A dublagem brasileira ocupa um lugar particular na relação do público com o cinema, a televisão e a animação. Mais do que traduzir diálogos, o trabalho dos dubladores envolve interpretação, ritmo, emoção e construção de personalidade, criando vozes que muitas vezes se tornam tão associadas aos personagens e atores quanto suas próprias performances originais.

É por isso que algumas vozes acabam atravessando gerações. No Brasil, determinados dubladores se tornam referências recorrentes para grandes atores e personagens, criando uma espécie de identidade vocal reconhecida imediatamente pelo público.

Um dos exemplos mais marcantes é Guilherme Briggs. Ao longo de sua carreira, ele se tornou uma voz recorrente para atores como Dwayne “The Rock” Johnson, Brendan Fraser, Harrison Ford , Denzel Washington, David Schwimmer  Owen Wilson, Seth Rogen e Zachary Quinto, além de dar voz a personagens como Superman, Buzz Lightyear, Optimus Prime, Cosmo, Rei Julien, Mickey Mouse, Samurai Jack, Freakazoid, Kronk, Mewtwo, Yoda e Hawk Moth, entre muitos outros. 

Mas como explicar o impacto dele na dublagem brasileira?

O começo de Guilherme Briggs 

Antes de se tornar uma das vozes mais reconhecidas da dublagem brasileira, Guilherme Briggs já tinha uma relação muito próxima com a criação de personagens e com a interpretação. Ainda criança, ele e o pai costumavam gravar histórias, entrevistas e programas fictícios em um antigo gravador, em uma espécie de radioteatro caseiro. A experiência ajudou a desenvolver seu interesse por voz, atuação e criação.

Em 1991, enquanto cursava Programação Visual na UFRJ, Briggs teve seu primeiro contato profissional com a dublagem. Uma amiga jornalista havia escrito ao jornal O Globo sobre problemas na tradução de Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa e, depois disso, foi convidada a conhecer os estúdios da VTI Rio. Briggs a acompanhou e acabou se interessando pelo trabalho. Depois de fazer testes e acompanhar as gravações, conseguiu uma oportunidade no estúdio.

Seu primeiro personagem fixo veio justamente em uma produção de Jornada nas Estrelas: Worf, de A Nova Geração. A partir daí, a carreira de Guilherme Briggs ganhou cada vez mais espaço dentro da dublagem brasileira. Em 1994, ele passou a trabalhar na Herbert Richers, levado por Orlando Drummond, e, no mesmo ano, tornou-se locutor do Cartoon Network Brasil — experiência que ajudou a aproximar sua voz de uma geração que cresceu acompanhando animações na televisão.

Outro momento importante veio em 1997, quando Briggs assumiu a voz de Clark Kent/Superman em Lois & Clark: As Novas Aventuras do Superman, substituindo Alexandre Lippiani. A partir daí, o personagem se tornaria uma de suas marcas mais reconhecidas, especialmente nas animações da DC, como Liga da Justiça e Liga da Justiça Sem Limites.

Os personagens que atravessaram gerações

É nesse período que a voz de Briggs começa a ficar associada a personagens que ultrapassaram as próprias produções. Buzz Lightyear, Mickey Mouse e Optimus Prime são alguns dos exemplos mais conhecidos, mas a lista vai muito além: Freakazoid, Cosmo, Rei Julien, Kronk, Samurai Jack, Yoda, Mewtwo, Scooby-Doo, Han Solo, Marvin, o Marciano e Ele, de As Meninas Superpoderosas também fazem parte de sua trajetória.

São personagens de universos completamente diferentes — de Disney e Pixar à DC, Star Wars, Transformers, Pokémon e desenhos da Cartoon Network — e, em muitos casos, a interpretação brasileira de Briggs acabou se tornando parte da forma como o público daqui reconhece essas figuras. Seu trabalho como Freakazoid, por exemplo, permitiu explorar mudanças de voz, sotaques e diferentes registros de humor; já personagens como Buzz, Superman e Optimus Prime exigem construções vocais completamente distintas.

A criatividade de Guilherme Briggs não ficou restrita à dublagem. Na internet, ele criou o blog “Teatro de Bonecos”, onde produzia vídeos e imagens de humor utilizando seus próprios bonecos como uma forma de experimentar técnicas de voz e interpretação. O personagem principal era Tobias, um fantoche de cachorro que funcionava como uma espécie de alter ego do dublador. O trabalho chegou a ser premiado pelo TopBlog, em 2009 e 2011, na categoria de Melhor Blog de Humor.

