Rent é um musical pop-rock que foi de extrema importância para o cenário do teatro moderno. Escrito e composto por Jonathan Larson, a peça conseguiu unir duas gerações de públicos que mal se olhavam, e provou que musicais podem sim falar sobre a atualidade, ressoar com espectadores jovens e não perder a magia e a reverência aos modelos clássicos.
Além de sua relevância como narrativa e movimento no teatro musical, Rent também se tornou a memória viva de Larson, que faleceu horas antes da estreia oficial do espetáculo, sem poder testemunhar o sucesso que sua obra e sua vida alcançariam pelo mundo.
“Porque tudo é rent”
A peça conta a história de oito artistas que tentam sobreviver à Nova York no final dos anos 80; isso quer dizer: enfrentando a epidemia da AIDS que assolava o país, pobreza e gentrificação do bairro onde vivem. Mark e Roger, os protagonistas, dividem um “loft” bem destruído, sem aquecimento, sem mobília e lutam para pagar o mísero aluguel. Seu ex-companheiro de apartamento, Benny, agora é genro do dono do prédio, e trabalha para ele cobrando o pagamento dos moradores e notificando a expulsão dos mesmos.
Mimi é uma dançarina energética de um clube e vizinha dos protagonistas. Ela e Roger vivem um romance cheio de inseguranças e medos, principalmente por ambos carregarem o vírus HIV.
A necessidade da conexão também é representada pelo casal Tom Collins – um professor anarquista de filosofia e gênio do computador — e Angel — uma drag queen cheia de vida e empatia —, que se conhecem quando Angel o socorre na rua após ele ser espancado por um grupo de homens. O amor dos dois traz a leveza e a esperança que o público desesperadamente almeja. Assim como Mimi e Roger, Angel e Tom também são HIV positivos, e uma das grandes pontes de abordagem da doença na história.
Outro casal que integra o elenco principal e interpreta uma das músicas mais clássicas de briga entre parceiras — “Take me or leave me” (me aceite ou me deixe) — são Maureen e Joanne. As duas vivem uma intensa relação que é constantemente afetada pela falta de confiança da advogada Joanne e o espírito livre e revolucionário de Maureen – artista e ativista.
A complexidade entre elas ilustra a dificuldade de compartilhar uma vida sem apagar sua identidade. Elas se amam, mas não encontram um consenso em que ambas possam existir dentro do relacionamento. No entanto, com a doença rondando seus amigos e a incerteza do amanhã cada vez mais presente, elas entendem o peso e a necessidade de viver o hoje e a força do amor que sentem.
É a partir dessas tramas que a história se desenrola. Presenciamos o destino de cada um desses personagens, seus conflitos, suas escolhas e o modo como decidem experienciar sua própria existência no mundo.

Jonathan Larson
Rent é o clássico caso onde a obra e o artista se tornam um só. Embora a peça seja originalmente uma adaptação da ópera “La Bohème” (1896) de Giacomo Puccini, Jonathan Larson a transformou na lente pela qual enxergava e vivia o mundo.
Desde novo, Jonathan sempre demonstrou muita aptidão para a atuação. Ele roubava a cena onde quer que estivesse. Quando ingressou na Universidade Adelphi para cursar artes, sua vida não foi diferente, era o astro em todas as produções em que atuava. Entretanto, ninguém esperava que ele encontraria uma nova paixão, que mudaria sua vida por completo: a composição.
Após se formar, ele tomou a grande decisão de mudar- se para Nova York e trabalhar como garçom; assim teria dinheiro o suficiente para sobreviver e tempo de sobra para correr atrás do sonho de se tornar um compositor.

No documentário No Day But Today: The Story of ‘Rent’ (2006), amigos e familiares de Larson contam que, para ele, trabalhar na lanchonete Moondance — onde permaneceu por dez anos — era mais divertido e menos estressante do que enfrentar o mundo corporativo e as seleções de vagas, mesmo que isso significasse imensas dificuldades financeiras e morar em um apartamento sem aquecimento e com uma banheira na cozinha.

