Crescer em público é, por natureza, uma tarefa complicada. Crescer em público sendo uma menina negra, dentro de uma das emissoras mais poderosas do entretenimento infantojuvenil, é ainda mais desafiador. E transformar tudo isso em uma trajetória de sucesso, integridade e impacto cultural é o que Zendaya fez e continua fazendo. Da Disney Channel aos tapetes vermelhos mais importantes do mundo, a atriz, cantora e produtora construiu uma das carreiras mais sólidas e admiradas de sua geração. 

Os primeiros passos

A história de Zendaya nas telas começa em 2010, quando ela deu vida a Rocky Blue na série No Ritmo, do Disney Channel. O seriado acompanhava a amizade entre Rocky e CeCe Jones (Bella Thorne), duas garotas que sonhavam em dançar no programa fictício “Shake It Up Chicago”. O sucesso da produção foi imediato, e Zendaya rapidamente se tornou um rosto bem conhecido do canal.

Zendaya e Bella Thorne em poster da série No Ritmo do Disney Channel

Como é tradição para estrelas da Disney, a carreira musical logo entrou em cena. Ainda na emissora, Zendaya dividiu um de seus primeiros singles com Bella Thorne, a música Watch Me, que fez parte da trilha sonora da série. Em 2012, as duas assinaram contrato com a Hollywood Records, gravadora do grupo Disney, e Zendaya lançou algumas músicas, sendo Replay, de 2013, a que alcançou maior repercussão.

Mas Zendaya nunca se viu como uma estrela pop. Em conversa com o ator Andrew Garfield para a revista Variety, ela admitiu que deixou a carreira musical de lado para focar exclusivamente na atuação, por entender que o palco e as câmeras de cinema lhe permitiam viver um tipo de anonimato que a carreira musical não ofereceria. Era uma escolha consciente sobre quem ela queria ser, e esse tipo de clareza, rara em alguém tão jovem, se tornaria sua marca registrada.

Em 2012, com apenas 16 anos, Zendaya sentou à mesa com os executivos da Disney Channel para discutir seu futuro na emissora. Tanto o canal quanto ela tinham interesse em manter a parceria, mas Zendaya tinha alguns pontos importantes a acrescentar no projeto para que pudesse aceitar fazer parte.

Naquela reunião, ela apresentou uma série de demandas: queria ser não apenas atriz principal, mas também produtora da nova série; exigia que o nome da personagem e do programa fossem alterados; insistia que a série tivesse uma família negra como protagonista; e, talvez a mais simbólica de todas, queria que sua personagem não estivesse ligada a nenhuma forma de arte — algo que era praticamente regra nas produções da Disney da época, principalmente para as personagens femininas.

“Existem outras coisas que uma garota pode ser. Eu quero que ela seja treinada em artes marciais. Quero que ela seja capaz de fazer tudo o que um cara pode fazer. Quero que ela seja tão inteligente quanto todo mundo”, disse Zendaya sobre o que esperava de sua personagem.” (Zendaya para Teen Vogue em 2017) 

Assim nasceu Agente K.C., que ficou no ar de 2016 a 2018. A série entregou exatamente o que Zendaya havia pedido: uma protagonista com uma família negra, que era inteligente, habilidosa e sem as amarras dos estereótipos que costumam limitar personagens femininas.

Construindo uma voz

Saber o próprio valor, porém, não significa que o caminho é livre de pressões. Em entrevista com Issa Rae em 2021, Zendaya relembrou uma situação que viveu quando mais jovem: insatisfeita com a maquiagem e o cabelo que fizeram nela para uma capa de uma revista, sua publicista na época sugeriu que ela não dissesse nada, uma vez que ela era uma menina negra sendo fotografada para uma publicação que já não estampava uma pessoa preta na capa havia muito tempo. Zendaya não concordou.“Eu posso dizer que não gostei do meu cabelo e da minha maquiagem. Eles tendo tido pessoas negras na capa ou não”, ela recorda, já demonstrando como, mesmo tão jovem, possuía um elemento crucial que com certeza a ajudou a alavancar sua carreira e seu sucesso: a autoconfiança.

Nessa mesma conversa com Issa Rae, a atriz refletiu sobre a autoconfiança como processo, como algo que se constrói ao longo do tempo e não surge de uma hora pra outra. Ela falou sobre a importância de ouvir opiniões de pessoas que importam, mas sem deixar que essas opiniões sejam a palavra final, uma vez que é importante tomar decisões e entender o que cada situação pode trazer de vantagens ou desvantagens. 

