Quando a música, além de entreter, começa a confrontar

Provavelmente, Bad Bunny seria o último nome que viria à mente de algumas pessoas se lhes pedissem para dizer um artista que vem revolucionando a indústria musical — quando na realidade, deveria ser o primeiro. 

Benito Antonio Martínez Ocasio ou como é conhecido mundialmente, Bad Bunny, vai além do artista mais ouvido da atualidade: ele está redefinindo como a música latina entra — mais forte do que nunca — no palco global e usando suas letras e ritmos para abordar temas sociopolíticos.

Na entrevista que deu para o telejornal PBS News, Albert Sergio Laguna, professor da Universidade de Yale onde, inclusive, dá um curso chamado “Bad Bunny: Musical Aesthetics and Politics” (Bad Bunny: Estética Musical e Política) — sim, um curso inteirinho sobre o Bad Bunny, você não leu errado — afirma que o impacto do artista porto riquenho vai muito além do aspecto musical, segundo ele, Bad Bunny é uma mistura de música e persona. Na música, ele mistura ritmos, épocas e possibilidades para criar um som único que agrade tanto aos jovens que não o tiram de seus fones de ouvido e criam danças e trends com sua música, quanto comover os senhores que se identificam com os ritmos que vão desde o reggaeton mais moderno até salsa, bomba, plena e outras influências profundas da música porto-riquenha. Mas os ritmos não são os únicos elementos potentes de suas músicas.

Bad Bunny fala sobre realidades que importam

O cantor que foi o mais ouvido de 2025 no Spotify, disseminou muito mais do que somente os ritmos de sua cultura para o mundo, ele passou o ano todo sendo ouvido por milhares de pessoas, enquanto tocava diretamente em problemas reais através de suas letras bem escritas e articuladas. Lançado em 5 de Janeiro de 2025, o último álbum do artista, Debí Tirar Más Fotos, não se esquiva de temas controversos e denuncia, com muita dança e melodia, questões como migração, gentrificação e até debates contemporâneos sobre justiça racial.

Sendo o foco principal de suas músicas e devoção, Porto Rico, onde Bad Bunny nasceu, é o alvo de uma grande problemática envolvendo migração e esquecimento da cultura local. A ilha recebe milhões de visitantes por ano, atraídos por suas praias, clima tropical, história e cultura, entretanto, diferente do que pode parecer superficialmente, esse turismo traz efeitos extremamente negativos para o território. 

Chamado de “turismo errado” ou “turismo de massa”, o deslocamento turístico, principalmente de norte-americanos, à Porto Rico tem beneficiado financeira e socialmente mais aos investidores externos do que à própria população local. A ilha está, lentamente, se tornando um grande resort para estrangeiros, onde as histórias, o idioma e a população estão sendo apagados ao passo que casas e bairros tradicionais são demolidos ou comprados para a construção de hotéis ou locação de Airbnb’s, que porto-riquenhos não tem condições de se manter em sua própria terra e que uma migração em massa da população de Porto Rico é cada dia mais frequente.

Com isso, a economia fica progressivamente mais abalada, uma vez que menos pessoas trabalhando significa menos arrecadação e menos consumo — consumo este que também está sensibilizado, visto que o comércio local, que atendia a moradores, é substituído por lojas e serviços voltados a turistas, encarecendo ainda mais a vivência na região e atuando como uma força que faz com que famílias tenham que se mudar para áreas mais afastadas ou até abandonar a ilha. 

Entretanto, o artista mais ouvido do mundo percebeu isso e não vai deixar passar em branco.

