Em uma pesquisa social realizada por organizações como a UNICEF e a American Psychological Association, um experimento simples revelou algo profundamente enraizado em nossa sociedade. Meninos foram colocados em uma sala com brinquedos tradicionalmente associados ao universo feminino, enquanto meninas foram direcionadas para outra, cheia de brinquedos considerados “masculinos”.

O resultado foi revelador.

Enquanto as meninas assumiam o papel de heroínas poderosas, corriam com carrinhos e se divertiam explorando aquele novo universo sem restrições, muitos meninos sequer aceitaram participar da brincadeira. Alguns recusaram até mesmo sentar em cadeiras cor-de-rosa. “Eu não brinco com isso”, disse um deles. “Minha mãe só gosta que eu brinque com brinquedos de menino, não de menina.”

Para uma criança, cuja natureza mais espontânea é brincar — muitas vezes sem precisar sequer de brinquedos —, seria natural apenas se divertir. No entanto, naquele experimento, ficou evidente que, para alguns meninos, era mais fácil rejeitar tudo que estivesse associado ao feminino do que simplesmente brincar.

Esse pequeno experimento desenha, com surpreendente precisão, o funcionamento da sociedade em que vivemos. Desde cedo, muitos homens são ensinados a diminuir, rejeitar ou desprezar tudo aquilo que é associado ao feminino — incluindo, muitas vezes, as próprias mulheres.

Não por acaso.

Vivemos em uma sociedade construída sobre bases patriarcais. Durante séculos, o papel feminino foi limitado à submissão, enquanto aos homens eram reservadas as possibilidades de escolha, poder e protagonismo. À mulher, cabia obedecer; ao homem, decidir.

Com o passar dos anos, no entanto, graças a inúmeras lutas e conquistas femininas, os espaços começaram — lentamente — a se abrir. Direitos foram conquistados, oportunidades surgiram e a presença feminina passou a ocupar lugares antes impensáveis.

Mas o tempo, por si só, não é capaz de apagar séculos de desigualdade.

Durante grande parte da história, o “existir” de uma mulher esteve ligado quase exclusivamente à sua relação com um homem. O casamento era visto como sua principal função social, e a valorização feminina frequentemente dependia da posição masculina à qual ela estava associada.

No Brasil, por exemplo, essa desigualdade foi formalizada pela própria lei. Até 1962, o Código Civil de 1916 determinava que mulheres casadas eram consideradas “relativamente incapazes”, precisando da autorização do marido para trabalhar, abrir contas bancárias, viajar, aceitar heranças ou assinar contratos importantes. Essa situação só foi modificada com a criação do Estatuto da Mulher Casada.

Mesmo com tantas mudanças, o imaginário coletivo ainda carrega resquícios profundos dessa construção histórica.

Não à toa, a escritora britânica Virginia Woolf escreveu, em seu ensaio Um Teto Todo Seu (1929), uma frase que atravessaria gerações:

“Anon, who wrote so many poems without signing them, was often a woman.”
(“Anon, que escreveu tantos poemas sem assiná-los, frequentemente era uma mulher.”) 

Ou, como a frase ficou popularmente conhecida:

“Por grande parte da história, ‘anônimo’ foi uma mulher.”

Durante séculos, mulheres produziram arte, ciência, literatura e descobertas extraordinárias. Muitas vezes, porém, seus nomes não puderam ser assinados. Em outros casos, foram simplesmente apagados.

Ainda assim, elas nunca deixaram de tentar existir.

Mesmo em um mundo que constantemente tentava reduzi-las, silenciá-las ou invisibilizá-las, inúmeras mulheres desafiaram as estruturas do seu tempo para ocupar espaços que lhes eram negados. Algumas se disfarçaram para lutar, como Joana d’Arc. Outras romperam barreiras médicas, como Agnodice, na Grécia Antiga. No Brasil, mulheres como Maria Quitéria desafiaram as regras sociais para lutar pela independência do país.

Mas existem também histórias ainda menos conhecidas.

Histórias de mulheres que não apenas tiveram seus caminhos dificultados — mas que viram suas próprias ideias, descobertas e criações serem apropriadas por homens que levaram o crédito por aquilo que elas haviam feito.

É sobre algumas dessas mulheres que precisamos falar.

Mulheres cujas ideias foram apagadas ou apropriadas

Zelda Fitzgerald

Escritora, artista e esposa de F. Scott Fitzgerald, Zelda contribuiu significativamente para a obra do marido. Trechos de seus diários e cartas foram incorporados por Scott em romances famosos, como The Great Gatsby, muitas vezes sem crédito. Durante anos, seu talento literário foi ofuscado pela narrativa de que ela era apenas a “musa” do escritor.

Camille Claudel

Escultora francesa extremamente talentosa, Claudel trabalhou ao lado de Auguste Rodin. Durante muito tempo, sua contribuição artística foi atribuída a Rodin, e muitas de suas obras foram eclipsadas pela fama do escultor.

Lise Meitner

Física austríaca que participou da descoberta da fissão nuclear, base da energia nuclear moderna. No entanto, o Prêmio Nobel de Química de 1944 foi concedido apenas a Otto Hahn, seu colega de pesquisa.

Margaret Keane

Pintora famosa por retratar crianças com olhos enormes. Durante anos, seu marido, Walter Keane, afirmou ser o autor das obras. A verdade só veio à tona após um processo judicial, no qual Margaret pintou uma obra ao vivo no tribunal para provar a autoria.

Mary Shelley

Autora de Frankenstein, publicado inicialmente em 1818 sem seu nome. Muitos leitores acreditaram que o autor era seu marido, o poeta Percy Bysshe Shelley. Apenas anos depois ela passou a receber crédito pleno pela obra.

Nettie Stevens

Geneticista que descobriu que o sexo biológico é determinado pelos cromossomos X e Y. Durante anos, seu trabalho foi atribuído principalmente ao cientista Thomas Hunt Morgan.

Alice Guy-Blaché

Pioneira do cinema e considerada a primeira diretora de cinema da história. Dirigiu centenas de filmes no início do cinema, mas por décadas sua importância foi ignorada pela historiografia dominada por homens.

Elizabeth Magie

Criadora do jogo The Landlord’s Game, desenvolvido para criticar a concentração de riqueza. Décadas depois, um homem chamado Charles Darrow adaptou o jogo e o vendeu como Monopoly.

Jocelyn Bell Burnell

Astrofísica que descobriu os púlsares enquanto ainda era estudante de doutorado. O Prêmio Nobel de Física de 1974 foi concedido apenas ao seu orientador, Antony Hewish.

Ada Lovelace

Matemática que escreveu o primeiro algoritmo da história destinado a ser executado por uma máquina — sendo considerada a primeira programadora de computadores.

Rosalind Franklin

Cientista cujas imagens de difração de raios X foram essenciais para revelar a estrutura do DNA. O Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1962 foi concedido a James Watson, Francis Crick e Maurice Wilkins.

Anna Dostoevskaya

Esposa do escritor Fyodor Dostoevsky, Anna foi muito mais do que companheira. Estenógrafa, editora e administradora da obra do marido, ela foi fundamental para a produção e organização de seus romances, além de ter salvado a carreira literária dele ao reorganizar suas finanças e publicações.