Sua família teve papel essencial nessa formação. Zendaya menciona muito seus pais quando fala dos valores que carrega. Ela contou à apresentadora que, quando era mais jovem, sua mãe sempre deixava claro que, a qualquer momento, Zendaya poderia escolher voltar para uma vida comum, sem os holofotes. Não haveria problema algum. Esse suporte incondicional criou uma base de segurança que é visível em tudo o que Zendaya faz: ela é mundialmente reconhecida como uma das celebridades que menos se envolve em polêmicas, e isso não é por acaso.

Zendaya e seus pais.

Uma carta que mudou algo maior

Em fevereiro de 2015, Zendaya chegou ao tapete vermelho do Oscar com 18 anos, em um lindo vestido branco da Vivienne Westwood e dreads nos cabelos. Era sua estreia em um dos eventos mais assistidos do mundo.

Zendaya no Oscar de 2015.

Nas horas seguintes, o programa Fashion Police, do canal E!, fez a cobertura do evento. A apresentadora Giuliana Rancic, ao comentar o look de Zendaya, disse que aquele cabelo a fazia parecer alguém que cheirava a óleo de patchouli ou maconha. O comentário foi maldoso, racista e teve repercussão devastadora para Rancic. Nomes importantes do entretenimento saíram em defesa da atriz. Rancic pediu desculpas publicamente, primeiro no Twitter e depois em vídeo no ar, entretanto, Zendaya, não deixou a situação passar sem antes responder à altura. Em seu Instagram, publicou uma carta aberta que dizia:

Existe uma linha tênue entre o que é engraçado e desrespeitoso. Alguém disse algo sobre meu cabelo no Oscar que me deixou perplexa. Não porque eu estava sendo criticada no programa, mas porque fui atingida por comentários ignorantes e puramente desrespeitosos. […] Já existe um preconceito enorme quanto ao cabelo afro na sociedade, até sem a ajuda de pessoas ignorantes que escolhem julgar os outros pela curva de seus cabelos. Eu ter escolhido usar dreads no tapete vermelho do Oscar foi para mostrá-los de uma maneira positiva, lembrar as negras, os negros e as pessoas com cabelo crespo que o nosso cabelo é bom sim. Para mim, os dreads são um símbolo de força e beleza, quase como a juba de um leão.” 

O impacto foi tão significativo que a Mattel criou uma Barbie recriando o look completo de Zendaya na cerimônia, com direito a vestido, dreads e tudo.

Boneca Barbie produzida pela Mattel em homenagem à Zendaya.

Mais do que isso, quatro anos depois, em 2019, o estado da Califórnia aprovou a lei CROWN Act (Create a Respectful and Open World for Natural Hair), que proíbe discriminação com base em estilos de cabelo naturais no ambiente de trabalho e nas escolas públicas. A lei foi apresentada pela senadora estadual Holly Mitchell, e aprovada pela primeira vez em julho de 2019, na Califórnia. O episódio com Zendaya não deu origem diretamente à lei, mas fez parte de um movimento maior que a tornou possível e necessária.

A moda como estratégia

É impossível falar de Zendaya sem falar de Law Roach, seu estilista. Ele conta que conheceu a atriz quando ela tinha apenas 13 anos, e que fizeram um “juramento de dedinho”: ele faria de tudo para apoiá-la e ajudá-la a crescer, e ela o levaria com ela conforme subisse. E assim foi. Ambos cresceram juntos e Zendaya se refere a ele em muitas entrevistas como uma peça chave na construção de sua carreira.

No início, porém, o mercado da moda não facilitou essa parceria. Grandes marcas simplesmente se recusaram a vestir Zendaya por considerá-la jovem demais ou sem relevância suficiente para suas agendas. Ele conta que escrevia para grandes marcas e recebia sempre a mesma resposta, dizendo que Zendaya ainda estava muito “verde” e que ainda não estava na agenda deles. Quando ela chegou a capa da Vogue em 2017, Law Roach conta que ela nunca tinha usado nenhuma das marcas que a recusaram anteriormente e que, até hoje, não usou muitas delas, mesmo tendo ofertas.