O poder da música

“Eu devia ter tirado mais fotos quando tinha você

Debí tirar más fotos de cuando te tuve

Eu devia ter te dado mais beijos e abraços quando pude

Debí darte más beso’ y abrazo’ las vece’ que pude

Ei, tomara que minha galera nunca se mude”

Ey, ojalá que los mío’ nunca se muden

(trecho da música DtMF de Bad Bunny)

Fotos que não foram tiradas, beijos e abraços que não foram dados, memórias que estão sendo esquecidas, um território que está sendo apagado. Em suas letras, Bad Bunny traduz a dor de um povo que não tem mais casa e que teme, em breve, não ter nem mais a memória de uma. Na faixa 5 de seu último álbum, o single “TURiSTA” conta a história do eu lírico que teve o coração partido por um amor que foi um “turista” em sua vida, um amor que aproveitou o melhor que ele tinha para oferecer e curtiu todas as suas qualidades, mas sem nunca entender suas dores — entretanto, se bem observado, ele não está falando sobre relacionamentos. “[a música] Turista fala especificamente sobre os perigos do turismo, no sentido de que as pessoas não respeitam o lugar que estão visitando”, afirma professor Albert Sergio Laguna ao tentar explicar que, por trás de um contexto romântico, Bad Bunny entende a importância do turismo para a ilha, em especial quando afirma:

Você foi embora sem saber o porquê, o porquê das minhas feridas

Te fuiste sin saber el porqué, el porqué de mis herida’

E não era sua obrigação curá-las, você veio pra curtir

Y no te tocaba a ti curarla’, viniste a pasarla bien

E a gente curtiu

Y la pasamo’ bien

(trecho da música TURiSTA de Bad Bunny)

mas não deixa de denunciar os perigos de um turismo que só “curte” sem entender a profundidade da situação, mesmo que não seja intencional.

É comum nas músicas do cantor, que ele use de outros contextos para fazer denúncias e chamar atenção para problemas reais que afetam não só sua terra natal, como o seu povo que está disperso mundo afora, justamente por conta da necessidade de sair de uma terra que está sendo apagada. De acordo com o Census Bureau dos Estados Unidos, que é a agência governamental que fornece o censo do país, entre 2008 e 2022, a população de Porto Rico caiu de cerca de 4,0 milhões para 3,2 milhões, sendo até mesmo apelidada de “la isla que se vacía”, ou “a ilha que se esvazia” e a maioria dessas migrações tem como destino o mesmo país que é a causa desse declínio populacional: os Estados Unidos. 

Não Solte a Bandeira

Querem tirar meu rio e também minha praia

Quieren quitarme el río y también la playa

Querem minha quebrada e que a vovó vá embora

Quieren el barrio mío y que abuelita se vaya

Não, não solte a bandeira nem esqueça o lelolai

No, no suelte’ la bandera ni olvide’ el lelolai

(trecho de Lo Que Le Pasó a Hawaii de Bad Bunny)

Gabo Ramos, um documentarista local de Porto Rico confessa para The Washington Post em matéria feita no ano de 2025: “Todos nós temos vizinhos que lutam todos os dias para ficar na ilha, incluindo eu mesmo, para trabalhar, para proteger o que temos, apesar da economia, da saúde e dos desafios na educação. E aí tem aqueles que tiveram que sair só para poder viver ao invés de sobreviver”.

A necessidade de “sair”, como declara Gabo, está na maioria das vezes, longe de ser movida pelo desejo de viver um “sonho americano”, os cidadãos porto-riquenhos já nascem com civilização americana, por Porto Rico ser uma colônia do país até hoje. Com isso, a migração para territórios estadunidenses é menos burocrática do que seria para cidadãos de outros países não colônias, sobretudo em tempos atuais, visto que a imigração para os Estados Unidos é um tópico delicado e que está sendo motivo de muitos conflitos internos.

