Do consultório vitoriano aos palcos pop: por que a sociedade entra em pânico quando garotas gritam de prazer (ou de amor)

Em algum ponto entre o primeiro acorde e o refrão, algo explode. 

É possível sentir o tremor, mas não o dos tantos pés que batem inquietos na arquibancada. Um tremor mais forte, que vem de dentro. É quase como se uma fraqueza tomasse conta do corpo, mas uma fraqueza que dá força.

Nos jornais, essa força era chamada de “histeria coletiva”, “frenesi”, “obsessão doentia”. Ali, naquele momento, essa força era a razão pela qual as tantas garotas se empilhavam uma em cima da outra, era a razão dos gritos, desmaios e choros copiosos. E eram esses olhos cheios d’água que, assim como espelhos, refletiam a visão mais esperada da vida daquelas meninas: as covinhas meticulosamente calculadas para estarem na angulagem correta da perfeição, as roupas listradas com os suspensórios,  o cabelo loiro -pintado- mais encantador do momento, os olhos castanhos hipnotizantes e misteriosos ou o sorriso mais caloroso (e saudoso) de todos os tempos.

A cena descrita é um show do grupo One Direction em 2012 – mas poderia ser do The Beatles em 1964, do Elvis Presley em 1956, ou da BTS em 2019. Em qualquer que fosse a ocasião, o comportamento dos fãs (em sua maioria meninas) seria tratado como irracional, barulhento, perigoso e emocional. Como se algo nelas precisasse ser contido ou, até mesmo, curado.

(Fãs animadas ao verem o The Beatles, 1960)

Em outubro de 2013, período em que a boyband One Direction alcançava o auge de sua popularidade, o veículo de notícias Enstarz publicou uma matéria que enquadrava o comportamento das fãs como uma ‘loucura doentia’, utilizando depoimentos de garotas entre 14 e 17 anos como base para sustentar essa narrativa.

A tentativa de curar mulheres por seus instintos “não conectados” ao feminino recatado vem de muito antes, de um tempo em que o prazer e a emoção feminina eram vistos como sintomas de uma doença.

Quando o feminino se torna diagnóstico

A palavra “histeria” vem do grego “hystera”, que significa útero. O órgão responsável pela gravidez, menstruação e até mesmo o parto era, na Grécia Antiga, considerado por muitos filósofos – como Hipócrates- um órgão errante que vagava pelo corpo, agente causador de doenças caso a mulher não tivesse relações sexuais o suficiente. 

Esse mito ecoou por décadas até que, no século XIX, a histeria virou um diagnóstico médico formal e a doença mais atribuída às mulheres de classe média alta na Europa vitoriana. De insônia até dormir excessivamente, os sintomas eram uma lista sem fim de comportamentos que escapassem do que, naquela época, se esperava de uma “digna” e boa mulher. 

Para além de terem suas personalidades, gostos e sentimentos transformados em um diagnóstico – chora demais, responde demais, muito desejo sexual, pouco desejo sexual…histérica! -, médicos como Jean-Martin Charcot, no Hospital da Salpêtrière em Paris, transformavam essas mulheres em espetáculo. Diagnosticadas como histéricas, ( ou “com histeria”) ele as exibia em auditórios lotados como uma peça de teatro. Rapidamente esses espetáculos foram transformados na mais nova possibilidade de passeio do cidadão parisiense, onde era plausível arrumar-se e sair de casa para ir ao Salpêtrière assistir  mulheres fragilizadas e desconfortáveis sendo analisadas, estudadas e assistidas enquanto passavam por uma série de tratamentos, tudo pelo simples fato de irem além do que a sociedade esperava delas.

(pintura de 1887 , feita por André Brouillet, que retrata o neurologista Jean-Martin Charcot demonstrando um caso de histeria para uma multidão)

No Hospital Salpêtrière, médicos, alunos, ou simplesmente os curiosos, com seus cadernos em mãos e olhos atentos no passo a passo de como curar uma mulher histérica, já eram uma indicação do grande pânico diante da intensidade feminina. Mas esse pânico não começou e nem terminaria ali. Ele atravessa séculos. E talvez a pergunta central seja a mesma: por que o prazer das mulheres, em todas as suas formas, sempre foi visto como uma ameaça social? 