Apesar das dívidas que acumulou e da precária moradia, Larson não desistiu de buscar seu lugar no mundo. No documentário, Julie Larson, sua irmã, conta que Jonathan tinha certeza de que mudaria a cara do teatro musical americano. “Ele dizia para as pessoas e podia sair um pouco arrogante, ridículo ou bobo. Mas conhecendo ele, tinha uma confiança silenciosa onde, na mente dele, era simplesmente verdade. Acho que tinha algo que ele sabia.”
Em 1983, Jonathan criou um musical baseado no livro de Orson Wells, “1984”. Como não conseguiu os direitos da obra, precisou alterar o roteiro e o título, que acabou sendo chamada de Superbia.
Ambientada no futuro, a produção misturava elementos de musicais de rock, como Hair, com os modelos clássicos estilo Oscar Hammerstein II (A Noviça Rebelde; Cinderela; O Rei e Eu). Contudo, a peça nunca foi produzida, mesmo após sete anos de trabalho obsessivo e diferentes versões em mãos. “Superbia era tão a frente de seu tempo que ninguém conseguia entender o que era.”, contou o amigo de Larson, Eddie Rosenstein.
Depois da frustração de nunca ver Superbia ser produzida, em 1989 Jonathan começou a trabalhar em outro projeto, inicialmente intitulado 30/90 e, mais tarde, BoHo Days. A peça consistia em um monólogo pop/rock — interpretado pelo próprio Jonathan acompanhado de uma banda — sobre seus anos perseguindo seu sonho de se tornar um compositor e as dúvidas que o afligiam prestes a completar 30 anos.
Diferente de seu trabalho anterior, BoHo Days viu a luz dos palcos ao ganhar uma leitura de roteiro no “Second Stage”, um teatro sem fins lucrativos, e, em seguida, uma estreia oficial.
Após duas semanas de apresentações, Jonathan recebe uma carta de Jeffrey Seller — que trabalhava com contratações em um escritório na Broadway e seria o futuro produtor de Rent — contanto como a peça o havia tocado e manifestando seu interesse em produzi-la. “Jonathan estava ansioso”, relembra Seller no documentário. “Ele queria dar início a alguma coisa, e sentia que se não fizesse logo ia explodir”.
Com a ajuda de Jeffrey, BoHo Days muda de título e se transforma em Tick, Tick… Boom — que foi adaptado, em 2021, para filme pela Netflix e com Andrew Garfield interpretando Jonathan Larson. Para Jeffrey, Tick, Tick… Boom “foi o modo [de Jonathan] de responder à rejeição que ele sentia”.


Epidemia da Aids
A epidemia da AIDS não é retratada em Rent sem motivos. Na década de 80, o vírus do HIV tomava conta de muitos países, inclusive o Brasil. Foi uma época repleta de desinformação, preconceito, hostilidade e ignorância. Não havia conhecimento sobre a AIDS, suas prevenções ou tratamento, e até mesmo os médicos reforçavam os temores, dando aos pacientes o máximo de dois anos de vida. “Tinha definitivamente uma estigma de que ou você tinha feito sexo com alguém, ou injetou algo para contrair [a doença]. Você fez algo de errado para ter AIDS.”, conta Daphne Rubin-Vega, a primeira atriz a interpretar a personagem Mimi em Rent.
Antes de escrever Tick, Tick…Boom, Jonathan soube que seu melhor amigo desde a infância, Matthew O’Grady, tinha testado positivo para o vírus HIV, o que o motivou a acrescentar na história o personagem Michael, que também é melhor amigo do protagonista e portador do vírus. “Eu estou realmente honrado”, disse O’Grady no documentário No Day But Today: The Story of ‘Rent’, “quer dizer, ele dedicou para mim. Ele não tinha dinheiro para um presente.”