Em 2025, o número de pessoas detidas nos Estados Unidos pela ICE (Immigration and Customs Enforcement — agência federal que tem como missão proteger o país por meio da aplicação de leis de imigração) foi recorde de acordo com dados publicados pelo próprio ICE. Entretanto, é um recorde que está sendo atrelado a muitas problemáticas, visto que dentre as pessoas detidas se encontram crianças, cidadãos legalizados no país, pessoas sem nenhum antecedente criminal e infelizmente, está causando inúmeras mortes. De acordo com o jornal britânico The Guardian, 2025 foi o ano com mais mortes ligadas ao ICE, seja por maus-tratos e condições críticas nos centros de detenção, seja por assassinatos cometidos por seus próprios agentes

Por conta dessa grande problemática envolvendo a segurança, saúde e até mesmo a vida de imigrantes no país, Bad Bunny tomou uma decisão histórica, decidindo não colocar seu público estadunidense, que é formado majoritariamente por imigrantes, em perigo. Em maio de 2025, Bad Bunny anunciava sua turnê mais esperada até então, a turnê do álbum que virou o top 1 nas paradas mundiais e foi o mais ouvido do ano de seu lançamento, Debí Tirar Más Fotos. Enquanto fãs do mundo inteiro se preparavam para comprar os ingressos para o tão esperado evento, fãs americanos tentavam entender o porquê de Bad Bunny ter decidido, dentre os 16 países que vai passar com os shows, não fazer nenhum nos EUA. A resposta é simples, Bad Bunny respondeu para Suzy Exposito, jornalista da revista i-D Magazine, “Tem muitas razões pelas quais não fui para os EUA, e nenhuma delas vem de ódio — eu já me apresentei lá muitas vezes […], todas foram incríveis. […] Mas tem o problema do, tipo, a merda do ICE poderia estar do lado de fora do meu show. E isso era algo que estávamos conversando e muito preocupados sobre”.

Contudo, Bad Bunny não deixou de usar as oportunidades que teve de se apresentar no país, mesmo que fora de sua agenda da turnê – como programas de televisão, a abertura do Super Bowl, aparição em premiações – como forma de denúncia. 

A imagem revela Bad Bunny em sua apresentação no programa Saturday Night Live em que recria a famosa fotografia “Almoço no topo de um arranha-céus”:

Fotografada em setembro de 1932, a imagem mostra trabalhadores imigrantes almoçando no topo de um prédio sendo construído em Nova Iorque — sem nenhum equipamento de segurança — e ao recriá-la, Bad Bunny faz uma homenagem à grande comunidade de imigrantes que ajudou a construir a cidade de Nova Iorque.

“Inglês não é a minha primeira língua, mas está tudo bem. Não é a

da América também.” – Bad Bunny

Fazendo algo nunca feito antes na história do Super Bowl, Bad Bunny levou o show de intervalo mais famoso do mundo para Porto Rico ao conduzir a performance inteira em seu idioma nativo e trazer junto dele e de suas músicas dançantes, uma história cheia de simbolismo e orgulho de ser latino-americano. 

Em meio a plantações de cana-de-açúcar, o show se inicia deixando claro, desde o primeiro instante, que ali não se tratava apenas de um espetáculo, mas de uma viagem. Bad Bunny conduzia o público até o lugar onde a cana foi pilar econômico, social e histórico: Porto Rico. Mais do que cantar, ele levava todos para sua terra, para sua cultura.

À medida que caminha pelo palco, as referências culturais se acumulam como memória viva. Bad Bunny cruza senhores jogando dominó em uma mesa de praça, mulheres fazendo unhas de gel, barracas de comida de rua e até um casamento que, em seu mais puro espírito latino, tem uma criança dormindo em uma cadeira — imagem perfeita das celebrações longas, intensas e cheias de afeto de um povo que aprendeu a celebrar a vida.

Entre uma música e outra, ele pede que o público dance, enquanto canta seus sucessos sobre um palco erguido a partir de símbolos grandes demais para serem esquecidos. No encerramento, Bad Bunny deixa a cena ao som da faixa que dá nome ao álbum, cercado por bandeiras de diversos países do continente americano — incluindo o Brasil — enquanto, no telão, surge uma frase capaz de condensar toda a mensagem que ele insiste em reafirmar: “A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor”.

