles, correntes e atitude a jaquetas de tweed da Chanel (peças femininas, inclusive). Um verdadeiro camaleão da moda”. – VOGUE SINGAPORE. Vogue Singapore revisits the most iconic looks from G-Dragon, 2025.

Nos anos em que esteve à frente do BIGBANG, G-Dragon foi fundamental para popularizar o estilo “camp” dentro do K-pop, ao criar looks exagerados e teatrais que misturavam elementos ousados e inesperados. Esse estilo teve uma certa influência nas trajetórias pessoais dos membros, no entanto, foi G-Dragon quem realmente abraçou essa estética de forma intensa.

Mas ele trouxe uma característica que não estava presente na identidade visual no BIGBANG: sua habilidade em desafiar normas tradicionais de gênero, trazendo uma moda andrógina, algo pouco visto até então no K-pop. 

Em 2016, o Korea JoongAng Daily o descreveu como “uma notável estrela que cria um estilo sem gênero”. O impacto de G-Dragon na moda foi ainda mais evidenciado pela Vogue em 2017, que o reconheceu por sua aparência androgênica, ou além de gênero, afirmando que sua estética contestava uma “sociedade que mantém os valores tradicionais patriarcais e uma aderência notável aos ideais de beleza fabricados”.

Uma das partes mais impressionantes do estilo pessoal de G-Dragon é sua habilidade única de transitar entre contrastes marcantes. Ele consegue frequentemente alternar entre a figura androgênica, exagerada e teatral e uma figura mais heteronormativa, de rapper tradicional

“As reinvenções de moda de G-Dragon refletem uma mente que desafia gêneros, tratando o estilo ao mesmo tempo como um espaço de experimentação e de provocação”. – TATLER ASIA. The many faces of G-Dragon: 8 singular looks that define fashion’s Übermensch, 2025.

Relação com a Chanel

A relação de G-Dragon com a Chanel é um dos capítulos mais emblemáticos da sua história com a moda. Em 2016, o artista foi nomeado embaixador global, tornando-se o primeiro homem asiático a ocupar esse posto. A escolha faz sentido não apenas por sua relevância cultural, mas também por sua estética andrógina, alinhada à identidade da Chanel — uma casa que não possui linha masculina e historicamente trabalha com a ideia de roupas que transcendem gênero. 

Além de embaixador, G-Dragon também foi pioneiro ao ocupar espaços tradicionalmente reservados à elite da moda ocidental. Ele se tornou presença constante nas primeiras filas dos desfiles da Chanel em Paris, algo ainda raro para artistas do K-pop à época. Sua participação ajudou a normalizar a presença de ídolos asiáticos nas semanas de moda internacionais..

Ele é músico e estilista!

A consolidação de G-Dragon como figura central na moda também passa pela criação de sua própria marca, a Peaceminusone. Fundada em outubro de 2016, por G-Dragon em parceria com Gee Eun, a empresa nasceu como um desdobramento direto de seu universo artístico. 

Um aspecto central da Peaceminusone é o envolvimento direto de G-Dragon em seu processo criativo. Diferentemente de marcas que utilizam apenas o nome de artistas como licença comercial, G-Dragon faz o design das peças, acompanhando decisões de conceito, estética, materiais e identidade visual. 

G-Dragon em anúnico da Peace Minus One

A Peaceminusone passou a colaborar com importantes nomes da indústria criativa e da moda global. Entre as parcerias mais conhecidas estão colaborações com Nike, Vogue, Colette, Red Bull, Mickey Mouse e Giuseppe Zanotti. Uma das parcerias mais emblemáticas da Peaceminusone com a Nike foi o Nike Air Force 1 Para-Noise, lançado em 2019. Entre as celebridades que foram vistas usando o modelo estão Chris Brown, Travis Kelce, Neymar e Kylian Mbappé.

Além das colaborações com grandes nomes da moda e do esporte, G-Dragon também assumiu o papel de designer dos uniformes do time Paris Saint‑Germain. A iniciativa uniu a estética do clube com os símbolos clássicos da marca. O design desses uniformes incorpora elementos consagrados da Peaceminusone, como o logotipo distintivo da marca, a icônica estampa de margarida e os nomes dos jogadores riscados na parte de trás das camisas

Neymar e G-Dragon em um jogo do Paris Saint-Germain em 2023

VIDA ACADÊMICA

G-Dragon apertando as mãos do presidente do KAIST, Lee Kwang-hyun, durante sua nomeação.

