Existem algumas coisas impossíveis de desvincular da memória afetiva de um povo ao falar de seu país. Algumas parecem simples, como um céu azul ou o som do mar; outras carregam histórias, sentimentos e contradições muito mais complexas. E, entre essas pequenas e grandes referências que ajudam a construir a ideia de Brasil, existem pessoas que conseguiram capturar suas diferentes essências e transformá-las em arte, tornando-se, elas mesmas, parte da memória coletiva de uma nação.

Caetano Veloso é uma dessas pessoas. Sua voz, suas ideias, suas canções e sua trajetória cruzam décadas da cultura brasileira e fazem dele uma figura praticamente indissociável da história da música e da arte do país. Interpretar alguém tão reconhecível, portanto, é um desafio que vai muito além de reproduzir uma voz, um jeito de andar ou determinados trejeitos. Foi justamente diante dessa responsabilidade que Henrique Zamith se encontrou ao assumir o papel de Caetano em “Gil – Andar com Fé”, musical sobre a vida e a obra de Gilberto Gil, dirigido por Miguel Falabella.

Para Henrique, o primeiro passo para chegar ao personagem não foi tentar parecer com Caetano, mas entender como ele pensa. A leitura de Verdade Tropical, livro autobiográfico de Caetano, tornou-se uma das principais referências de sua preparação, acompanhada por uma extensa pesquisa de entrevistas, shows, depoimentos e performances do artista.

Livro escrito por Caetano Veloso

“Meu primeiro trabalho foi entender como Caetano pensa, como a sua sinapse funciona em relação ao que acontece e ao que aconteceu com ele. Queria compreender seus posicionamentos, suas paixões, seus medos, suas inseguranças e também suas esperanças”, conta o ator.

Nos ensaios, Henrique chegou a experimentar o que chama de um “exagero caetanesco”. A ideia era justamente passar pelo excesso para, depois, retirar o que não fosse necessário e encontrar o equilíbrio entre a figura que o público já conhece e a interpretação construída pelo ator. Com a preparadora de elenco Erica Montanheiro e a direção de Miguel Falabella, esse processo buscou preservar características reconhecíveis de Caetano sem transformá-lo em uma caricatura.

“O objetivo, tanto meu quanto do diretor Miguel Falabella, foi construir uma homenagem ao Caetano, e não uma mímese física e sonora ambulante em cima de um palco. O que se pode ver em cena sou eu, Henrique, homenageando Caetano Veloso e tentando traduzir, através do meu corpo, da minha voz e da minha interpretação, a importância que ele tem dentro dessa história”, explica.

Henrique Zamith no palco como Caetano Veloso na peça “Gil – Andar Com Fé – O Musical”

Tal interpretação também representa mais um capítulo na trajetória artística de Henrique Zamith, que começou a estudar teatro aos 9 anos e, posteriormente, seguiu sua formação em Artes Cênicas, expandindo sua atuação para áreas como cinema, música e dublagem. 

Essas experiências contribuíram para que o ator desenvolvesse uma atuação cada vez mais atenta às sutilezas e, principalmente, àquilo que existe por trás de uma fala ou de um gesto. Um recurso especialmente importante ao interpretar uma personalidade que o público já reconhece antes mesmo que ela diga a primeira palavra.

E é justamente nesse ponto que Henrique encontra seu próprio caminho para chegar a Caetano: na verdade de suas próprias emoções.

“Tudo o que eu sinto em cena precisa ser verdadeiro para mim. O que me decepciona, o que me frustra, o que me move e o que me atravessa durante a peça não é Caetano sentindo. Sou eu, Henrique Zamith, sentindo aquelas relações em cima do palco. É a partir das minhas próprias emoções que Caetano ganha vida dentro daquela história”, completa.

Mas se compreender Caetano individualmente era essencial, entender sua relação com Gilberto Gil também se tornou parte fundamental da construção do personagem. A história dos dois artistas é marcada pela amizade, pela parceria e por uma cumplicidade que se tornou especialmente significativa em um período marcado por transformações políticas, culturais e comportamentais no Brasil.

Caetano Veloso e Gilberto Gil

Em cena, Henrique divide essa relação com Gui Ventura, intérprete de Gilberto Gil. E, para ele, uma das características mais preciosas da dupla está justamente na maneira como os dois demonstravam o amor e o afeto que sentiam um pelo outro.

“Acho que uma das coisas mais preciosas que Caetano e Gil têm é o amor que sentem um pelo outro e essa irmandade inquebrável. […]”, afirma.

A conexão que Henrique encontrou ao estudar a relação entre os dois artistas também apareceu nos ensaios. Segundo o ator, a sintonia com Gui Ventura surgiu de maneira quase instintiva, sem que precisasse ser construída racionalmente.

“Quando entramos em cena e nos olhamos, alguma coisa extremamente sensível e poderosa começou a acontecer entre nós. De alguma forma, sentimos a energia, o amor e a parceria que Caetano e Gil tinham. Foi uma conexão que não precisou ser racionalizada. Simplesmente aconteceu.”

Henrique Zamith como Caetano Veloso e Gui Ventura como Gilberto Gil na peça “Gil – Andar Com Fé – O Musical” | Foto: Caio Galicci

Em “Gil – Andar com Fé”, Henrique Zamith não busca apagar a própria identidade para se tornar Caetano Veloso. Busca, através dela, encontrar uma maneira de homenagear um artista cuja história se mescla com tantos capítulos da própria história cultural do Brasil.

A peça está em cartaz no Teatro Santander, em São Paulo, até o dia 29 de Novembro e os ingressos podem ser adquiridos pelo site da Sympla.