Após o diagnóstico de Matt e durante a produção da peça, Larson descobre que mais três de seus amigos — Pam Shaw, Alison Gertz e Gordon Rogers — tinham testado HIV positivo. Os três faleceram de AIDS.
Para Jonathan, estava ficando difícil se dedicar a uma produção em que o foco era sua carreira e seus problemas, uma vez que o país e seus amigos mais próximos enfrentavam o medo de uma morte iminente. Para o New York Post, Victoria Leacock, uma das amigas mais próximas de Jonathan e a responsável por realizar todas as suas produções independentes, conta sobre esse conflito que ele vivia: “(…) ficou evidente que ‘Tick’ simplesmente não era suficiente para lidar com o pesadelo que estávamos vivendo.” E, em outro momento, acrescenta: “Rent, de certa forma, ofereceu um espaço para falar sobre o que precisava ser falado.”
Estreia Off Broadway e o falecimento de Jonathan
Foi a partir disso que Jonathan se aprofundou na criação de Rent, em parceria com Billy Aronson -— quem o apresentou ao projeto. “Eu fui no apartamento dele e ele tinha sentimentos bem específicos em relação à peça”, relembra Aronson no documentário, “disse que gostava que era erudito e popular, e que traria uma nova audiência para o teatro”. Desde então, essa foi uma das grandes missões e visões de Larson para o cenário do teatro musical americano. Sua intenção era unir o “público MTV” — os jovens que ouviam músicas pop, rock e não pisavam no teatro — com a geração apreciadora de musicais clássicos.
Escrever a peça demorou mais do que Jonathan esperava, mas ele estava obcecado em levar sua obra aos palcos e apresentá-la para o público. Foi essa determinação que o motivou a escolher o prédio do New York Theater Workshop — um lugar onde nunca havia estreado um musical antes — para produzir e lançar sua história. “Eu reconheci que esse era o artista certo para atingirmos nosso destino”, comenta James Nicola, diretor artístico do teatro. Para o documentário, ele também conta que, ao ouvir as músicas de Jonathan, principalmente o dueto de Mimi e Roger “Light My Candle”, percebeu o quão completo ele era em termos artísticos. “Ele sabia escrever não apenas músicas pop, mas também músicas teatrais e boas cenas.”
Em janeiro de 1994, Jonathan ganhou o apoio da Academia Americana de Artes e Letras, que o permitiu montar uma mini-produção crua do musical. Apenas depois dessa mini-montagem que Rent conseguiu captar audiência e, principalmente, investidores. “Ele não precisava mais implorar para alguém fazer os figurinos, implorar para emprestarem dinheiro para alugar o espaço. Foi da criação solitária a dar à luz uma equipe inteira.”, diz Nicholas Petro, do departamento de artes da Universidade Adelphi.

A seleção dos atores foi um processo demorado que levou cerca de quatro a cinco meses. Todos queriam ter certeza de que estavam escalando as pessoas que pudessem incorporar e dar vida aos personagens. Foi nesse período que surgiram nomes como Idina Menzel (Maureen), Taye Diggs (Benny), Jesse L. Martin (Tom), Wilson Jermaine Heredia (Angel), Adam Pascal (Roger) e Fredi Walker-Browne (Joanne), ao lado de Daphne Rubin-Vega (Mimi) e Anthony Rapp (Mark).