Na esfera acadêmica, G-Dragon construiu uma trajetória paralela à carreira artística. Em 2008, ingressou no Kyung Hee University, no Departamento de Música Pós-Moderna. Posteriormente, cursou Estudos de Esportes de Lazer pela Gukje Cyber University, onde obteve o título de Bacharel em 2013. Em 2016, concluiu o Mestrado em Distribuição de Conteúdo e Varejo pela Sejong University. Planos de ingresso em um curso de doutorado foram adiados em razão do alistamento militar obrigatório.

Mais recentemente, em junho de 2024, G-Dragon foi nomeado professor no KAIST (Instituto Avançado de Ciência e Tecnologia da Coreia). Ele atua no Departamento de Engenharia Mecânica, com contrato de dois anos, dedicado a palestras sobre liderança e sobre a sinergia entre entretenimento e tecnologia, ampliando o diálogo entre criação artística e inovação científica.

FILANTROPIA

No campo social, G-Dragon também construiu uma trajetória marcada por filantropia consistente. Ele já fez inúmeras doações para fundações e causas e fez  posicionamentos públicos pouco comuns dentro do K-pop, especialmente em temas considerados sensíveis na Coreia do Sul. Um dos exemplos recentes foi em novembro de 2025, quando ele realizou uma doação de aproximadamente US$ 1 milhão para auxiliar vítimas de um grande incêndio em um complexo residencial em Hong Kong. 

No mesmo ano, ele também destinou 3,5 milhões de dólares para programas de tratamento de alcoolismo entre adolescentes e doou 81 milhões de won (cerca de US$ 71 mil) ao ACNUR, a agência da ONU para refugiados. Na ocasião, declarou: 

“Espero viver em um mundo pacífico. Meu coração dói quando vejo crianças evacuadas por causa de violência e guerras civis. Espero mostrar minha sinceridade oferecendo a elas um lugar para descansar, mesmo que por um momento. A paz não pode ser alcançada apenas pensando, mas por meio de um esforço coletivo.”

Seu engajamento também aparece de forma simbólica e pessoal: G-Dragon tem tatuado o “Running Heart” de Keith Haring, uma obra que significa apoio aos direitos LGBTQIA+, combate ao racismo e oposição à violência nuclear.

Ele já se manifestou em apoio à causa LGBTQIA+, tema ainda controverso no cenário coreano, publicando sobre o massacre de Orlando quando quase nenhum idol se posicionou.

Além de responder comentários de fãs que pediram apoio à causa com a mensagem “rainbow lasts forever”, ele já frequentou e fez photoshoots em boates e clubes da comunidade.

G-Dragon no show de drag queens do After Party do Chanel Cruise Show em 2015.

Em 2025, G-Dragon criou oficialmente a fundação Just Peace, voltada a ajudar diversas causas ao redor do mundo. 

“A fundação compartilha a paz através do poder da música e das artes e está comprometida em construir uma sociedade livre de preconceitos através da inclusão e compaixão”. – G-Dragon através do post oficial da Just Peace, em dezembro de 2025.

Além disso, sua parceria com o selo independente EMPIRE também foi associada a iniciativas de apoio humanitário a civis palestinos em Gaza. Juntos, esses gestos reforçam que seu impacto cultural não se limita à estética e à música, mas se estende a valores e ação social.

LEGADO

Seu alcance também foi reconhecido por rankings e instituições de peso: em 2011, foi destaque na lista da CNN das “Cinquenta razões pelas quais Seul é a melhor cidade” e, por três anos consecutivos, integrou a lista da Forbes Coreia de líderes poderosos até 2030. Em 2018, foi escolhido por 35 executivos da indústria musical sul-coreana como o melhor solista do país, reforçando o respeito que conquistou entre especialistas do setor.

A dimensão de sua influência artística levou ainda a comparações raras: veículos como Billboard, Vogue e i-D o associaram a Michael Jackson — como reconhecimento de seu poder de transformação cultural e de sua capacidade de moldar gerações.

O título de “Rei do K-pop” atribuído a G-Dragon não é apenas um apelido de fãs, mas o resultado de um conjunto raro de fatores: inovação artística constante, impacto cultural, protagonismo criativo, influência estética e relevância social. Ao longo de sua trajetória, ele redefiniu padrões de som, imagem e performance dentro e fora da Coreia do Sul.