Imagem do show de Bad Bunny no Super Bowl 2026

No Me Quiero Ir de Aquí

Enquanto nos Estados Unidos, a única forma de ver o cantor mais ouvido do mundo era ligando a televisão, na colônia, porto-riquenhos viviam algo histórico ao poderem escolher qual dia gostariam de assistir o cantor ao vivo dentre um período de trinta dias que ele ficaria no território. 

Nomeada “No Me Quiero Ir de Aquí” (Não Quero Sair Daqui), a estadia de Bad Bunny na ilha, entre julho e setembro de 2025, no Coliseo de San Juan, além de ter sido um gesto de afirmação de sua cultura, pertencimento e resistência, fortaleceu a economia local e transformou o espetáculo em um ato simbólico. De acordo com dados divulgados pelo governo porto-riquenho, foi estimado que a residência contribuiria com mais de 200 milhões de dólares para a economia local, criando mais de 3,600 empregos, além de também terem sido reservados mais de 30,000 quartos de hotel e dessa forma, incentivando um turismo sustentável, colocando Porto Rico no centro das conversas mundiais sobre cultura, arte e música.

Palco do Coliseo San Juan durante a estadia de 30 dias do cantor Bad Bunny.

Gabriela Escalera, arquiteta de origem porto-riquenha e co-fundadora de um estúdio de design em Nova York, foi convidada pela equipe criativa de Bad Bunny para dar forma à montanha que dominava o palco — uma estrutura que recriava a vegetação típica de Porto Rico. Mais do que um elemento visual impressionante, o cenário se transformou em algo imediatamente reconhecível para quem é da ilha. “Minha família não entende de arquitetura, nem de design, mas isso eles entendem”, contou Escalera ao Architectural Digest, referindo-se ao palco que evocava sua terra natal. Para alcançar esse nível de identificação, a arquiteta mergulhou no estudo da flora porto-riquenha e, no meio da montanha, ainda precisou integrar um telão de LED de 30 metros de altura, usado antes dos shows para exibir mensagens e fatos sobre Porto Rico.

“Isso eles entendem”, mas nós também

Capa do álbum Debí Tirar Más Fotos de Bad Bunny

Duas cadeiras de plástico, um quintal e bananeiras de fundo. Soa familiar? Se sim, é porque é. 

Bad Bunny foi intencional ao pensar no cenário mais reconhecível possível para a população latina. A imagem sozinha conta uma história, carrega lembranças e o peso de uma identidade nem sempre exaltada. Quando a arquiteta Gabriela Escalera diz que seus pais entendem o que o palco da residência de Bad Bunny quis transmitir, mesmo sem entenderem nada sobre arquitetura, ela está resumindo , sem perceber, o efeito que Bad Bunny causa. 

Mesmo sem ter o conhecimento prévio sobre as inspirações e ideias de Benito para a capa de seu último álbum, a população latino-americana  se identifica e entende o que ele está querendo dizer e transmitir com ela. É fácil se identificar com uma imagem que assim como pode ser a capa do álbum mais ouvido do último ano, também pode ser o quintal da casa da sua avó, ou a casa de infância dos seus pais. 

Bad Bunny fala com todo um grupo de pessoas as quais nunca tiveram sua cultura plenamente valorizada, ele representa todo um povo que sempre esteve presente —  presente no começo de tudo, presente na construção da sociedade como ela é hoje, presente no trabalho, na música, nos costumes, na resistência e na alegria — mas que raramente é reconhecido por isso e que aprendeu a existir entre apagamentos. Ao ocupar o centro da indústria sem abrir mão de quem é, Bad Bunny prova que essas vozes não precisam mais pedir espaço, elas já mereciam estar ali o tempo todo e mostra para o mundo todo: ele não deixará com que as tente apagar outras vez.