Para que seja possível responder essa pergunta, é preciso voltar na definição de patriarcado e como o sistema em que vivemos não é natural, e sim construído historicamente. A palavra “patriarcado” vem do grego patriarkhēs, que significa “governo do pai”, e, em sua origem, designava um sistema familiar em que a autoridade máxima era o pai (ou o homem mais velho) e com isso, tinha controle sobre a esposa, os filhos e os bens da família. 

A partir dessa dinâmica de poder, a sociedade se desenvolveu e o significado do termo se expandiu para outros âmbitos que não somente o familiar, mas um sistema mais amplo, em que o poder político, econômico e social também ficaram concentrados nas mãos dos homens. 

Uma vez que tal conceito é absorvido e entendido, é possível perceber como o prazer feminino se torna uma ameaça. A sociedade se acostumou a ver as mulheres somente como subordinadas e controladas, e a partir do momento que tal idealização sai do controle, as mulheres se tornam um perigo para a formação de uma comunidade perfeita e idealizada. As reações, preocupações e desaprovações pelos seus gostos e prazeres estão diretamente ligadas a isso. 

Ninguém parece preocupado em investigar o que há de errado com os homens que se descabelam por um gol, tatuam o corpo de símbolos e gastam o que têm (e o que não têm) por amor ao time do coração. Como observa Hannah Ewens em Fangirls: Scenes from Modern Music Culture, existe uma longa tradição cultural de deslegitimar tudo que as garotas amam intensamente, justamente porque são garotas que amam. 

(Gaúcho da Copa, torcedor símbolo da torcida brasileira que acompanhou a Seleção em sete Copas do Mundo , sempre com muita emoção e amor)

Há mais de quatro mil anos, o útero era visto como um órgão errante, capaz de se mover pelo corpo e causar desordem. Há cerca de quinhentos anos, mulheres eram queimadas nas fogueiras por serem acusadas de bruxaria. Há pouco mais de um século, pais acordavam em um dia chuvoso, se aprumavam em seus coletes e cartolas e decidiam que deviam internar suas filhas ou esposas por histeria. E há apenas treze anos, meninas voltaram a ser chamadas de histéricas por sua paixão “doentia” por ídolos como o One Direction.

No documentário intitulado “This is Us”, o diretor e documentarista Morgan Spurlock passa pela história dos cinco meninos que estavam “enfeitiçando” um batalhão de garotas e garotos ao redor do mundo com suas vozes talentosas e carisma inigualável. Em certo ponto do filme, o neurocientista Dr. Stefan Koelsch é convidado para explicar o porquê das garotas serem “loucas pelo One Direction”, e de acordo com ele, ao dar play em uma das músicas do grupo, o neurotransmissor e neuro-hormônio chamado dopamina, responsável por atribuir ao ser-humano a sensação de prazer, de motivação, regulação de humor, entre outros, é ativado, o que confere à essas garotas todos os sintomas mais comuns de alguém que está ouvindo/vendo algo que gosta muito: arrepios, tremedeiras e prazer. Ao final de sua pequena, mas essencial participação no documentário, Dr. Koelsch deixa claro: “As meninas não estão loucas. As meninas estão somente animadas”.

(show da One Direction em estádio lotado de fãs)

O pavor do prazer feminino não diminuiu e nem sumiu, só mudou de forma ao longo dos anos. Mas para além disso, o mais importante de tudo: as mulheres nunca pararam de ter seus gostos, de seguir seus prazeres, de lutar por seus direitos. Nenhum diagnóstico, fogueira ou chacota foi capaz de fazer as mulheres menos amantes daquilo que as traz felicidade, seja na Era Vitoriana ou no ínicio da primeira década dos anos 2000, em que o mundo conheceu o amor que move e une garotas por todo o mundo: o amor pelo pop. 

Talvez o que mais assuste a sociedade não seja o grito das garotas – e sim o mundo que elas podem mover com ele.