Jeffrey Seller, produtor de Rent, relembra quando Jonathan convidou todos do elenco para um de seus “peasants feast” (banquete dos camponeses) – festas em seu apartamento – na tentativa de aproximar todos os integrantes. “Ele se levantou na frente de todos os atores e disse para eles “todo ano eu dou esse banquete para os meus amigos, e pensei em fazer para vocês já que vocês estão interpretando meus amigos.”
A produção de Rent enfim entra em ritmo frenético, com muitas desavenças entre os produtores e Jonathan, que se recusava a fazer as mudanças que eram sugeridas. Entretanto, músicas e histórias eram alteradas, criadas e reescritas. “Acho que, em certo momento, ele considerou que se isso não funcionasse, ele não sabia o que mais tinha”, conta a irmã de Jonathan.
Um dia antes da estreia oficial, foi preparado um ensaio completo com figurinos, cenário, banda e público. Rent foi apresentado e, no fim, aplaudido com muito entusiasmo, principalmente Jonathan, que deu sua primeira entrevista ao The New York Times — o que significava a maior honraria no mundo artístico. Contudo, ao voltar para sua casa, Jonathan falece tragicamente, aos 35 anos, de dissecção da aorta causada pela síndrome de Marfan.
Futuro de Rent
No documentário No Day But Today: The Story of ‘Rent’, familiares e amigos de Jonathan relatam que ele reclamava de dores no peito e episódios onde colapsava no chão acreditando estar tendo um infarto. Mesmo indo ao hospital todas as vezes, os médicos não conseguiam dar um diagnóstico preciso e o enviavam para casa com grandes quantidades de remédio para amenizar a dor.
A notícia do falecimento de Jonathan percorreu todos os jornais da cidade, o que trouxe mais atenção para Rent e a vida de seu criador, que passou do anonimato para ser reconhecido em todo o lugar.
No dia da estreia, foi decidido que a peça seria apresentada em homenagem a Jonathan, mas, ao invés do espetáculo completo, todos os atores apresentariam as músicas sentados no palco. No final, relembra o pai de Larson no documentário, o teatro ficou em completo silêncio por alguns segundos, até que uma voz soa da platéia dizendo: “Obrigado, Jonathan Larson”, e uma explosão de aplausos tomou conta.
Desde então, Rent não gerou mais dúvidas em seus produtores; o musical era um sucesso garantido. Todas as sessões estavam esgotadas e algumas contavam com celebridades na plateia, como Sylvester Stallone.
Em 1996, Rent tem sua estreia oficial na Broadway com todos os atores originais reprisando seus papéis. Jovens dormiam nas ruas para conseguir ingresso para as sessões do dia, mesmo que já tivessem visto o espetáculo antes. O movimento foi tão grande que Rent ganhou seu próprio núcleo de fãs, os chamados Rent-Heads.
Outra inovação de Rent foi a venda de ingressos por preços acessíveis. Hoje é uma prática comum em muitas bilheterias no mundo. Entretanto, para garantir que todos os fãs pudessem assistir à peça, principalmente aqueles que viviam em condições financeiras parecidas com a de Jonathan, os ingressos das primeiras fileiras passaram a ser vendidos mais baratos horas antes do espetáculo.
No mesmo ano, Rent foi nomeado para 10 Tony Awards, ganhando quatro categorias: Melhor Musical, Melhor Libreto Musical, Melhor Ator Coadjuvante em Musical, e Melhor Trilha Sonora. Também recebeu o prêmio Pulitzer de Teatro, e o espetáculo já foi traduzido para 25 línguas — do grego ao coreano.
Além disso, em 2005, a peça foi adaptada para o cinema, com direção de Chris Columbus (Esqueceram de Mim; Harry Potter; Gremlins) e roteiro de Stephen Chbosky (Bela e a Fera, 2017; As Vantagens de Ser Invisível; Extraordinário). O filme também contou com todos os atores originais da peça, exceto as personagens Mimi e Joanne, que foram interpretadas por Rosario Dawson e Tracie Thomas, respectivamente.

Rent é um musical que ultrapassa os limites do palco e dos teatros. Ele não apenas remodelou o cenário do teatro musical americano, conseguindo conversar com diferentes gerações, como também levou aos holofotes temas que precisavam ser discutidos na época, e que ressoam até os dias atuais.
Além disso, também funciona como a memória viva de Jonathan Larson, que permitiu se entregar à vida sem medo ou ressalvas, e sem nunca desistir do que o motivava, como sua arte, sua família e seus amigos.