A postura não é vingativa, e sim seletiva. Zendaya constrói relações com marcas e designers com quem estabelece uma conexão genuína, não com quem quer aproveitá-la agora que chegou ao topo. Um exemplo marcante aconteceu em 2019 quando ela foi ao tapete vermelho do Grammy vestindo uma criação do designer Emanuel Ungaro. Law Roach admitiu ter “lutado muito” para conseguir que Emmanuel a vestisse. Mas o resultado foi memorável: Zendaya foi eleita uma das mais bem vestidas da noite. Esse momento selou o início de uma relação duradoura entre a atriz e o designer e, a partir dali, o nome de Zendaya passou a circular com força em um universo muito além das telas da Disney, alcançando um público diferente e mais velho.

A moda, para ela, nunca foi apenas vaidade, ela funciona como uma válvula de escape e, ao mesmo tempo, um instrumento de comunicação e expansão de carreira. Uma grande prova disso é seu grande reconhecimento pelo chamado method dressing — a prática de usar roupas que possuem referências do projeto que está promovendo em tapetes vermelhos e divulgações. O primeiro filme em que isso aconteceu de forma mais notável foi O Rei do Show (The Greatest Showman, 2017), e desde então, a prática virou sua assinatura.

Zendaya com um vestido que imita uma teia de aranha na premiere de “Homem-Aranha Sem Volta para Casa”

De acordo com Zendaya, na entrevista com Issa Rae, a moda a ajudou a ocupar lugares em que antes não pertencia por ser considerada apenas uma atriz infantil. As roupas que vestia para comparecer em eventos grandiosos fazia com que seu nome chegasse onde não era possível apenas com os projetos que estava participando no momento, tornando-a um rosto conhecido para pessoas que, anteriormente, não a tinham em seus repertórios, e abrindo muitas portas.

De dentro para fora da Disney

Ainda durante as gravações de Agente K.C., Zendaya já estava plantando sementes fora da emissora. Participou do Dancing with the Stars em 2013, integrou o elenco de Homem-Aranha: De Volta ao Lar (2017) e gravou também O Rei do Show (2017), ao lado de Hugh Jackman e Zac Efron.

Em entrevista à Marie Claire, Zendaya refletiu sobre esse momento: aprendeu a focar no que realmente acreditava, mesmo com vozes dizendo o contrário. Disse que não teve a quem recorrer para ajudá-la nessa passagem, mas que recorreu a si mesma, “há algo libertador em tomar decisões por si mesma”, afirmou. Com isso, ela conseguiu adquirir a habilidade de priorizar suas decisões, pois somente ela sabia exatamente onde gostaria de chegar, como, por exemplo, em conversa com Issa Rae, Zendaya disse preferir ser coadjuvante em um bom projeto a ser protagonista em um ruim. Na visão de Zendaya é essencial prezar pela qualidade dos projetos que participa e não na quantidade ou status do papel.

Em 2019, Zendaya assumiu o papel de Rue Bennett em Euphoria, série da HBO criada por Sam Levinson. O papel a ajudou a fazer história ao se tornar a mulher mais jovem a ganhar o Emmy de Melhor Atriz em Série de Drama por sua atuação na primeira temporada. A personagem Rue, uma adolescnete tentando sobreviver ao ensino médio enquanto lida com questões sérias e delicadas como o luto e a dependência química, apresentou para o mundo uma Zendaya que tinha a capacidade de viver personagens que exigiam um nível a mais de emocional e experiência. 

Em 2026, Zendaya se tornou um dos nomes mais falados de sua geração, e é considerada uma das forças mais rentáveis e procuradas de Hollywood. Sua filmografia já ultrapassou a marca de US$ 5 bilhões nas bilheterias mundiais e, somente neste ano, o seu nome está em cinco diferentes obras cinematográficas que serão ou já foram lançadas.

O legado de uma escolha constante

O que une todos esses capítulos da trajetória de Zendaya não é só o seu indiscutível talento — embora isso com certeza tenha contribuído. O que une é a consistência de uma visão muito clara sobre quem ela é, o que quer ser e atingir.

Mesmo tão nova, aos 16 anos Zendaya já mostrava que não negociaria aquilo que acreditava por um contrato. Em uma indústria que frequentemente acelera, molda e descarta jovens talentos, Zendaya construiu o próprio caminho com paciência, consciência e controle sobre a própria imagem e carreira. E isso reflete em seu constante crescimento.