Briggs também se tornou colaborador do Jovem Nerd, participando especialmente do Nerdcast, aproximando ainda mais seu trabalho do público ligado à cultura pop e ao universo geek. Essa capacidade de brincar com a voz e transformar personagens também é uma característica destacada por profissionais que trabalharam com ele. Orlando Drummond, um dos grandes nomes da história da dublagem brasileira, descreveu Briggs da seguinte maneira:

“Sabe-se pouco do muito que ele faz e é capaz de fazer por dominar bem o inglês e saber brincar com a língua para poder criar no uso da voz.”

Em 2013, o dublador Alexandre Moreno também destacou justamente esse lado criativo de Briggs ao defini-lo como “a referência da área na nova geração, pois não matou a criança que tem em si”.

A característica também aparece nos trabalhos de Briggs como diretor de dublagem. O ator Leandro Hassum, que trabalhou com ele em Meu Malvado Favorito, chamou atenção para sua capacidade de adaptar os diálogos ao jeito brasileiro:

“O que faz dele um dublador singular é a capacidade de informalizar falas, dar malandragem a elas.”

Já Rodrigo Santoro, dirigido por Briggs na dublagem de Rio, resumiu sua impressão sobre o profissional em uma palavra: “versatilidade”.

Da dublagem à direção

Briggs também passou a atuar nos bastidores. Em 2003, tornou-se diretor de dublagem na Delart, função que exerceu até 2017. Nesse período, participou da construção das versões brasileiras de grandes produções do cinema, da televisão e da animação. Entre os trabalhos de direção estão “Rei Arthur”, “Mulan II”, “As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl”, “A Casa Monstro”, “O Segredo dos Animais”, “O Bicho Vai Pegar”, “Uma Noite no Museu”, “Encantada”, “Transformers”, “Os Simpsons: O Filme”, “Hancock”, “Homem de Ferro”, “Sexta-Feira 13”, “Star Trek”, “Transformers: A Vingança dos Derrotados”, “G.I. Joe: A Origem de Cobra”, “Star Wars: The Clone Wars”, “Avatar”, “O Lobisomem” e “Homem de Ferro 2”.

Sua atuação como diretor em animação também inclui “Tarzan 2”, “Bambi 2”, “A Nova Onda do Kronk”, “Irmão Urso 2”, “A Família do Futuro”, “Carros 2”, “O Estranho Mundo de Jack” e “Valente”. Um dos trabalhos que melhor representa essa fase é “Rio”, cuja dublagem brasileira foi dirigida por Briggs e lhe rendeu o Prêmio da Dublagem Carioca de Melhor Direção de Filme para Cinema em 2012.

Reconhecimento e uma carreira que continua

O trabalho de Guilherme Briggs também foi reconhecido por diferentes premiações da área. Ele venceu o Prêmio Yamato de Melhor Dublador Coadjuvante, em 2003, por Professor Hiragi, de Os Cavaleiros de Mon Colle, e voltou a receber o prêmio em 2010, desta vez como Melhor Dublador de Protagonista, por Os Fantasmas de Scrooge. Como mencionado, em 2012, ganhou o Prêmio da Dublagem Carioca de Melhor Direção de Filme para Cinema, por Rio. Mais recentemente, em 2024, recebeu o Crunchyroll Anime Award de Melhor Atuação de Voz em Português (Brasil) por Brook, de One Piece.

E a trajetória está longe de terminar. Nos últimos anos, Briggs continuou emprestando sua voz a produções de diferentes formatos e públicos. Entre os trabalhos mais recentes estão Superman em Minhas Aventuras com o Superman, Caim em O Incrível Circo Digital, Andy em Undead Unluck e participações em animes como Dandadan, Garouden e Tougen Anki. No universo dos games, também aparece em títulos como Call of Duty: Black Ops 6, Call of Duty: Black Ops 7, Poppy Playtime e Jurassic World Evolution 3.

Ao reunir personagens tão diferentes, além de trabalhos como diretor e adaptações que ajudaram a moldar versões brasileiras de grandes produções, Guilherme Briggs construiu uma trajetória importante e versátil no cenário nacional.

Mais de três décadas depois de entrar pela primeira vez em um estúdio, ele continua transitando entre cinema, televisão, animações, animes e games. Uma carreira marcada não apenas pela quantidade de personagens, mas pela capacidade de encontrar uma voz própria para cada um deles — e fazer com que, para muitos brasileiros, seja difícil imaginá-los falando de outra maneira.